A francesa Michèle Mouton mostrando que é fera
© Audi Sport
WRC

35 anos sem Mundial de Rally no Brasil

O Brasil já recebeu duas etapas do Mundial de Rally; mas agora em agosto estamos completando 35 anos longe do calendário
Escrito por Tiago Mendonça & Andrea Amadeo
8 min de leituraPublished on
Há exatos 35 anos, Michèle Mouton e Fabrizia Pons largavam rumo à vitória no Marlboro Rally do Brasil, a última vez em que o WRC passou por aqui. Sim, você leu direitinho. Era uma dupla de mulheres, correndo e vencendo na principal categoria off-road do planeta.
Nosso país foi contemplado duas vezes no calendário do Mundial de Rally: uma em 1981 e a segunda e última, em 1982.
Estamos bem longe de ser uma Finlândia da vida, mas hoje temos um volume de fãs considerável e muitos pilotos de rali de velocidade, participando há muitos anos de competições nacionais e internacionais.
Só que nem sempre foi assim.
Mouton foi a única mulher a vencer no WRC

Mouton foi a única mulher a vencer no WRC

© Divulgação

No início dos anos 1980, o Brasil ficava cada vez mais forte nos ralis de regularidade, mas ainda tinha um campo enorme para ser explorado na modalidade específica do WRC, que é de velocidade.
Por essas e outras, o português Francisco Santos, que trabalhava na revista Autosport, viu nossa terra como possível sede de uma etapa do Mundial. Nada melhor do que isso pra desenvolver o esporte por aqui, certo? E ele conseguiu, mesmo que por pouco tempo, trazer os gringos pra cá.
Um dos pilotos brasileiros inscritos na prova era o gaúcho Jorge Fleck (que mais tarde, já aposentado do rali, ficaria muito conhecido nas pistas como bicampeão da Fórmula Truck).
O Brasil estava crescendo cada vez mais no rali e o Francisco Santos, junto com outro português chamado Mario Figueiredo, viu a possibilidade de trazer uma etapa do Mundial pra cá.
Jorge Fleck
Infelizmente, a passagem do WRC por aqui foi marcada por muita desorganização. Pra se ter uma ideia, algumas especiais não tinham gente para marcar os tempos das duplas. Uma zona total e completa.
O português Francisco Santos apostou no Brasil

O português Francisco Santos apostou no Brasil

© Autosport

Um dos motivos que levaram o Brasil a deixar a lista de paradas do WRC foi a destituição de Santos da posição de diretor de prova uma semana antes da corrida de 1982.
Era ele quem centralizava toda a organização do evento e, com sua saída, o rali teve de ser organizado meio no susto.
Além disso, o evento ficou marcado por uma tragédia. O brasileiro Thomas Fuchs caiu em uma represa do percurso da prova de 1982 com seu Fiat 147 e acabou falecendo por afogamento.
Mas a gente também lembra de coisas muito bacanas da passagem do WRC por aqui, e vale a pena falar delas.
Marlboro Rally do Brasil, 1981
O campeão do WRC de 1981: Ari Vatanen

O campeão do WRC de 1981: Ari Vatanen

© Divulgação

Foi a primeira prova do WRC no Brasil e a oitava etapa da temporada.
A largada aconteceu no dia 6 de agosto às 19h00 no estacionamento da Assembleia Legislativa, no Ibirapuera, em São Paulo. Na época, o álcool não era um combustível de competição homologado pela Fisa (a FIA de antigamente) e, portanto, os carros nacionais movidos a álcool só pontuavam nos campeonatos regionais (Brasileiro e Paulista).
O Fiat 147 foi o primeiro carro nacional a obter homologação da Fisa. Porém, teve de correr com gasolina (o que em época de crise do petróleo era meio luxo). As chances de sucesso dos brasileiros eram remotas, pois já pisaram no campeonato em desvantagem, correndo contra carros mais potentes e pilotos mais acostumados a este tipo de prova.
Qualquer piloto tem como objetivo participar de uma prova válida pelo Mundial da sua categoria. No caso dos ralis, essa vontade era ainda maior, principalmente porque no Brasil se praticava somente rali de regularidade. Muitos se assustaram quando estas competições mudaram para corridas contra o relógio. Nem todos se adaptaram. Eu já tinha experiência de velocidade em autódromo e tive uma rápida adaptação aos ralis, tanto que ganhei o primeiro campeonato nacional.
Jorge Fleck
O rali de regularidade tem como base a média de tempos. Vence quem ficar mais próximo da meta, que geralmente é pensada justamente pra fazer o cara ir de boa, sem acelerar feito louco e sem se matar.
O rali de velocidade é o contrário. O piloto precisa acelerar o máximo possível nas 'especiais', que são trechos de estrada momentaneamente fechados aos usuários comuns. O que vale ali é a velocidade pura. Ganha quem for mais rápido.
Por isso mesmo a chance de vitória brasileira no nosso rali era nula. Além de possuírem os piores carros, nossos pilotos eram os menos experientes nesse tipo de competição.
Olha aí o presidente da FIA e seu carro de rali

Olha aí o presidente da FIA e seu carro de rali

© Divulgação

Quem venceu no percurso de 1.669 km (sendo 898 km de terra) foi o finlandês (claro!) Ari Vatanen, de Ford Escort, e que logo depois se tornaria o campeão do mundo. Mas o curioso não foi isso. Sabe quem foi o segundo colocado na prova?
Foi o francês Guy Frequelin junto com seu navegador: Jean Todt, atual presidente da FIA! Eles estavam a bordo de um Talbot.
Dos mais de 70 carros inscritos, apenas 15 terminaram.
E os brasileiros não foram tããão mal assim.
Em nono na geral ficou uma dupla paulista, Maria do Carmo e sua irmã Zilda Zacarias, a navegadora. Elas foram um dos destaques do rali, pois dentro da história dos mundiais dessa modalidade, foi a primeira vez que carros nacionais conseguiram chegar entre os 10 primeiros colocados.
E mais: a primeira vez que uma dupla brasileira (e formada por mulheres) pontuou em uma etapa de um campeonato mundial.
Abre parêntesis. Na verdade, os melhores brasileiros daquela prova foram os cariocas César André e Arno Hees, que chegaram em sétimo pilotando um Gol. Mas não valeu porque o carro era a álcool, combustível que não estava homologado. Fecha parêntesis.
Marlboro Rally do Brasil, 1982
Röhrl levou o título de 1982 com seu Opel Ascona

Röhrl levou o título de 1982 com seu Opel Ascona

© Divulgação

Desta vez, a etapa brasileira era a sétima do WRC e rolou entre os dias 11 e 14 de agosto de 1982.
A prova, que na verdade seria disputada na Argentina, foi transferida para cá e realizada em 1.400 km de estradas de todos os tipos (asfalto, terra, lama, areia, pedras). Os carros alinharam na Via Dutra e terminaram no Rio de Janeiro, passando por Santa Isabel, Guararema, Santa Branca, Salesópolis, Caraguatatuba, São Luiz do Paraitinga, Catuçaba, Macacos, Formoso e Rio Claro.
Pit stop?

Pit stop?

© Divulgação

Naquela época (e até hoje considerado o melhor carro de rali da história), a sensação era o Audi Quattro Turbo. A versão de série do cupê esportivo apareceu em 1980 com tração permanente nas quatro rodas, motor turbo de cinco cilindros, com 200 cv de potência, e capaz de atingir os 222 km/h.
Os dois Audi Quattro que participaram do Marlboro Rally do Brasil, com a equipe Audi-Volkswagen, foram especialmente preparados para competição e receberam motores turbo de 330 cv, podendo atingir até 260 km/h.
Audi-Quattro: a sensação do rali até hoje

Audi-Quattro: a sensação do rali até hoje

© Divulgação

Já o Passat pilotado por Jorge Fleck em parceria com Silvio Klein era equipado com motor 1.6 de 140 cv.
Fleck foi parar nos ralis a convite de um amigo da equipe Gaúcha Car, formada por quatro carros de rali e que tinha o apoio da maior revendedora Volkswagen da cidade de Três Passos.
No início, foi reserva. Depois, assumiu a posição de titular do time e correu um ano e meio com o navegador Ronaldo Monteiro. Na sequência, passou a formar dupla com Silvio Klein e foi com ele que Fleck disputou todas as provas (inclusive esta do Mundial de Rally) até encerrar sua carreira off-road (em 1988).
A dupla feminina vencedora: Mouton e Pons

A dupla feminina vencedora: Mouton e Pons

© Red Bull

Voltando a falar da turma lá da frente, a maior atração do último rali mundial em terras brasileiras foi a conquista da dupla feminina.
Mouton, dona de quatro vitórias na categoria, ainda é a única mulher que venceu no WRC. Correu de Renault, Fiat, Audi (com o qual venceu quatro vezes) e Peugeot. Encerrou sua carreira em 1985 e em 2010 se tornou a primeira presidente da comissão de esporte a motor da FIA's Women.
Em segundo lugar ficou a dupla alemã que se tornaria campeã do mundo no final da temporada: Walter Röhrl e Christian Geistdörer, com um Opel Ascona 400. A única dupla brasileira a marcar pontos foi a formada por Aparecido Rodrigues e Joaquim Lanhoso, de Passat.
Apenas nove carros terminaram a prova, por vários motivos. Os organizadores estabeleceram médias horárias obrigatórias que prejudicaram vários carros. O tempo não ajudou e as chuvas fortes deixaram as estradas cheias de lama, impedindo o resgate dos carros que atolaram. Na primeira especial, somente onze carros conseguiram terminar.
Jorge Fleck e Silvio Klein, por exemplo, foram para a largada com todo o cuidado necessário, mas devido a um erro do livro de bordo, passaram por um trecho muito perigoso, obrigando Fleck a jogar o carro contra um barranco, correndo o risco de cair em um precipício.
Além disso, o sistema de computação falhou e os resultados das especiais levaram horas para serem tabulados e divulgados.
Após a confusa etapa de 1982 (que já não era pra ter acontecido), o Rally do Brasil foi substituído pelo Rally da Argentina, que também era patrocinado pela Marlboro.
Será que o WRC pode acontecer em Erechim?

Será que o WRC pode acontecer em Erechim?

© Divulgação

E existe alguma chance do WRC voltar ao Brasil?
Sim.
É remota, mas existe. Há rumores de que o Rally de Erechim, disputado no Rio Grande do Sul, possa trazer novamente o Mundial para cá. Há uns três anos, uma delegação da FIA esteve por lá, analisando a prova e a organização.
O Rio Grande do Sul recebe muitas provas de rali e elas são fantásticas. Com certeza, a região teria condições de entrar para o Mundial, porque existem pessoas bem interessadas pelas competições e a organização é muito competente.
Jorge Fleck
Enquanto isso não acontece, quem curte o Mundial de Rally aqui no Brasil pode acompanhar a categoria pela Red Bull TV, que exibe todas as etapas do campeonato dentro de um programa especial (incluindo transmissões ao vivo).
O próximo desafio é o Rally da Alemanha, que será disputado neste fim de semana.

O RALLY DA ALEMANHA NA RED BULL TV

Na sexta à tarde (18), 17h00
30 min com os melhores momentos do dia
No sábado de manhã (19), 06h50
Programa de 1h30 incluindo a exibição de uma especial ao vivo
No sábado à tarde (19), 17h00
30 min com os melhores momentos do dia
No domingo à tarde (20), 17h00
30 min com um resumo da etapa

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