Nos últimos anos, a cidade de Curitiba tem sido um grande celeiro de músicos e cantores talentosos. Um desses nomes é Raissa Fayet, que está lançando seu segundo álbum, "Rá", gravado na Alemanha pelo produtor musical alemão Christian Lohr.
O novo trabalho foi inspirado na Vila de São Jorge, em Alto Paraíso/GO, lugar que Raissa visitou durante o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. "Foram tantas histórias lindas, tantos momentos transformadores e personagens reais que surgiu a ideia de transformar o processo em um minidocumentário", conta.
O minidocumentário, que você confere abaixo, agrega entrevistas com os músicos do disco e com o produtor Christian Lohr, que conta suas belas impressões sobre o Brasil e o quanto nossa nação é rica em elementos artísticos e culturais. Personagens da Vila permeiam todo o filme, que encanta com imagens icônicas do cerrado brasileiro.
Conversamos com Raissa para saber um pouco mais sobre esse novo trabalho. E ela promete: vem muita novidade por aí, fique atento.
Como surgiu a ideia de mostrar o processo criativo do seu segundo álbum em um minidocumentário?
Tínhamos proposto, pela Lei Rouanet, a gravação de um documentário sobre a “caçada da rainha”, que é um ritual apresentado pelos kalungas (quilombolas) no Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Com esse documentário, também íamos registrar sons e imagens para o novo disco. Não conseguimos captar pela lei, mas, como tínhamos encontrado o produtor alemão Cristian Lohr, que fez a direção musical do disco "Rá", aproveitamos o contato e a ideia da Chapada.
Quando chegamos naquele lugar tão rico e tão Brasil, captamos tudo que conseguimos, através do som, de imagens e da alma. A experiência foi tão rica que reunimos material suficiente para um minidocumentário. Então, para mostrar como foi esse processo de gravação e transformação, nada melhor do que contar a história de maneira audiovisual. E o resultado ficou incrível!
De onde veio o ideia de ir para a Vila de São Jorge e o que mais te encantou por lá?
Uma amiga que produziu o minidocumentário falou desse lugar enquanto estávamos pensando no conceito do novo disco. Quando vi as fotos, tive certeza de que precisava ir para São Jorge. O nome já tem essa força de Ogun e o lugar é mágico, além de ter uma placa de cristal embaixo da terra que muda a frequência, muita água pura, cachoeiras, 33% da biodiversidade do Brasil… Lindeza demais!
Os moradores criaram um sistema lindo e vivem em harmonia, com hortas coletivas; o posto de saúde tem uma horta medicinal preventiva e a maioria das pessoas trabalha com cura, preservação. Eu diria que caminham para um sistema autossustentável necessário aos tempos de hoje. E lá acontece o maior encontro de culturas tradicionais do Brasil, com índios, quilombolas, mestres da cultura popular e uma diversidade maravilhosa de pessoas.
Como a sonoridade do seu segundo álbum difere do primeiro?
O primeiro álbum, lançado em 2012, foi produzido e arranjado pelo Tom Sabóia e pelo Xandão, da banda O Rappa. Foi o primeiro contato com esse universo de arranjos, estúdio, gravações... Gravamos algumas canções em estúdio e outras ao vivo, além de termos produzido um DVD ao vivo. Bem maluca, né? (Risos). Tem uma sonoridade pop brazuca, com scratches e samples do disco “O canto dos escravos”, com Clementina de Jesus, Doca e Geraldo Filme, que o maravilhoso Negralha, DJ da banda O Rappa, inseriu lindamente. Já no segundo álbum, fomos direto na fonte fazer essa pesquisa, esse registro.
Que mensagem você quer passar com o novo disco?
A ideia é levar o movimento Rá, com essa mensagem de transformação, preservação e aprendizado com o sagrado da terra. A viagem para a Chapada inicia esse processo interno e foram surgindo novas músicas como “São Jorge”, que fala dessa mistura de raças, sons, religiões e amor, porque "o amor transforma tudo".
O álbum também tem faixas como “Lavar a Louça”, que faz uma crítica ao sistema e aos nosso falsos moralismos, o refrão é a frase de um poeta contemporâneo chamado Mauri Amaro, que fala: "todo mundo quer salvar o mundo, mas ninguém quer ajudar a mãe a lavar a louça". Mas, de maneira geral, a mensagem é centrada em torno do amor e da transformação, que começa por nós mesmos.
Quais serão seus próximos passos?
Estamos preparando uma turnê pelo Brasil de motorhome. Ainda vamos definir o roteiro da viagem e dos shows, mas já sabemos que vamos passar pelo Encontro de Culturas, que acontece em julho na Chapada dos Veadeiros; e pela Serra da Capivara, no Piauí. Tudo será registrado pela München Art Lab, parceira do projeto, e a viagem será transmitida. Vamos passar pelo Cerrado, por tribos, quilombos e comunidades sustentáveis com intuito de agregar a essa rede de sustentabilidade que vem sido criada por muitos grupos. Também temos a ideia de criar um diário de bordo em formato de blog, mas essa ainda é uma possibilidade a ser discutida.
Além disso, como o processo do disco Rá demorou três anos, existem canções novas que foram escritas, criadas e musicadas ano passado, no Red Bull Bass Camp, em conjunto com o Russo Passapusso, do Baiana System. Com esse material, a ideia é lançarum EP ainda este ano. Também vai rolar um remix de São Jorge com a parceria dos maravilhosos DeepLick e Dazzo. E, daqui em diante, queremos levar nossa música a todos os lugares possíveis, sempre em contato com novas culturas e mais parcerias surgindo. Quem quiser estar junto na caminhada, é só chegar!
Ouça "Rá":
