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Artes Marciais

3 Mestras de capoeira que você precisa conhecer

Essas três mulheres quebraram barreiras de gênero e são referência no Brasil e no exterior
Escrito por Juliana Vaz
7 min de leituraPublished on
Mulheres e a capoeira têm muito em comum. Elas superaram os preconceitos e tornaram-se referências no esporte. Conheça três Mestras que fazem a diferença.

Mestra Tisza

Um dos principais nomes da Capoeira Angola, a carioca Tisza Coelho respira e vive essa cultura desde muito cedo. Começou a jogar em 1981 e, a partir daí, mergulhou de cabeça na arte. “Eu treinava intensamente, às vezes quatro vezes por dia”, recorda. Com tanta paixão pela ginga, em apenas seis meses a Mestra começou a fazer apresentações e a viajar para outros estados. Cinco anos depois e ainda muito jovem, conseguiu realizar seu primeiro sonho: ir à Bahia treinar com os grandes Mestres. “Eu tinha entre 16 e 17 anos. Juntei minhas economias e, em dezembro de 1986, cheguei a Salvador”, lembra.
Tisza Coelho

Tisza Coelho

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Quando conheceu Mestre João Grande, por meio da Mestra Itapoã, não acreditava onde havia chegado. “Fiquei parada ao lado deles feito uma múmia! Não consegui dizer nada”, recorda, achando graça.
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A concepção do que é ser uma mulher na capoeira estava sendo construída.
Tisza Coelho
Na Bahia, viu poucas mulheres treinando nas rodas e academias, mas, diferentemente do Rio de Janeiro - em que poucas cantavam e tocavam - lá a presença feminina era forte no berimbau. Um dos marcos da capoeira feminina foi a apresentação de Tisza junto a outros capoeiristas durante o 1º encontro Nacional de Capoeira, em 1984, no Circo Voador (RJ). “Foram cerca de três meses de encontros e ensaios. O resultado foi emocionante. Na roda, só tinha mulher jogando, cantando e tocando. Foi um marco histórico.”
Nos anos 90, mudou-se para a Europa e virou uma das primeiras mulheres a realizar apresentações no exterior. França, Amsterdã, Alemanha, Finlândia, Itália, Bélgica e Eslováquia foram alguns dos países do velho continente para onde levou a arte afro-brasileira e a capoeira.
Entre 1992 e 1993, embarcou rumo aos Estados Unidos para estudar com Mestre João Grande. Nessa mesma época, começou a lecionar capoeira no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e se tornou professora titular de Capoeira Angola no Departamento de Dança da Universidade de Denison, Ohio. Hoje, Tisza mantém o compromisso com a cultura oral e a Capoeira Angola e quer manter viva a obra de seu Mestre no Brasil. Em 2004, fundou o Centro de Capoeira Angola Ouro Verde, na área rural de Serra Grande. A Mestra também participa ativamente do processo histórico de inserção da capoeira nas escolas públicas e particulares cariocas. Pelo trabalho marcante, já recebeu prêmios do Governo da Bahia e do Ministério da Cultura. “Tenho 53 anos e muita pressa e alegria de viver! A maioria dos meus alunos sempre foi de homens, então fico cheia de alegria quando vejo tantas mulheres na capoeira. Hoje, temos mestras com técnica, talento e conhecimentos excelentes”, finaliza, empolgada com o futuro.

Mestra Jô

Mestra Jo

Mestra Jo

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A capoeira acompanha Mestra Jô praticamente desde os primeiros passos: foi aos 7 anos de idade que a integrante do Grupo Capoeira Brasil começou a jogar. Em 2018, comemora 36 anos de atividade. Mas a história resumida não mostra a garra que ela teve durante o percurso de quase quatro décadas. “Nos anos 80, não tinha mulher na capoeira na minha cidade (Juazeiro – BA). Nossa presença era muito marginalizada, achavam que só os homens podiam fazer artes marciais”, conta.
Em 1994, foi para o Rio de Janeiro treinar com Mestre Boneco, expoente no estilo Regional. Desde então, sua vida mudou radicalmente. Do interior da Bahia, viveu nos Estados Unidos, França, Austrália, China e Espanha – para citar apenas alguns países por onde passou. Com o apoio de Mestre Jelon, diretor do DanceBrazil, se apresentou junto ao grupo no Lincoln Center. No final da década de 90, foi convidada a participar da companhia e passou uma temporada em Nova York dando aulas e fazendo shows. Trabalhos com marcas de renome como Nike, GAP e Sony também impressionam no currículo.
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É importante sempre ter uma Mestra nos eventos, para que cada geração seja inspiradora para as próximas.
Mestra Jô
Mestra Jo

Mestra Jo

© Arquivo pessoal

Quem segue o mesmo rumo é a filha Dandara, de 14 anos, que nasceu durante o período em que Jô morou nos EUA. Os fundamentos da capoeira - como respeito ao próximo, educação e disciplina - têm servido de guia para a novata. Nem mesmo quando ficou grávida Mestra Jô deixou de lado as atividades. “Até os 8 meses, ainda fazia vários movimentos. Depois do nascimento de Dandara as coisas ficaram mais difíceis sim, mas não impossíveis. Sendo mãe solteira, a dificuldade só aumentou, mas nunca vi isso como empecilho para alcançar os meus objetivos.” Foi com o apoio de amigos, alunos e companheiros de treino que continuou no jogo.
As aulas que Mestra Jô deu nas muitas cidades por onde passou lotavam de gringos. E se os Estados Unidos já abraçaram de vez a capoeira, países como Israel, Polônia, Dinamarca e até Hong Kong abrem espaço para essa tradição que agora traz uma potência a mais: o empoderamento feminino. “Nos eventos, é importante sempre ter uma Mestra convidada por causa da representatividade. Precisamos desse apoio, das mulheres nesse lugar, para que cada geração seja inspiradora para as próximas”, acredita.

Mestra Mara

Quando começou a jogar capoeira, pouco antes da adolescência, Mestra Mara teve apoio e rejeição vindos do mesmo lugar: de dentro de casa. Foi o irmão que serviu de referência para entrar no jogo. “Iniciei os treinos aos 12 anos com meu irmão, Mestre Chuveiro. Já tinha praticado ginástica olímpica naquela época e me interessei vendo ele treinar em casa”, conta.
Mestra Mara

Mestra Mara

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Preconceito sempre existiu, mas eu tiro de letra ou na roda.
Mestre Mara
Nascida na Bahia há 47 anos, viu de perto as mudanças que aconteceram na capoeira, muito positivas quando se trata de mais espaço para o público feminino. “Quando comecei, havia poucas mulheres nesse cenário. Então, normalmente, eu era a única presença feminina na academia.”
Enquanto o irmão dava apoio total e virou referência, a mãe já não gostou tanto assim daquela história. O motivo? Ser mulher, claro. Dizia que aquilo era coisa de homem e o restante da família fazia coro. Mesmo assim, com um irmão mestre que deixava as coisas mais tranquilas, o discurso que reinava era de que a capoeira não oferecia um ambiente adequado a uma pré-adolescente.
Mas nunca passou pela cabeça de Mestra Mara desistir. Aos poucos, quem era contra teve que se adaptar à ideia de ter outra capoeirista de sucesso em casa. “Proibir era difícil porque eu ia treinar com o meu irmão. Preconceito sempre teve, mas eu tirava de letra ou na roda. E ainda tiro quando preciso!”
Se teve que enfrentar o preconceito logo na pré-adolescência, o fato de ser mulher exigiu novamente a habilidade de quebrar barreiras. Na época em que estava grávida da filha, hoje com 20 anos, costumava ouvir que era louca por continuar participando das rodas naquele estado. “Dei aula até o último dia de gravidez. Quando estourou a bolsa, estava na academia, num domingo. Ela nasceu no dia seguinte”, recorda.
Mara vive da capoeira e se orgulha dos números que conquista todos os anos: uma média de 250 alunos a cada novo ciclo e batizados sempre cheios, com no mínimo 70 pessoas. Isso sem contar os eventos e outras atividades paralelas que também envolvem a tradição. Inspirada no irmão, agora Mara que se tornou referência para novas capoeiristas em São Paulo e no Brasil afora.

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