Os pilotos que a Ferrari tirou da pior

De vez em quando bate uma síndrome de bom samaritano em Maranello
Massa foi abraçado pela Ferrari no final de 2002 © Paul Gilham/Getty Images
Por Tiago Mendonça

Todo ano é a mesma coisa. Chefe de nariz torcido aqui, piloto correndo risco de perder emprego ali. A vida na Ferrari é meio previsível. Uma sequência de maus resultados é suficiente para cortar a cabeça de quem for: Raikkonen, Alonso, Prost ou Mansell, e não importa nem quantos títulos você tem no currículo.

Mas por incrível que pareça, a Ferrari também tem seu lado benevolente (oh!). Quer um exemplo? Não tem muito tempo, ela pegou pelas mãos dois pilotos que estavam desempregados: Esteban Gutierrez e Jean-Éric Vergne assumiram lugares como pilotos reservas no time quando ninguém mais fazia questão deles.

“Sou muito grato porque eles acreditaram em mim, me adotaram. E com a oportunidade que me deram, surgiram muitas outras”, disse Gutierrez recentemente. Depois de passar um ano na Ferrari, ele conseguiu voltar ao grid de largada em 2016 pela estreante Haas, que é parceira técnica da equipe. Hoje, está na Fórmula E.

A contratação de Burti foi uma aposta da Ferrari © Getty Images

O histórico de “boas ações” do time de Maranello é extenso e inclui pelo menos três brasileiros. O caso mais emblemático é o de Luciano Burti. Ele sofreu um acidente gravíssimo na temporada de estreia na Fórmula 1, pela Prost, teve hemorragia cerebral e entrou em coma. Os médicos não sabiam dizer se ele ia sobreviver, muito menos ter uma vida normal.

Depois de sair do coma, ouviu que era melhor não voltar a dirigir nem carros de rua. Mas enquanto convalescia apareceu um convite inacreditável: assinar como piloto de testes da Ferrari para 2002. Burti não pensou duas vezes. Voltaria a pilotar já em janeiro, quatro meses depois da batida que quase o matou.

Eles me contrataram meio sem saber do meu estado. Não que eu estivesse escondendo, mas eu também não sabia se estava bem ou mal. Hoje, sei que não estava em condições de voltar naquele momento.

Luciano Burti

Burti conseguiu a vaga por indicação dos engenheiros da Ferrari, que viviam nos boxes da Prost, prestando consultoria sobre os motores. Eles estavam interessados no feedback que ele podia transmitir. Aos poucos, Burti se recuperou e passou três anos na equipe, participando da conquista dos mundiais de pilotos e construtores de 2002, 2003 e 2004.

De volta à F-1, quatro meses depois da pancada © Arquivo

Nessa época, a Ferrari chegou a ter três pilotos brasileiros. Rubens Barrichello era titular (ao lado de Michael Schumacher) e Luciano Burti ganhou a companhia de Felipe Massa como piloto de testes. Massa havia sido dispensado pela Sauber depois de uma temporada em que mostrou muita velocidade, mas comprou brigas que custaram caro dentro do time.

Sem emprego, esteve a um passo de correr pela Jordan em 2003, o que em retrospectiva seria uma tremenda roubada. Só não fez isso porque a equipe preferiu a grana de patrocínio oferecida pelo irlandês Ralph Firman. Essa puxada de tapete levou Massa finalmente à Ferrari – equipe que o mantinha sob contrato desde antes da estreia na Fórmula 1.

O período ao lado do time pesou favoravelmente para que ele fosse recontratado pela Sauber em 2004 e, mais tarde, assumisse um dos cockpits da equipe de Maranello como titular.

Pupo Moreno acelera a Ferrari em Jerez © Hiroshi Kaneko

É possível que você também se lembre de Roberto Pupo Moreno. Sem vaga na Fórmula 1 e sem patrocínio para correr pelas melhores equipes nas categorias de base, Moreno precisou montar o próprio esquema para disputar a temporada da Fórmula 3000 em 1988 (equivalente a GP2 atual). Acredite: mesmo assim ele venceu o campeonato.

E no meio daquela pindaíba, de não saber se teria grana para correr a próxima etapa, foi chamado pela Ferrari para desenvolver o câmbio semiautomático na Fórmula 1, um dos maiores avanços tecnológicos da década de 1980.

Outro piloto que teve a carreira transformada pela Ferrari foi o finlandês Mika Salo. Em 1999, ele estava desempregado quando foi chamado para substituir Michael Schumacher (este de perna quebrada). Salo mandou muito bem e só não ganhou o GP da Alemanha porque teve de entregar a vitória ao companheiro de equipe, Eddie Irvine, que estava brigando pelo título.

Os resultados pela Ferrari renderam dois contratos para Mika Salo: primeiro com a Sauber e depois com a Toyota.

Salo estava largado em casa quando foi chamado © F1 Pics
A Ferrari teve uma paciência de Jó com Badoer © Arquivo

Mas também há casos em que a Ferrari erra e erra feio. Exemplo: a incrível paciência que teve com o italiano Luca Badoer, que jamais conseguiu se firmar na categoria. Ele encontrou um refúgio como piloto de testes da equipe e fincou o pé por ali. Mas a casa caiu quando a equipe precisou colocá-lo como substituto de Felipe Massa em 2009 (depois do episódio da mola).

Badoer teve uma das atuações mais constrangedoras da história da Fórmula 1.

A Ferrari também insistiu em Kamui Kobayashi, japonês que teve bons resultados pela Sauber, mas não chegou a convencer os grandes times. Pois a Ferrari não temeu escalar o mito – como é chamado pelos fãs – para guiar um dos carros vermelhos durante uma exibição em Moscou.

O resultado... Bem, o resultado foi esse aí.

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