Dark Souls, obrigado e até qualquer dia

Cada morte é um aprendizado que levamos para a vida
Captura de tela de Dark Souls 3
Dark Souls 3 © From Software
Por Flávio A. Priori

Assim como toda chama, que por mais forte que seja, um dia se extingue, a saga de Dark Souls chegou ao final de seu ciclo, com o lançamento do DLC The Ringed City para o terceiro jogo da série no final do mês de março , cinco anos e meio após a chegada do primeiro título. Pessoalmente, Dark Souls foi uma saga que me marcou profundamente, sendo mais do que “só um jogo”. Nada mais justo que uma última carta de despedida, não?

Meu primeiro contato com a série foi em 2015, lá pelo mês de setembro. Sempre fui parte da galera que achava o jogo exageradamente difícil, extremamente punitivo, sádico a níveis absurdos, essas coisas. Alguns meses antes, minha tentativa frustrada em Demon’s Souls reforçaria ainda mais esse pensamento. Óbvio que foi uma experiência inicial bem traumática. Aquele jogo tinha batido na minha cara e ido embora. Simplesmente aceitar que eu tinha perdido pra ele, antes mesmo de lutar, não parecia nada certo. Mesmo só apanhando, algo me incomodava.

Persistindo mais um pouco, a surra ficava mais feia. Só consegui matar o primeiro chefe com a ajuda de outro jogador (que matou o Taurus Demon praticamente sozinho) e sequer cheguei nos Gárgulas, o chefe seguinte. Se eu corresse, eu morria. Se eu fosse devagar, eu morria. Se eu mudasse de caminho, eu morria. Adotar uma postura mais ofensiva ou defensiva e, bem, você já sabe. Simplesmente não dava. Eu poderia simplesmente desinstalar aquele jogo lixo e seguir minha vida. Entretanto, algo ainda me incomodava. Ao mesmo tempo que eu odiava Dark Souls por me punir a cada erro, eu me odiava ainda mais por todos os erros cometidos serem únicamente culpa minha. Eu me odiava por, talvez, estar sendo exposto aos meus próprios limites.

Comecei então a me dedicar a fundo em busca de uma solução. Passava várias horas lendo comentários de outros jogadores e assistindo vídeos no Youtube. Havia uma história fantástica em Dark Souls, as possibilidades de estratégias eram imensas, um mundo incrível estava ali, pronto para ser desbravado. Mas, antes de tudo isso, o incômodo de sentir minhas fraquezas tão expostas ainda persistia. Eu tinha que encontrar um caminho para superar essa barreira.

Personagens de Dark Souls
Venha ser um SunBro também! © SquiddyTreat @ Deviantart

Foi assim que com muita insistência (muita mesmo), lentamente eu comecei a progredir. Passei pelos Gárgulas, pelo Capra Demon e seus cachorros malditos, pela infame Blighttown e, quando me dei conta, mesmo com todas as falhas, eu estava avançando. No famoso encontro com Ornstein e Smough em Anor Londo, por mais que eu tenha morrido dezenas de vezes, o sentimento de derrota já havia ido embora. A cada tentativa eu sentia que estava progredindo, mesmo que fosse algo mínimo. Ao invés de somente lamentar meus erros, eu passava a lidar com eles, buscando respostas para superá-los. Mesmo que a resposta fosse “Ok, volto nessas catacumbas daqui uns 20 níveis”.

Uma relação de ódio foi se tornando uma paixão. Ao terminar o primeiro Dark Souls, eu percebi que, por mais adversas que as situações se apresentassem, o caminho para a vitória existia, bastava apenas achar um meio. Jogando as continuações, a cada corredor o medo de falhar ainda estava lá, mas, agora, ele caminhava junto com a ansiedade pelo desafio, em me provar que eu estava realmente evoluindo.

Um professor das minhas épocas de cursinho vivia nos dizendo que nunca poderíamos dormir do jeito que acordamos, no sentido de que, por mais ínfimo que seja um aprendizado, todo dia podemos ser uma pessoa melhor do que fomos ontem, ainda que sejam pequenas mudanças, até mesmo triviais. E o que não nos damos conta é que essas pequenas conquistas podem pavimentar a busca por algo maior. Em uma perseguição incessante pelo grandioso, pelo sonho de nossas existências, nos esquecemos dos pequenos detalhes da vida e de suas pequenas conquistas que, as vezes, podem ser o que precisamos para dar os passos mais largos. Dark Souls, para mim, me trouxe exatamente isso: são as pequenas centelhas de luz que constroem a base para grandes feitos.

Personagem de Dark Souls
A eterna busca pelo fogo © From Software

Com The Ringed City nos despedimos da série e fico feliz ao ver que, de certa forma, esse último DLC condensa um pouco de tudo o que foi a série até hoje, tanto em qualidades como defeitos. Como um último presente, temos uma batalha magnífica e extremamente simbólica. No próprio fim do mundo, não lutamos contra nenhuma entidade suprema ou monstro aterrorizante. Somos agraciados com um confronto de espadas contra outro guerreiro tão mundano quanto nós, consumido pela sua esperança de criar um mundo melhor onde pudesse viver, o que, no final das contas, é o que nós buscamos também.

Hidetaka Miyazaki, criador da série, já deixou claro que não teremos mais Dark Souls por muito tempo, se tivermos algo. Já era hora da série receber um merecido descanso. Não haverão mais dragões, cavaleiros corrompidos ou exércitos de mortos vivos para enfrentar, mas a busca em atingir novas conquistas, sejam elas grandes ou pequenas e a determinação de superar meus próprios medos, essas andarão comigo por um bom tempo, enquanto procuramos pelo nosso próprio Sol.

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