Mick Fanning

Por esta altura no ano passado, Mick Fanning gostava tanto do Brasil como de levar um pontapé nas canelas. Isso dói – muito. Ele não gostava das ondas, a prova lá não o atraía e, para provar que a sua raiva pelo Rio não tinha barreiras, começou a questionar a validade dos bikinis brasileiros. Detestava tanto o Rio Pro, que chegou a considerar não ir lá este ano. Mas como as coisas mudam…

Embora ele ainda não classifique as ondas do Rio como boas, o bicampeão mundial conseguiu chegar ao 3.º lugar e voltar para casa com uma camisola do Pelé. Agora já está a caminho das Fiji, com o segundo lugar no ranking ASP, atrás do seu amigo Joel Parkinson. Na sua casa, em Coolangatta, o Mick deu uma entrevista, na qual a luta para se manter acordado foi feroz, pouco depois de voltar do local onde, antes, não se podia dizer o nome.

Fala sobre várias coisas, da sua nova abordagem, o porquê da retirada de Casey Stoner, qual o surfista mais perigoso e o porquê dos regresso das Fiji ser a melhor notícia desde há algum tempo a esta parte:

Red Bull: Mick, antes de falarmos sobre o Brasil e sobre o campeonato, vamos olhar para trás e falar sobre Bells rapidamente. Aquela vitória foi espetacular!
Mick Fanning: Nem me digas nada! Foi um alívio, ganhar finalmente, depois de chegar às finais durante três anos consecutivos! Na verdade, aconteceu tudo muito rápido. Este ano, foi um evento especial. Parecia que haviam boas vibes lá. O que passou com o MP foi muito triste, mas mesmo assim toda a gente estava com um espírito muito bom. Quando as ondas estão bem e está sol em Victoria, penso que toda a gente fica feliz…

RB: E depois do mar no primeiro evento, Quilsilver Pro, seria uma mudança boa ter ondas decentes…
MF: Depois desse evento estava mesmo chateado. Mas foi uma espécie de bênção disfarçada para mim, já que esse mau resultado fez com que eu reavaliasse tudo e fez com que mudasse muita coisa, começando a simplificar tudo. Por isso, quando fui para Bells, eu sabia que podia conseguir um bom resultado, pois as minhas pranchas e o meu corpo estavam muito bem.

RB: Como é que se simplificam as coisas no surf?
MF: Não me enervei com as pequenas coisas. Tenho de manter uma preparação mesmo curta e estar energético e excitado para surfar. Não nos podemos preocupar sobre as outras porcarias a acontecer à nossa volta, é só fazer o nosso trabalho e estar focado na competição. Podes sentar-te e preparar-te para tudo, entrando em stress e a pôr um visto em cada ponto. Mas, às vezes, a melhor preparação é não ter preparação. Se podes ter as pranchas direitas e essas coisas todas controladas, antes de ires para um evento, depois podes competir e estar com a cabeça no sítio.

RB: Agora, o piloto Casey Stoner anunciou a sua retirada, durante esta semana, com uma idade precoce de 26 anos, justificando-se com políticas fora da pista e as constantes mudanças das regras como uma fonte de frustração enorme. Que te parece?
MF: Sim, é muito marado! Julgo que e muito triste vê-lo a retirar-se tão jovem. Penso que estar algumas vezes nas luzes da ribalta e ainda toda a preparação e esforço necessário para conseguir aquilo, é muito desgastante. Por isso, com um novo filho, se calhar ele só quer continuar a aproveitar a vida por um bocado.

RB: Tens desses problemas no Tour?
MF: Olha, há muitas coisas a considerar e muita preparação para um longo ano de tour – ter as pranchas certas, ter a certeza que satisfazes os treus patrocinadores, tratar do teu corpo e concentrares-te. Embora as pessoas pensem que só surfamos, fazemos muita preparação e trabalho nos bastidores. E pode exigir muito tempo. É como qualquer desporto, tens de fazer sacrifícios se queres bons resultados. Mas vale a pena!

RB: Então, não te vamos ver a fazer um anúncio-surpresa dentro em breve?
MF: Nah. Penso que o ASP é um sítio muito bom, neste momento, com os surfistas e eventos. Toda a gente percebe bem o que se passa. Claro que é um pouco complicado com alguns dos principais patrocinadores a passarem por dificuldades financeiras, mas como um tudo penso que está tudo a correr bem. Pelo menos é o que me dizem! Haha.

RB: Trocar a África do Sul pelas Fiji deve ter sido um momento inesperado…já que J-Bay era um dos locais mais icónicos do tour.
MF:
Claro que fica um pouco mais complicado quando um evento super-icónico, como o de J-Bay desaparece. Nova Iorque…para ser honesto, penso que o swell que tiveram no ano passado foi o melhor que alguma vez terão. Por isso, penso que ninguém ficou muito aborrecido com a substituição desse evento. Mas já J-Bay, foi muito difícil de engolir. Foi muito difícil porque as pessoas disseram ‘porquê que não deixaram o Brasil ou porquê que não foram buscar o dinheiro a outro lado?’ Mas estas grandes empresas precisam de lucrar com estas coisas e por vezes os valores não são aqueles que os surfistas consideram como os melhores para o desporto. Obviamente que é muito mau para nós, mas são eles que põem o dinheiro todo. É bom ver a Volcom a chegar-se à frente e a trazer as Fiji. Eles fazem parte do surf há muito tempo. É positivo para o desporto ter uma nova marca a aparecer, quando as três grandes não podem.

RB: Serão as Fiji um bom substituto de J-Bay? Por esta altura, no ano passado, estava lá um swell, que aparece apenas uma vez em cada dez anos, e atletas como o Kelly estavam a adorar…
MF:
Se olhares para trás, as Fiji sempre foram um grande spot no calendário. Tivemos aquela parte fantástica do pacífico, que vai de Chopes às Fiji. Acho que esses foram os melhores tempos no tour e as Fiji serão sempre uma parte significativa do tour mundial. Só tivemos uma pequena pausa, por causa de um golpe político e as suas repercussões. Todos os surfistas e a ASP estão entusiasmados por estar de volta.

RB: Então como é que modificas a tua preparação, para passar de três praias idênticas para uma com recifes? Desde pranchas a estilo, há muito a considerar, não?
MF:
Claro, é uma grande mudança em relação aos três primeiros eventos. Por sorte, estamos todos no mesmo barco. Há muito mais preparação caseira, do que quando lá chegarmos. Tens ondas muito maiores, por isso vais precisar de uma prancha maior – pranchas para ondas boas… Haha. As ondas são bem mais compridas. No Rio, senti que nem surfei, porque as ondas eram muito curtas. E tens de gastar mais energia e força nas pernas, para essa ondas longas e melhorar o cardio, já que é muito calor lá. Por isso muito Pilates e Reebok Step… Haha.

RB: Ok, já que falas nisso. Vamos falar sobre a tua onda favorite, Rio…
MF:
Haha. O Rio é um evento onde podes perder um heat em qualquer altura. As ondas apreciam de vez quando e eram pequenas. Depois do ano passado, até pensei em não ir ao Rio, porque não gostei mesmo nada… Haha. Mas consegui um bom evento e mudei a minha sorte, acabando por me sentir melhor lá.

RB: E agora estás em segundo no ranking mundial, atrás do Parkinson. Um verdadeiro volte-face, depois do teu início de ano em Coolangatta e do teu resultado no Rio no ano passado?
MF:
Sinto-me muito bem com a minha posição atual. Sair do Brasil com o 3.º lugar foi muito bom. Tinha adorado ganhar mas, especialmente depois do ano passado, sinto que tive um grande evento.

RB: John John Florence conseguiu a vitória pela primeira vez no tour. Quão perigoso é que ele será?
MF:
Acho que é um dos surfistas mais perigosos do tour, neste momento. Ele tem basicamente tudo – os aéreos, os grandes turns e consegue fazer uns tubos brutais. Ele é tipo a nova era do fator Bruce Irons. É maravilhoso ver um novato a chegar e a ganhar um evento. E acho que pela minha classificação no rankin, foi bom ele ter ganho ao Joel! Haha.

RB: Ok, última pergunta e deixamos-te dormir. Estiveste a dirigir o Red Bull Future Camp no último mês, a fazer de mentor para alguns jovens. Como te parece o futuro do surf australiano?
MF:
Na realidade foi muito divertido! Alguns miúdos eram hilariantes e haviam alguns surfistas muito bons. Foi muito fixe. Não sabia como iria ser o futuro e depois deste campo fiquei muito impressionado. Estou entusiasmado. Os jovens estavam muito bem.

Este artigo foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

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