Akin Deckard
© Patrícia Araujo
Música

Quanto mais ruído melhor: conheça o rap lo-fi

Entenda a história e saiba onde ouvir o estilo que ganha cada vez mais adeptos apostando nos chiados e nas imperfeições
Escrito por Evandro Pimentel
3 min de leituraPublished on
Qual é a primeira coisa que vem a sua cabeça quando você ouve a palavra rap? Provavelmente uma porção de rimas rápidas acompanhadas de uma batida forte e marcante. Porém, desde o surgimento do gênero há mais de 50 anos, um subgênero muito mais suave se desenvolve em seus bastidores: o rap lo-fi.
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O termo lo-fi vem do inglês "low fidelity" (baixa fidelidade) e não define um gênero musical, mas um jeito de se gravar uma música ou um álbum. Quando as primeiras bandas de rock de garagem surgiram no final dos anos 50, principalmente nos Estados Unidos e no Canadá, conseguir um contrato com uma grande gravadora era apenas um sonho distante para muitas delas, que se viravam como podiam para registrar seus sons. O resultado eram gravações amadoras cheias de imperfeições, muito diferentes das gravações "hi-fi" – do inglês "high fidelity" (alta fidelidade) – feitas em estúdio.
As músicas criadas de maneira "lo-fi" foram ignoradas pela crítica devido à sua baixa qualidade, mas isso mudou no início dos anos 90, quando a estética vintage começou a ganhar espaço. Nos anos 2000, a evolução dos equipamentos musicais diminuiu drasticamente a distância entre artistas profissionais e amadores e o "lo-fi", com todos os seus chiados e imperfeições, começou a ser reproduzido propositalmente por meio desses aparatos modernos. Combinar ritmos musicais diferentes também ficou mais fácil e assim o rap começou a se apropriar de beats do jazz, do house e do hip-hop, apostando em sons instrumentais mais crus: nascia o rap lo-fi, um subgênero capaz de nos fazer sentir nostalgia de tempos que talvez nem tenhamos vivido.
Durante o Red Bull Music Pulso, ocupação musical que reúne 25 artistas divididos em cinco coletivos no Red Bull Station para discutir o futuro do rap e seu encontro com outros estilos, o lo-fi ganha representatividade no grupo liderado pelo produtor experimental Akin Deckard. "No início do ano 2000, descobri não só o rap lo-fi em si, mas todo um universo musical baseado numa estética mais suja, corrosiva e também de grande inventividade a partir de poucos recursos", explica o músico paulista. "Com o passar do tempo, passei a assimilar melhor o erro como estética e o ruído e a qualidade deteriorada como estilo."
Akin Deckard recebe a chave de seu ateliê no Red Bull Music Pulso 2019

Akin Deckard recebe a chave de seu ateliê no Red Bull Music Pulso 2019

© Felipe Gabriel

Idealizador do coletivo audiovisual e da rádio online Metanol FM, Akin conta que a parte instrumental do rap foi primordial para sua evolução como artista. "Busquei valorizar isso ao escolher os integrantes do meu coletivo no Red Bull Music Pulso, para que eles pudessem traçar suas narrativas a partir de um elemento com inúmeras possibilidades de abstração e percepção, no caso o instrumental", revela Akin. "Muitas vezes os produtores estão atuando por trás da construção da cena do rap, com os MC's como emissores da mensagem. Meu intuito foi inverter a mesa, colocando os produtores à frente da discussão."
Muitos desses produtores disponibilizam suas criações por meio de selos independentes – e grande parte de seus acervos está disponível na internet, a principal responsável pela difusão do trabalho dos profissionais que apostam na estética do erro. Abaixo, Akin indica cinco selos dedicados ao rap lo-fi que você precisa conhecer.