O sol que emite uma luz negra

 

A segunda exposição deste ano na Red Bull House of Art já inaugurou. Sob o olhar inquieto de uma pequena multidão que migrou até à LX Factory para subir à torre da arte, a obra de Lúcia Prancha reluzia, mesmo sob a sombra que tanto a inspira. A ressonância de mais uma abordagem artística inovadora era evidente. Quem olhasse à roda encontrava novidade em tudo: os três espaços fundamentais da exposição (terraço, ateliê e galeria) voltaram a transformar-se para fazer justiça ao que a alma da artista acalenta.

Logo à entrada, as boas-vindas são dadas por instalações de recorte geométrico e cor negra – como o nome da exposição manda. Há música, também ela escura e envolta em névoa, que ressoa no terraço. É lá que, dispostas com fluidez, se encontram réplicas de cadeiras desenhadas por Lina Bo Bardi, arquiteta e pensadora ítalo brasileira amplamente estudada por Lúcia Prancha. A artista explicou ao público, aquando da apresentação da exposição, que estas peças eram, na versão original, aproximações desenvolvidas por Bo Bardi em busca de um design com identidade brasileira, de cariz local.

A conversa sobre a exposição beneficiou também do contributo de Miguel Amado, o respetivo comissário, que descreveu o projeto como um jogo entre Norte e Sul: o contraste entre a crise portuguesa e a potência económica emergente que é o Brasil, país que Lúcia Prancha escolheu para viver desde 2009. Foi inspirada nas experiências que o Brasil lhe proporcionou que a artista criou as obras presentes na galeria. Lá em cima, o sol negro é materializado em espuma e tinta preta, "desiluminando" uma notícia emoldurada num vidro fosco que a torna ilegível: é a luz que afinal ofusca, uma metáfora para a ideia de que os meios de comunicação têm um forte papel na deturpação dos eventos.

Na galeria há mais da inspiração recolhida no universo de Lina Bo Bardi, mais precisamente na sua Casa de Vidro, onde Lúcia Prancha imaginou sombras hipotéticas de objectos da cultura popular, tornando tais formas num móbil: uma escultura suspensa cujo poder de agarrar o espectador é nada menos que notável. A História Maravilhosa de Peter Schlemihl, um conto de Adelbert Von Chamisso, serve também de mote para uma peça de metal e borracha que simboliza os capítulos de um livro sobre a jornada espiritual de alguém que decidiu vender a sua sombra ao diabo. Para completar o círculo de criação, Lúcia Prancha convidou a dupla de música experimental Tropa Macaca: André e Joana, também eles representantes da dualidade Portugal-Brasil por terem estado divididos entre o Rio de Janeiro e Lisboa.

À saída, cada passo nas escadas metálicas era amplificado e manipulado, numa banda sonora que, ao fechar a visita em tom exploratório, deixou todos certos de que o que ali se passou é o desbravar de novo terreno. A exposição continuará a renovar-se até ao dia 11 de Agosto, de terça-feira a sábado, sempre entre as 14H00 e as 19H00.

 


O que é a Red Bull House of Art? 

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Este artigo foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.
 

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