Coruja BC1: 2k17 é dele

O jovem MC quer fazer história com o seu primeiro álbum, "NDDN". Leia nosso papo com ele.
Rapper Coruja saindo de um carro no clipe de "Modo F"
Coruja BC1 © Reprodução
Por Vinicius Felix

Era o segundo sábado do mês de fevereiro de 2017. No palco do Centro Cultural São Paulo, Emicida convida Coruja BC1 para apresentar suas duas músicas mais recentes.

A rápida participação especial foi quente. Quem ali ainda não conhecia Gustavo Vinícius Gomes de Sousa, o nome completo do Coruja, com certeza começou a prestar atenção no rapper, especialmente quando ele acelerou alguns versos de “Passando a Limpo”. O registro postado no Youtube comprova:
 

“Na corrida meus verso é pancada/ Pesa tonelada, caneta afiada/ Não pago rajada, pra ideia manjada/ De quem fode a cena, e transforma em piada/ Mancada é induzir a molecada/ Acabar na calçada, bem loco com a pedra na mão/ Por isso eu construo um legado/ Ligado que a vida é bem mais que emoção”

O clima positivo do show se repete nas redes sociais. Os dois singles lançados recentemente pelo rapper, “Passando a Limpo” e “Modo F”, chamaram a atenção, conquistaram muitos acessos e provocaram a ansiedade de novos e velhos fãs pelo seu álbum estreia.

Até aqui, o rapper que nasceu em Osasco, mas cresceu em Bauru, interior de São Paulo, cidade pra onde se mudou quando tinha 7 anos, tem duas mixtapes: "Até Surdo Ouviu" (2012) e "A voz do coração" (2014).

Antes disso ele quase se firmou como b-boy. Foram os parceiros de de quebrada, Binho e Breakão, que deram o toque pra ele começar a rimar. Aliás, foi Binho quem criou o apelido Coruja. “Ele me deu este apelido pelas semelhanças com o animal, na época não gostei, mas o apelido ficou”. Daí ele teve uma dupla e até um grupo que reunia 8 rappers. “Era quase um Wu Tang Clan”. Só depois que esse grupo acabou que ele investiu na carreira solo - a primeira mixtape saiu quando ele ainda vivia no interior, a segunda veio quando ele voltou para São Paulo.

No papo que tivemos, Coruja conta sobre suas influências, trampos que já fez, explica o motivo da demora em produzir o primeiro álbum, o seu lado de compositor para outros artistas e conta algumas novidades que vão aumentar ainda mais a ansiedade dos fãs. Dá uma ollhada na conversa:

É verdade que seu primeiro instrumento foi um pandeiro e que você gostava de repente?

Coruja: Tenho influência do meu avô que era pernambucano, ele que me deu um pandeiro. Na época, tive contato com o repente nas ruas do centro quando minha mãe me levava ou pra passear ou nas casas que ela trampava no centro de empregada doméstica. E sempre tinha no centro da cidade algumas repentistas fazendo embolada na rua, eu sempre fui apaixonado por música e rima e essa foi minha primeira influência musical antes de conhecer o hip hop. Já minha adolescência foi soul e funk americano, muito break beat, disco. Eram as músicas que nós b.boys mais ouvíamos e chapávamos. Nas quebrada, no bar, tocava forró, samba. Nos fluxo de vila, funk carioca. Tudo isso influenciou na minha música. Com 14, 15 anos comecei a conhecer e estudar mais o jazz e o rock em sua origem. Nessa época tive um grande contato com o reggae também através de um amigo. Minha música é uma mistura de tudo isso.

Como foram esses "dois anos pra volta no mínimo cinco à frente"? Qual a razão dessa pausa depois da mixtape de 2014?

Senti a necessidade de buscar referências, não só musicais, mas literárias e até mesmo do próprio cinema. Queria fazer um álbum diferente de tudo que estava sendo lançado na música rap no Brasil, então fui estudar pra isso, pra conseguir o resultado que eu queria tanto e poder presentear o público da música rap com um álbum que marque história, não apenas um momento.

Parece que agora você vive dias muito agitados, não? Vejo você postando o tanto que anda trampando, escrevendo. Como foram os meses de janeiro e fevereiro de 2017?

Nesse mês de janeiro eu escrevi 40 canções contando participações, músicas de outros gêneros que eu escrevi pra outros artistas, músicas pra projetos futuros. Conciliando com shows e entrevistas foi um começo de ano bem agitado, muito trabalho mesmo, eu gosto disso, aliás, eu amo música e quero que fique mais corrido cada dia mais, rs.

Há quanto tempo você consegue viver só do Rap? Teve que trampar muito em outra coisas?

Várias outras coisas: pedreiro, mudança, fazer música na rua pra ganhar uns trocados. Dormi na rodoviária várias vezes, de favor em casa de amigo, em ocupação. Graças a Deus hoje tenho meu próprio barraco e tô trampando pra conquistar minha casa própria. Ainda estou sobrevivendo de música, mas lutando pra viver dela a cada dia.

Vamos falar do processo de feitura do seu primeiro álbum, NDDN. Como foi?

Peguei os álbuns que eu mais amo da velha a nova escola, "Illmatic”, "The Black Álbum", "The 18th Letter", "Sobrevivendo no inferno", "Emicidio", "To Pimp a Butterfly", "Forest Hills Drive". Após isso, peguei minha realidade e minha verdade, transformei em escrita, e eu e o meu mano Skeeter começamos o processo de criação das produções. Skeeter é um gênio, fez batidas que vão marcar uma era. O álbum está mesclado, não posso dar mais detalhes de como ele está, mas acredito que ele vai falar por si. E é exatamente nisso que mora a grandeza da música e a magia da arte.

E o significado de N.D.D.N? É mesmo "No dia dos nossos"?

Não Duvido De Nada rs, pode ser este nome. Brincadeira, realmente é este nome, No Dia Dos Nossos, é uma continuação dos nomes dos meus outros projetos, gosto da história de quebra cabeças, se você juntar tudo que já lancei dá uma frase que faz sentido, observe: " Até Surdo Ouviu A Voz Do Coração No Dia Dos Nosso", rs

Você fez muitas parceria com o Fióti que foram lançadas ano passado. Queria que você falasse mais desse seu lado de fazer canção. Isso pode aparecer mais fortemente no seu trabalho solo também?

Sim, nesse ano de 2017 mais artistas de outros gêneros lançarão músicas escritas por mim. Eu e o Fióti temos mais parcerias vindo por aí, tem um reggae que será hit, não tenho dúvidas! E outras músicas com outros artistas serão lançadas também. E tem umas ainda que estou esperando pra mostrar pro artista certo, tenho mpb, reggae, pop, rock, samba, entre outras canções, aqui paradas esperando o artista certo.

E como é sua amizade com o Emicida, Fióti, o pessoal da Lab Fantasma?

Eles são como uma família pra mim, Emicida e Fióti me tratam como um irmão mais novo, sempre me ajudam muito. Aprendi muita coisa com o Emicida e a Lab, inclusive a forma como devo conduzir minhas peças no tabuleiro e organização. Amo todos do time Lab como minha família.

Sei que gosta de ler. Quais são seus livros favoritos, leituras recentes? Influenciaram de alguma forma o novo trabalho?

Influenciaram, gosto da biografia do James Brown, ensina muito sobre a questão do business na música, gosto da biografia de Huey P. Newton e Malcolm X, ensinam muito sobre a luta contra o racismo. Gosto das poesias de Manoel Bandeira.
Indico "12 anos de escravidão", é um livro muito bom. Acabei de ler um livro da autora Chimamanda Ngozi Adichie, muito bom também, onde ela fala sobre feminismo, sociedade, gêneros, e racismo. Atualmente estou lendo um livro chamado "O Poder das Relações Humanas", comecei agora e já to gostando.

Você cita muito a cultura pop - especialmente quadrinhos, filmes e seriados. O que você mais gosta nessa área e o que te inspira também por aqui?

Gosto pra caramba dos heróis da Marvel, principalmente os que tem uma história mais sofrida, ou seja, os que passou um veneno mesmo, como Luke Cage, Spider Man, Jessica Jones, Demolidor. Tem também os que eu não gosto, como Homem de Ferro, Capitão América e Thor, de resto, chapo bastante em X-Men. Sou apaixonado por cinema desde moleque, espero fazer parte dele um dia. Filmes e séries me influenciam muito: “Cadillac Records”, “A Procura da Felicidade”, “O Lobo de Wall Street”, “Django Livre”, vixe, se eu continuar não paro mais, rs. Séries? Gosto muito das mais atuais, “The Get Down”, “Stranger Things”, “Black Mirror”, entre outras.

Fale cinco nomes novos do rap nacional novos que merecem um destaque.

Amiri, Drik Barbosa, Raphão Alaafin, Muzzike, Well, tem mais, mas como posso citar só cinco, vou citar esses.

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