Os melhores da Stock Car: Felipe Fraga

Atual campeão abre a série “Calibre 12”, que vai trazer os perfis dos protagonistas da categoria
Dentro da nave da Cimed Racing
Dentro da nave da Cimed Racing © Bruno Terena/Red Bull Content Pool
Por Tiago Mendonça & Andrea Amadeo

Quando você está se ferrando muito na vida, e dá tudo errado, sempre aparece alguém pra dizer que ‘pode ser um sinal’. Bem, no caso de Felipe Fraga esse sinal veio no formato internacionalmente conhecido como ‘rasteira’. Depois da boa temporada de estreia na Fórmula Renault Alps em 2012, quando conseguiu dois pódios, Fraga renovou contrato para mais um ano na equipe Tech 1 Racing.

Mas ele nunca mais voltou a alinhar no grid de largada, simplesmente porque tomou uma bela puxada de tapete.

“A equipe francesa me sacaneou. Quando faltava um mês para o início da temporada, assinaram com uns pilotos russos. E como as equipes que sobraram eram ruins, tive de voltar para o Brasil”, conta.

Tudo bem que esta era uma possibilidade que já vinha sendo discutida. Apesar do suporte da Red Bull, Fraga vinha encontrando dificuldades para se manter competindo no exterior. A grana estava cada vez mais curta. Mas a família mantinha o apoio e, se não fosse a rasteira dos franceses, certamente ele teria tentado por mais algum tempo.

Enfim: foi o sinal que ele precisava.

Fraga já vinha frequentando as corridas de Stock Car aqui no Brasil havia algum tempo, porque foi escalado para guiar o carro de volta rápida da Red Bull Racing (aquele que leva convidados para curtir uma volta de pé embaixo pelo circuito). Foi assim que ele se aproximou de Cacá Bueno, que virou uma espécie de mentor da carreira dele.

Nessa época eu perguntei o que ele achava de eu voltar para o Brasil... Ele disse que era arriscado, mas disse pra eu vir. E eu perguntei: você me ajuda? Ele disse: com dinheiro agora não, mas posso te direcionar. Foi então que ele começou a me instruir no Brasileiro de Turismo, em 2013, e eu comecei a ganhar quase todas as corridas. E fui campeão.

Felipe Fraga
E aí? Será que o Fraga estava bem de mentor?
E aí? Será que o Fraga estava bem de mentor? © Bruno Terena/Red Bull Content Pool

Foi justamente Cacá quem conseguiu a vaga na equipe Vogel para que Fraga pudesse fazer sua estreia na Stock Car no ano seguinte, em 2014. O que viria a seguir ficou marcado para sempre na história da categoria: Fraga venceu logo em sua primeira corrida, antes mesmo de tirar carteira de motorista. Aos 18 anos, tornou-se o mais jovem vencedor de todos os tempos.

Como esta prova foi transmitida ao vivo na Globo, ele virou uma minicelebridade. Foi o assunto das padarias no café da manhã de segunda-feira.

E o resultado – somado a outros que viriam ao longo do ano – ajudou a abrir as portas para uma oportunidade ainda maior.

Um contrato na Cimed Racing.

O que esse fenômeno seria capaz de fazer agora que estava em uma equipe de ponta? Bem, a resposta não era tão óbvia. Fraga teve uma primeira metade de campeonato bem ruim em 2015. O companheiro de equipe Marcos Gomes ganhava tudo. E ele, nada.

O carro de 2015 era muito ruim. E eu não sou perfeito, errei muito. Bati sozinho, acabei o campeonato em nono. O Felipe de 2016, mesmo com o carro ruim, teria ficado em quinto, sexto. Acho que o que melhorou foi a cabeça. Não fico mais desesperado de tirar a diferença no braço. Antes eu acabava me precipitando para alcançar os outros, errava, fazia cagada, rodava ao tentar ultrapassar.

Felipe Fraga

Fraga diz isso hoje numa boa, na certeza de que, por incrível que pareça, não tinha mesmo a nave que todo mundo acreditava que tivesse. Mas na época ele passou metade do ano bastante inseguro.

E é compreensível.

Coloque-se na pele do moleque. Acabara de assinar um belo de um contrato, era a esperança de futuro tanto da Red Bull quanto da Cimed, tinha um companheiro de equipe plenamente satisfeito em termos de performance. Você teria coragem de chegar lá e reclamar do carro? Com que bagagem?

Por algum tempo Fraga achou que o problema era ele.

Uma sensação que só piorou depois que ele sofreu um dos acidentes mais assustadores da história da Stock Car, quando acertou a traseira do carro de Thiago Camilo a mais de 200 km/h na reta do autódromo de Curitiba.

Quem viu esta cena viveu momentos de angústia.

Fraga não saía do carro. O resgate foi longo e o pai dele, Irineu, desabou em lágrimas quando o impediram de ver o local da batida.

Todo mundo temeu pelo pior.

Apesar do susto, e do resgate delicado, Fraga foi encaminhado ao hospital apenas por precaução. Passou a noite em observação, mas foi liberado e estaria presente já na corrida seguinte, em Goiânia. Não sofreu nada.

Mas no lado psicológico, continuava aquela sofrência.

Até o meio do ano eu só fui tomando. O carro não andava! Então, estava dando tudo errado. E aí veio a panca. Lembro da hora em que ia bater. Lembro de ver a marca Ipiranga se aproximando e depois só me lembro quando estavam me tirando do carro. Não conseguia mexer minhas pernas, foi difícil, e eu só ficava pensando coisas ruins, o que ia acontecer. Pensei: não é possível, tenho que me benzer. Aí veio Goiânia, carro novo. Tivemos só 7 dias pra conseguir fazer tudo (geralmente leva mais de um mês). Treinei e fui o mais rápido. Foi um momento muito emocionante, pois os caras trabalharam no Dia dos Pais pra fazer meu carro novo. E aí, depois dessa corrida, tudo melhorou. Só vieram resultados bons.

Felipe Fraga

Foi mesmo uma virada dessas espetaculares.

Fraga assumiria a liderança do campeonato de 2016 já na quarta etapa e seria o grande nome da temporada. No caminho, conquistou a vitória na cobiçada Corrida do Milhão, chegando imediatamente à frente do ídolo de infância Rubens Barrichello.

Pela exposição gerada pela prova e pelo prêmio de R$ 1 milhão, uma vitória nessa etapa costuma ser comparada a um título.

Mas ao ser campeão no final do ano, em cima do mesmo Rubinho, Fraga teria melhores condições de fazer essa análise. “Eu acho o título muito mais importante. Eu trocaria R$ 3 milhões por um título”, afirma.

Aos 21 anos, ele tornou-se o campeão mais jovem de todos os tempos, um recorde que já durava desde 2004 (era de Giuliano Losacco, aos 27).

Quem segura o moleque?
Quem segura o moleque? © Bruno Terena/Red Bull Content Pool

Tão jovem, tão vitorioso. Os resultados de Fraga fazem a gente se perguntar o que seria dele se tivesse mais oportunidades na Europa, e não tivesse se desviado do caminho da Fórmula 1.

Pode crer que esta dúvida não é só nossa.

Eu não sou frustrado por isso, mas também não é algo que me deixa feliz. Ainda acho que tem uma luz no fim do túnel, pois tenho só 21 anos, sou novo. É tudo questão de patrocínio e oportunidade. Se eu me preparar e tiver patrocínio, posso conseguir, sim. Mas eu não posso ficar pensando muito nisso, senão fico doido. Eu costumava ficar vendo resultados das categorias de base para ver se eles andavam melhor do que eu, mas parei. Decidi focar aqui e, se aparecer uma chance, ótimo. Se não aparecer, ok.

Felipe Fraga

Entre os rivais de Fraga nas categorias de base europeias estavam caras como Daniil Kvyat e Stoffel Vandoorne. Ambos já chegaram à Fórmula 1.

Mas como diria aquele amigo chato, ‘não era pra ser’. Ou: ‘talvez seja um sinal’. Felipe Fraga hoje ocupa uma posição que muitos pilotos do mundo inteiro passam a vida batalhando pra conseguir: faz o que gosta, ganha pra isso, vence corridas e campeonatos. Não tem do que reclamar (e não reclama).

Em apenas três anos de Stock Car, quebrou todos os recordes de precocidade.

Suficiente para garantir seu lugar na Cimed Racing – que montou um verdadeiro dream team e agora conta também com Cacá Bueno – e renovar seu contrato de patrocínio pessoal com a Red Bull até 2019.

No caso das bebidas energéticas, a relação vai muito além da parceria comercial: é a energia extra que Fraga busca nos treinos da Stock.

“Eu tomo sempre no sábado antes da classificação. Me ajuda muito na concentração, no foco. Eu brinco com o pessoal da equipe dizendo que faço a volta da classificação ‘pendurado no Red Bull’”.

Energia extra para o treino de classificação
Energia extra para o treino de classificação © Bruno Terena/Red Bull Content Pool

Ok, aí está uma das fontes de energia do Fraga.

Mas e os pontos fracos? Qual será a kriptonita dele? Bem, a gente encontrou uma bela lista. Ou melhor: um verdadeiro cardápio.

Tenho alergia a muitas coisas: peixe, camarão, castanha, macadâmia, avelã. Nunca fiquei internado por causa disso, mas já tive de correr para o hospital algumas vezes. Desde pequeno, quando como peixe, passo mal.

Felipe Fraga

Felipe Fraga abre a série "Calibre 12" do RedBull.com. Aqui, vamos explorar um pouco melhor os perfis dos doze melhores pilotos da Stock Car. Próximo convidado: Ricardo Maurício.

Fraga vai em busca do bicampeonato
Fraga vai em busca do bicampeonato © Bruno Terena/Red Bull Content Pool
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