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Conhecendo a Liga Oficial Pokémon: Começos

Como os jogadores se uniram pra formar uma das mais antigas comunidades competitivas do Brasil.
Escrito por Pedro Falcão
9 min de leituraPublished on
Símbolo da Liga Oficial Pokémon

Símbolo da Liga Oficial Pokémon

© Pedro Falcão

Com tanto League of Legends, Dota 2 e uns jogos de lutinha bombardeando nossa atenção em tempos recentes, às vezes é fácil esquecer que existem muitas comunidades competitivas longe dos holofotes, ou das transmissões espetaculares para centenas de milhares de telespectadores no Twitch. No Brasil, temos comunidades que criam eventos mais antigos e simples, estabelecidas sobre uma rede quase invisível de pessoas que compartilham o mesmo amor por um jogo.
Olhando além dos telões em altíssima definição, dos requintados esquemas pirotécnicos, dos narradores ensaiados e dos jogadores-estrelas dos megaeventos de eSport, acabei conhecendo uma cena estranhamente desconhecida do país: a Liga Oficial de Pokémon.
Na primeira parte desse especial lançada hoje, vamos dar uma olhada no começo da Liga, desde as primeiras reuniões organizadas nos fóruns de grandes portais, até uma série de campeonatos nacionais organizados por um pequeno grupo apaixonado por Pokémon e competição. A segunda parte chega na semana que vem.
Pokémon rapidamente virou febre no Brasil

Pokémon rapidamente virou febre no Brasil

© Pedro Falcão

A febre dos monstrinhos de bolso

“Quando eu tinha 10 anos minha avó foi pro exterior e trouxe de lá um Game Boy Color com uma fita do Pokémon Blue. A partir daí, assim como as crianças da minha idade na época, me tornei um viciado em Pokémon”, me contou Pedro Bauer, um dos antigos organizadores da Liga e hoje um competidor casual. É verdade: as crianças que pegaram o começo da onda Pokémon lembram como era impossível não se apaixonar pelos monstrinhos de bolso, seja por conta do desenho, ou do jogo, ou mesmo só da competição em volta do game e dos cards.
Pokémon foi uma explosão cultural, e a marca era vendida a colheradas às crianças dos anos 90 e 2000. Mesmo com os tradicionais preços inflados, era raro não ver pelo menos uma criança no intervalo do recreio na escola desfilando com um Game Boy Color e uma fita de Pokémon Red ou Blue – e mais uma dúzia de crianças em volta tentando ver o que acontecia na pequena telinha do portátil. “Só consegui jogar mesmo em 2001, 2002, no auge de Pokémon Gold e Silver. Antes eu conhecia, mas jogava sempre por meio dos Game Boys dos meus amigos que possuíam pais mais generosos nos presentes”, falou rindo Thiago Castelló, outro membro de longa data da comunidade competitiva de Pokémon no Brasil. “Mas nunca tinha jogado de forma competitiva até então”, ele completa. Quando os primeiros jogos foram lançados, o modo multiplayer de Pokémon exigiam um cabo adicional que era difícil de ser encontrado em lojas de games, mesmo aquelas menos ortodoxas do centro da cidade. Com os empecilhos tecnológicos, Pokémon teve que recorrer a uma mãozinha da ainda jovem mídia de games brasileira da época para se consagrar em um nível competitivo popular.
Uma pilha de edições da Pokémon Club Evolution

Uma pilha de edições da Pokémon Club Evolution

© Fórum Nintendo Blast

A onda Pokémon bateu tão forte que logo no começo dos anos 2000 as editoras de revistas de videogame resolveram aproveitar a simpatia dos bichinhos, e assim nasceu a famosa revista Pokémon Club Evolution, que junto com a Nintendo World, era uma das poucas a ter bastante conteúdo sobre o assunto. As duas tiveram um papel fundamental de fomentar a criação de uma comunidade de pessoas apaixonadas pelo jogo. “Comecei a comprar a Pokémon Club Evolution e me interessei pelo modelo competitivo. Vi que a campanha principal do jogo era interessante, mas a batalha cara-a-cara era muito mais. Juntei dinheiro e pedi um Game Boy Advance dos EUA, e comprei no Brasil mesmo o Pokémon Silver”, conta Castelló.
Ele não foi o único a entrar no competitivo por conta dessas revistas. Tiago Calmon, outra figura recorrente do começo da Liga Pokémon no país (e atual campeão da Copa do Mundo 2014 Smogon), começou a jogar em 1999, mas só foi atrás de competir depois de descobrir a comunidade em volta dessas publicações. “Lá pros anos 2000, eu travava pequenos torneios entre colegas inspirados pelas publicações na revista Pokémon Club Evolution”, disse Calmon.
Foi nessa mesma revista que a Juliana Tamaki leu sobre um torneio local que estava sendo organizado na sua cidade, Santos, no litoral paulista. “Eu comecei a jogar desde muito nova (acho que em 1998), participei de um campeonato na minha cidade, Santos, no litoral de São Paulo, e acabei fazendo alguns amigos nessa ocasião. Em 2001, eu e a minha irmã ficamos sabendo pela revista Pokémon Club Evolution que havia um campeonato ‘nacional’ chamado Desafio à Elite dos Quatro na capital, e resolvemos juntar esses amigos para treinar pro campeonato do ano seguinte”, disse a Juliana.
Tiago Calmon (a esquerda) e Carlos Pivotto

Tiago Calmon (a esquerda) e Carlos Pivotto

© Pedro Falcão

O crescimento da internet no país também foi importante para fundamentar o cenário competitivo de Pokémon por aqui. Em pouco tempo, começaram a pipocar vários fóruns e sites só sobre o assunto. “Eu criei um site chamado Planet Johto, que fez muito sucesso porque trazíamos os episódios do desenho e colocávamos legenda e tudo”, lembra Pedro Bauer. “Nessa época, por volta de 2003, as pessoas começaram a utilizar o site para conseguir conteúdo e o fórum de outra página, a Pokémon Land, para interação com outros usuários. Esse fórum tornou-se extremamente conhecido, principalmente depois da divulgação na revista Nintendo World.”
Com os primeiros campeonatos rolando, e alguns anos até inventarem multiplayer online para portáteis, os jogadores precisavam treinar de um jeito mais rápido e eficaz do que armar disputas com amigos e colegas locais. A solução veio na forma de um bot do clássico mIRC (um programa bem flexível de troca de mensagens, muito popular nos anos 2000), que era usado extensivamente por competidores da Pokémon Land, como os antigos campeões Eric Araki e Daniel Hunter – este último, inclusive, era moderador da Land e se destacava como um dos líderes da comunidade.
“Conheci o Hunter pessoalmente e ele me apresentou a excelente Pokémon Land, com muitas pessoas ativas e competitivas. Lá comecei a praticar no bot do mIRC e a melhorar como jogador”, me contou Castelló, um caminho bem semelhante ao de Calmon. “Só em 2003 que eu conheci o ambiente competitivo de verdade, principalmente pelas simulações feitas pelo bot.” O programa simulava partidas de Pokémon em texto, o que foi vital para aproximar a comunidade competitiva e, principalmente, melhorar a técnica dos jogadores até chegar em um nível profissional.
Os competidores do DE4 2005, em São Paulo

Os competidores do DE4 2005, em São Paulo

© Pedro Bauer

A Elite dos Quatro

O primeiro evento que tentava reunir grande parte dos competidores brasileiros foi o Desafio à Elite dos Quatro, ou apenas DE4, organizado em 2001 pela equipe da revista Pokémon Club Evolution, em São Paulo. “Era como se fosse o campeonato brasileiro de Pokémon. Um torneio gigante com membros do país inteiro, e o vencedor ganhava o direito de enfrentar a Elite dos Quatro. Era igualzinha à Liga Pokémon do desenho”, Bauer lembrou rindo. Com um público de aproximadamente 100 pessoas, aquele foi apenas o começo.
“Minha irmã, dois amigos e eu fomos até São Paulo para participar do segundo DE4, em 2002, no qual eu ganhei em um dos dias da competição”, disse a Juliana. “Naquela edição, duas pessoas da E4, o Eric (que também era fundador do torneiro e membro da revista Pokémon Club Evolution) e a Juliana Fernandes, iam sair da Elite e estavam procurando substitutos. O Leopoldo Aguiar e eu fomos os ganhadores daquele ano e também escolhidos para entrar na E4”, lembra com orgulho a jogadora.
O próximo passo era consolidar a comunidade competitiva em uma só Liga. Continuando a transformação do desenho e do jogo em realidade, como me disse o Castelló, “eram muitos jogadores espalhados pelo Brasil e numa iniciativa do Eric Araki, inauguramos os Ginásios do Brasil”. Naquela época houve a primeira troca de geração com o lançamento das versões Gold, Silver e Crystal pro Game Boy. A Juliana também lembra desse processo: “O objetivo do Eric e da Juliana Fernandes saírem foi justamente para começar o projeto de criação da Liga Oficial Pokémon Evolution, a LOPE, em janeiro de 2003.”
“O DE4 foi em julho de 2002, e nesse meio tempo tivemos alguns campeonatos não-oficiais e alguns laços foram estreitados. O projeto da LOPE, inicialmente, era constituído dos oito ginásios originais de Kanto, do primeiro jogo, com oito líderes e um discípulo escolhidos pelo Eric. A maioria eram jogadores já conhecidos, em geral de São Paulo, Rio e Brasília”, conta a jogadora. “O primeiro campeonato oficial da LOPE foi dentro do Anime Festival em São Paulo, e depois, aos poucos, foi se espalhando pros outros estados. Eu mesma viajei para ajudar a organizar as LOPEs de Curitiba, Brasília e Belo Horizonte.”
Castelló também integrava o rol de líderes de ginásio da época, como ele me contou: “Nessa criação dos ginásios, acabei sendo chamado para ser o Gym Leader dragão, e ocupei o cargo por um ano, quando resolvi sair pois não tinha tempo para manter o mesmo nível competitivo dos outros jogadores”. A Liga foi ganhando forma aos poucos, e até perdeu o ‘Evolution’ do nome com o fechamento da revista Pokémon Club Evolution, se tornando apenas LOP. No meio dos anos 2000, a Liga estava em plena velocidade de expansão, como lembra Pedro Bauer: “Entre os anos de 2004 e 2006, ganhei 20 Insígnias Pokémon entre as LOPs de RJ e as eventuais viagens que fiz a São Paulo”.
Jogadores no DE4 2006, no Rio de Janeiro

Jogadores no DE4 2006, no Rio de Janeiro

© Pedro Bauer

Depois que a Liga se consolidou, as maiores capitais brasileiras eram representadas por um Gym Leader fixo, o que significa que se quisesse conquistar a insígnia de um determinado ginásio, você tinha que ir até respectiva cidade para disputar a principal competição local. As semelhanças com a história do jogo e do anime eram realmente profundas.
Com o tempo, jogadores antigos foram se aposentando do competitivo enquanto outros continuavam espalhando a palavra Pokémon pelo Brasil. “Em 2006 me mudei para Brasília onde tive o prazer de trabalhar como organizador e de ajudar a tornar a LOP-BSB uma LOP competitiva e de ajudar a impulsionar o cenário do Pokémon no centro oeste, trazendo muito mais jogadores”, me contou Bauer. “Retornei ao Rio e continuei participando do cenário, mesmo que de forma menos competitiva. Até hoje mantenho muitas das amizades que fiz durante esses anos e acredito ter feito meu papel, na medida do possível, para contribuir com Pokémon e com a competição entre os treinadores.”
Continua na semana que vem na segunda parte do especial da Liga Oficial de Pokémon no Brasil.