Pássaro Preto
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Futebol

A história do Íbis: o time que não pode vencer

Quanto pior, melhor. No Íbis, autointitulado “o pior time do mundo”, vencer um jogo é o pior pesadelo para a sua pequena e exigente torcida
Escrito por Ricardo Gomes
3 min de leituraPublicado em
Futebol também é folclore. E um dos mitos mais bem sustentados dos últimos anos repousa na cidade de Paulista, litoral norte de Pernambuco.
Foi lá que há 78 anos nasceu o Íbis Futebol Clube. Sem dinheiro e com instalações amadoras, o “Pássaro Preto” vagava no limbo do futebol nacional. Até que em meados dos anos 80, o clube emendou incríveis 23 jogos sem uma única vitória, série que motivou a imprensa local a chamá-lo de “o pior time do mundo”.
Surpreendentemente, a diretoria rubro-negra não se incomodou com o gracejo. Pelo contrário, fez o marketing às avessas e adotou o apelido como uma espécie de apresentação oficial para os mais desavisados.
Depois de ganhar fama no Brasil, o mito Íbis rompeu as fronteiras. A seca de três anos e 11 meses sem triunfos por competições ou amistosos catalogou o clube no Livro dos Recordes.
Mas é sempre bom lembrar que o futebol é um negócio traiçoeiro. O segundo semestre de 2017 derrubou um senhor tabu. Com quatro vitórias e um empate nos últimos cinco jogos, o Íbis assegurou uma vaga na próxima fase com a melhor campanha geral da Segunda Divisão do Campeonato Pernambucano. Sendo assim, as chances de carimbar seu acesso à elite estadual na próxima temporada seguem firmes.
Pensa que o torcedor rubro-negro está feliz com esse raro lampejo de inspiração? Definitivamente não! Nos dias que antecederam o duelo contra o Centro Limoeirense, alguns poucos abnegados marcaram presença em um dos treinos da equipe e “cobraram” o retorno dos tempos de vacas magras. A própria conta oficial do clube no Twitter ajudou a instaurar a crise, pedindo, em tom de brincadeira, a cabeça do técnico Ricardo “Guardiola”.

Cenas lamentáveis

Após a onda de protestos, a diretoria do Íbis teve que fechar o treino para torcedores e imprensa antes da partida contra o Centro Limoeirense.
Um dos mais insatisfeitos com a boa fase é Mauro Shampoo, ex-jogador e ídolo máximo do Íbis. Segundo ele, o verbo “vencer” não se conjuga no clube.
Mauro Shampoo é uma entidade do Ibis

Mauro Shampoo é uma entidade do Ibis

© Reprodução Facebook

Ganhar é bom, mas a nossa marca é outra. Somos o pior time do mundo. No meu tempo perdíamos a maioria dos jogos, mas não era de propósito. A gente tentava, mas éramos ruins demais. Os meninos de hoje tem um pouco mais de qualidade
Disse Mauro que, apesar da veneração em torno do seu nome, fez apenas um gol com a camisa vermelha e preta, em 1981.
Peguei o rebote do goleiro e só empurrei para as redes. Não tem foto nem vídeo desse lance, infelizmente. Mas quem estava lá, alguns policiais e uns bichos que ficavam na beira do campo, testemunhou.
Um dia comum de trabalho do camisa 10

Um dia comum de trabalho do camisa 10

© Reprodução Facebook

Hoje, Mauro comanda o salão Arena Shampoo, onde corta o cabelo dos clientes trajado com o uniforme que o consagrou. Nos dias de jogo, é figura cativa nos bancos de cimento do estádio Ademir Cunha.
Arquibancadas do Ademir da Cunha "abarrotadas"

Arquibancadas do Ademir da Cunha "abarrotadas"

© Nilsinho

Após o empate contra o vice-lanterna da tabela, a onda de protestos contra o técnico Ricardo "Guardiola" aumentou. Veja os comentários desta publicação no perfil oficial do clube no Instagram.

A zoeira não tem limites

Além de rir de si próprio, o Íbis eventualmente escolhe um alvo para compartilhar a zoeira. Recentemente, o clube mirou no prêmio de melhor do mundo da revista France Football, colocando o goleiro Peixe - um gol sofrido em cinco jogos - e o zagueiro Thiago Recife - artilheiro da equipe, com duas bolas na rede - entre os 30 finalistas da disputa.
Desde setembro de 2015, o Íbis deseja realizar o duelo contra o Vasco para tirar a prova de quem é o pior time do mundo. Na época, o time amargava na lanterna do Brasileirão e acabou sendo um dos quatros clubes rebaixados para a série B. 
No início dos anos 2000, o Íbis também desafiou o Corinthians, que amargava a vice-lanterna do Brasileirão, para um amistoso. O jogo, evidentemente, não aconteceu.