Gravação no Red Bull Music Studio NY
© Reprodução
Música

A evolução das mesas de som

Produtores e engenheiros de som detalham a importância da ferramenta
Escrito por Vinicius Felix
8 min de leituraPublished on
São muitos os personagens que vão passar por Channel by Channel: Elza Soares, Tulipa Ruiz, Rincon Sapiência, Kiko Dinucci e as bandas Francisco El Hombre e Boogarins. Porém, uma personagem sempre estará presente: a mesa de som do Red Bull Music Studios, a ferramenta por onde os artistas vão acessar cada canal de suas gravações para contar os detalhes de suas faixas.
Quem ama música já deve ter visto essas naves espaciais por aí. Mas qual a função e importância das mesas? Aliás, ela ainda é fundamental? Conversamos com os engenheiros de áudio Marcos Eagle, Anderson Chames, Renato Godoy e Rodrigo Funai para descobrir.

6 min

Channel by Channel: Francisco, El Hombre

Sebastián e Juliana desvendam "Triste, Louca ou Má", faixa do disco "Soltasbruxa", lançada em 2016, no primeiro episódio da série Channel by Channel.

Qual a função da mesa de som?
Quotation
A mesa é o equipamento que interliga todos os equipamentos, instrumentos e gravadores de um estúdio.
resume Marcos Eagle
Seu uso acontece basicamente em dois momentos: o primeiro é a gravação em si de todos os sons que farão parte da música. “Simplificando muito, a mesa é por onde o sinal do instrumento/microfone entra e passa por um pré amplificador, possivelmente um equalizador, e depois é enviado para o computador. Antigamente, ia para as fitas.” – explica Rodrigo Funai.
Se é na comunicação com o sinal dos instrumentos com gravadores que a mesa faz sua mágica, por que isso acontece? Na mesa estão os pré-amplificadores, a “porta de entrada” do som nas palavras de Eagle. “São eles os responsáveis por ajustar os níveis e volumes e ao fazê-lo imprimem características sônicas inerentes da sua construção”.
Dependo do projeto, a mesa pode interferir mais ou menos no som. Lá estão os equalizadores, compressores e os conversores AD/DA (analógico para digital e digital para analógico), entre outros intermediários que também influenciam no som que vai pros gravadores.
Embora a mesa de som seja nossa principal referência visual dos canais de gravação dos diversos sons de uma música, o que delimita mesmo a quantidade de canais no fim das contas é o gravador usado. Hoje isso é uma questão superada, já que a gravação digital, a mais usual atualmente, permite um número de canais ilimitado. Mas nos anos 60, por exemplo, os engenheiros eram obrigados a distribuírem tudo que vinha do estúdio pra mesa em apenas 4 ou 8 canais de gravação, que era o que as fitas magnéticas suportavam.
Ainda assim, é importante entender que a quantidade de canais disponíveis na mesa autoriza diferentes métodos de gravação. “Hoje você vai gravar uma bateria e pode usar dez canais se quiser. Você microfona cada parte dela e ainda pode espalhar microfones pelo estúdio para captar o som da sala”, explica Anderson Chames.
Quando tudo já está registrado, o material dos gravadores volta para a mesa para ir para a mixagem, o momento de equilibrar o registro. É nessa etapa que o engenheiro pode fazer a festa se registrou aqueles dez canais de bateria.
Max Martin's old mixing console

Max Martin's old mixing console

© Sotarn

A evolução das mesas
Esqueça vinil, cassete, CD... Antes disso o registro e a reprodução das músicas estavam em cilindros em uma produção com menos intermediários. Marcos Eagle dá uma aula rápida sobre esse períodos e as grandes mudanças posteriores:
“As primeiras mesas de som, do fim século retrasado, eram simples intermediários entre os instrumentos e os gravadores. As gravações e mixagens eram feitas ao vivo com todos os músicos tocando ao mesmo tempo, não existia a possibilidade de correções. Nessa época gravava-se diretamente em cilindros de cera, os precursores do “disco”. Uma tomada errada implicava em jogar os cilindros fora e começar tudo de novo. A gravadora Edison Records se orgulhava na época de conseguir produzir 16 cilindros ao mesmo tempo, que era o que as pessoas compravam nas lojas”.
Já na década de 30, quando a fita surgiu, a mesa de som ganhou seu papel duplo que persiste até hoje, o intermediário entre as fitas que gravam cada instrumentos e as fitas que gravam a mixagem posterior. Obviamente, ainda tudo bem rudimentar.
“Em 1958, a Redd 17 do estúdio Abbey Road estabeleceu o padrão de fileiras de canais com equalizadores e controles em cada um deles. Mesas deixaram de ser simples “misturadores de som” e passaram a processar e alterar o timbre dos instrumentos, padrão esse que perdura até hoje, explica Eagle. Na década seguinte, saem as válvulas e entram os circuitos “Solid State”. O que levou, entre outras coisas, à diminuição do tamanho dos equipamentos, que passaram a apresentar por consequência um maior número de canais e um custo de produção mais baixo. Os passos seguintes foram recursos de automação e memória das mesas, até a chegada do digital.
A importância dos custos e a dificuldade de produzir os equipamentos contava muita coisa. “O que acontecia antigamente era que cada estúdio desenvolvia seus próprios equipamentos. Tinha uma equipe de engenheiros”, conta Funai. O barateamento pode ter interferido na qualidade, mas pelo menos afastou o controle da gravação dos estúdios. Hoje se grava bem em casa, mas todo engenheiro reconhece que a mesa tira outro som, embora esse assunto gere uma boa discussão.
Mesa de Som

Mesa de Som

© Photo by Adi Goldstein on Unsplash

Com o digital, a mesa ainda importa?
“Hoje em dia, no meu ver, não é um equipamento fundamental para a produção de um grande disco. Sem dúvida, quando possível, o acesso à uma boa mesa de som acelera e facilita muito o modus operandi. É tão um artigo de luxo, que você pode achar online mapeadas pelo mundo onde estão certos modelos”, considera Renato Godoy.
A opinião de Funai vai na mesma linha. “Trabalhando na mesa eu tenho muito mais flexibilidade e agilidade em uma gravação do que quando eu não. Mas, por exemplo, o meu estúdio pessoal não tem mesa e eu me viro muito bem. Então falar da importância do equipamento no resultado final hoje em dia, no meu modo de ver, é irrelevante. Não é a mesa que traz resultado na qualidade de uma gravação, mas quem opera ela e principalmente o nível do produto que esta passando por ela: músicos, artistas e produtores”.
Apesar disso, as opiniões de todos também coincidem em um carinho especial com a máquina.
“Trabalhar em mesas analógicas é muito mais lega. Existe uma coisa no analógico que parece que o som fica pronto mais rápido e mexendo menos. O som é sempre mais aberto, parece que possui um espectro estéreo que no digital sempre dá mais trabalho pra chegar”, conta Funai.
Nesse quesito, Godoy analisa quanto o físico da mesa compete com o clique do mouse.
“Em uma mesa analógica, com a mixagem aberta, o engenheiro/produtor pode criar automações em movimentos de dinâmica, panorâma e efeitos de uma maneira muito mais musical, espontânea. Exatamente como uma performance de um músico. É um processo completamente diferente de uma mixagem usando um teclado e um mouse, onde o engenheiro fica limitado a um click em cada parâmetro. Essas automações podem acentuar a performance dos músicos, levando os elementos do arranjo e consequentemente a música para outro nível de interação. Esse é o esporte dos grandes mixadores.”

Quem é quem na matéria:

Marcos Eagle - Eagle trabalha com áudio desde os anos 80. Fez estágio na TV Bandeirantes, onde trabalhou com o maestro Júlio Medaglia, e nos estúdios da gravadora Sonima/Som Livre. Em Londres, no ínicio dos anos 90, se formou em engenharia de áudio na School of Audio Engineering. Foi masterizador na Cia de Áudio, diretor técnico da Gravadora Trama por dez anos e atualmente trabalha como consultor e técnico independente, além de estudar linguagens e técnicas de programação para programas de áudio.
Rodrigo Funai Costa - Também formado na School of Audio Engineering, Funai atua na área de engenharia de áudio e mixagem há um bom tempo e já acumula 5 anos de trabalho no Red Bull Music Studios colaborando em discos de artistas como Elza Soares, Tulipa Ruiz, Ava Rocha, Anelis Assumpção, Xênia França, Carne Doce e Meta-Meta.
Anderson Chames - Engenheiro de som e produtor musical, Chames passou os últimos 12 anos mixando ao vivo artistas como João Donato, Moraes Moreira, Blitz, Vanguart, Maglore, Vanessa da Mata, Gabriel O Pensador, Orquestra Imperial. Atualmente, além da estrada, se decida ao projeto eletrônico autoral, o Future OHM, em parceria com produtor Fernando Deeplick.
Renato Godoy - Godoy começou cedo como assistente no antigo Discover Studio e dez anos depois estava assinando como engenheiro de gravação e mixagem ao lado do produtor Alexandre Kassin, função que mantém até hoje. Já trabalhou com nomes como Linconl Olivetti, Wilson das Neves, Marcos Valle, Erasmo Carlos, entre outros. Ao lado de Lisciel Franco, Edu Costa, Lisciel Franco e Pedro Paulo Monnerat toca o site http://cozinhandonamesadesom.com.br. “Dividimos dicas e experiências do dia dia de um estúdio de gravação tanto do universo analógico quanto do digital, desde a captação ao processo de mixagem”.
Channel by Channel
A nova série da Red Bull TV, Channel by Channel, descobre as histórias por trás do processo criativo de alguns hits fundamentais da música brasileira lançados nos últimos anos. Confira os episódios aqui.