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Ataque dos clones: os grandes consoles brasileiros

De Top Game a Bit System, vamos lembrar dos clones brasileiros mais importantes da era Atari e NES
Escrito por Pedro FalcãoPublicado em
Durval na sua loja de consoles retrôs
Durval na sua loja de consoles retrôs
Os engenheiros de eletrodomésticos dos anos 80 e 90 são responsáveis por um dos capítulos mais importantes na história dos jogos. Foi a criatividade das empresas de produtos eletrônicos da época que permitiu que o público brasileiro tivesse acesso às primeiras gerações de consoles domésticos, que invadiam as salas de estar dos Estados Unidos e Europa, mas demoraram para chegar no Brasil.
Na tentativa de incentivar o crescimento de uma indústria eletrônica nacional, no Brasil do fim da ditadura militar era proibido importar equipamentos eletrônicos, em especial computadores. A ideia era que as empresas da área firmassem negócios no país e produzissem os produtos por aqui. A Reserva de Mercado entrou em vigor em 1984, na mesma época em que os videogames começaram a chegar nas lojas brasileiras. Assim nasceu a rica indústria de clones local.
"Os clones foram importantes, porque as pessoas começaram a se interessar pelos aparelhos”, explicou Marcus Garrett, autor e pesquisador de games, e um dos maiores especialistas da era Atari no país. “Oficialmente, os videogames começaram a aparecer só em 1983. Mas, antes disso, já existia o interesse com alguns clones que chegaram antes. Eles tiveram uma importância porque ajudaram a alavancar a chegada do videogame no Brasil."
Outros países do mundo, como Rússia e Índia, também produziram clones, mas, com as limitações do mercado, os consoles criados no Brasil eram únicos e especiais. Cada clone bolava uma gambiarra nova para se destacar dos concorrentes, que abusavam de engenharia reversa pra descobrir e copiar os segredos dos grandes consoles oficiais.
Atari da Polyvox, o oficial brasileiro
Atari da Polyvox, o oficial brasileiro

Os clones de Atari

"Os primeiros consoles a chegar ao Brasil foram trazidos em viagens internacionais, pessoas que voltavam de Miami e de outro lugares dos EUA, e claro, via contrabando também”, contou Garrett. "Um que fazia muito sucesso era o Atari importado. Algumas oficinas perceberam que isso estavam acontecendo e começaram a transcodificar os aparelhos pra que o Atari pegasse colorido na TV."
Os consoles chegavam através da Zona Franca de Manaus, que começava a se transformar no pólo eletrônico do país. Na área industrial, era possível descolar um Atari transcodificado em algumas lojas, apesar de ser uma prática restrita por conta das leis da Reserva de Mercado. "Quando você comprava produtos na Zona Franca e tentava levar pra outros lugares do Brasil, contava como se fosse um produto importado, tinha limite pra trazer, mas [os consoles] foram chegando dessa forma”, lembrou Garrett.
Grandes redes de lojas, como Mappin e Mesbla, começaram a vender esses clones a preços cada vez mais populares. "O produto era uma novidade e todo mundo ficou interessado, queria saber o que eram esses jogos eletrônicos”, disse. “Sem contar que eram produtos mais baratos, então o pai e a mãe não tinham dinheiro pra comprar um Atari da Polyvox, mas compravam um aparelho da Dynavision, ou da Dismac, porque eram mais em conta que o produto oficial.”
Quando a Polyvox, uma empresa que fazia parte da Gradiente, conseguiu a licença para produzir o Atari no Brasil, ela entrou com uma forte pressão jurídica contra as outras companhias que produziam clones. Mesmo assim, algumas fabricantes arriscavam ignorar os advogados das parceiras da Atari para lançar o seu próprio console. Como o especialista ressaltou, ”Embora essas empresas não pagassem royalties nem nada pras empresas americanas e japonesas, [o mercado de clones] foi muito positivo”.
Se não fossem essas empresas, não teríamos preciosidades da era Atari, como:
Top Game (Bit Eletrônica, entre 1981 e 1983)
Lançado entre 1981 e 1983, era um clone de Atari que mudou o soquete do cartucho com medo de se enroscar em problemas legais com a dona do console original. “O Top Game era vendido em poucas lojas do Rio e no Mappin em São Paulo. A Bit Eletrônica mudou o slot de cartucho e [jogos] os do Atari não encaixavam, você só podia encaixar os da própria Bit”, Garrett explicou. "Mas, em essência, esses jogos eram [clones de] Atari mesmo. É um videogame raríssimo, estima-se que tenham feito só cinco mil unidades. Eu mesmo nunca vi um pessoalmente.”
Por conta do fracasso de vendas, quase ninguém lembra dele. A empresa até tentou remediar e lançou um adaptador pros cartuchos de Atari, mas já era muito tarde.
Dactari/Dactar (Sayi Eletrônica, que depois virou Milmar, 1983)
O Dactari era uma cópia bem parecida com o Atari original, mas teve pouco tempo de vida depois que todas as unidades esgotaram rapidamente. Logo na sequência, a empresa foi comprada pela Milmar, que lançou a linha de clones Dactar, que também lembravam o design do original americano, mas tinha detalhes cromados no topo e outras mudanças estéticas e nos controles pra se diferenciar.
Dynavision, da Dynacom
Dynavision, da Dynacom
Dynavision (Dynacom, 1983)
Um clone que aperfeiçoava o design do console e do controle do Atari original. O controle, principalmente, é lembrado até hoje pelo formato anatômico do seu joystick. Foi criado e lançado pela Dynacom, que já fazia cartuchos licenciados de Atari no país.
Supergame VG-2800 e VG-5600 (CCE, 1984)
Mais barato que os concorrentes, deu dor de cabeça pros outros consoles, principalmente pro oficial da Polyvox. O design lembrava o do Coleco Gemini, que por sua vez também era um clone americano do Atari. Na tentativa de sobreviver à inflação matadora da época, o aparelho foi atualizado logo depois pro VG-5600, uma versão ainda mais barata feita para conseguir manter o preço nas lojas.
VJ 9000, da Dismac, e Dactar, da Milmar
VJ 9000, da Dismac, e Dactar, da Milmar
VJ 9000, VJ 8900 e VJ 9100 (Dismac, 1984 e 1985)
Os clones da Dismac eram os mais bem acabados e completos da época. A empresa também traduzia os jogos do Atari: Kaboom! era “TNT”, Pitfall! era “Pantanal”, Freeway era “BR-101” e Carnival era “Domingo no Parque". Existe uma versão raríssima desse console com o logo da Activision, que era o maior produtor de games pra plataforma naquela época.
A Dismac também precisou inovar e relançar o console para driblar os efeitos da enorme inflação dos anos 80. Por isso, criou a versão VJ 8900, que não vinha com controles e tinha um acabamento mais simples, e a VJ 9100, que saiu em 1985, numa época que o Atari já estava em ampla decadência, mas é tão raro e teve tiragem tão limitada, que muitos colecionadores brasileiros acreditavam que esse console era apenas uma lenda urbana até recentemente.
Onyx Júnior, da Microdigital
Onyx Júnior, da Microdigital
Onyx Júnior (Microdigital, 1985)
Esse clone é, senão o mais raro, um dos consoles mais difíceis de se encontrar no Brasil. Com sua carcaça de cor verde oliva, inspirada no Coleco Gemini, o Onyx Júnior era o primeiro console com uma tecla “Pause”, o que era um enorme diferencial na época.
MegaBoy (Dynacom, 1985)
Apesar de que ainda em 2016 nós sofremos com a enorme quantidade de fios atrás da TV, os engenheiros da Dynacom já estavam bolando uma solução pra esse problema desde os anos 80. O MegaBoy unia console e controle no mesmo aparelho, que aceitava cartuchos de Atari e vinha com três jogos na memória, mas o grande lance desse clone era a transmissão do sinal de áudio e vídeo diretamente pra TV, sem o uso de cabos. O console veio muito tarde, mas a empresa não desistiu na ideia e, anos depois, apostou num clone de NES com a mesma tecnologia.
Memory Game (Milmar, 1986)
Lançado no fim da era Atari, o grande chamativo do Memory Game eram os pacotes de jogos incluídos no próprio console, que vinha em versões de 16, 32, 64, 128 e 256 games – a maioria cópias dos mesmos jogos, mas com pequenas variações de cores, personagens e cenários –, além do slot para cartuchos de Atari.
NES brasileiro fabricado pela Playtronic
NES brasileiro fabricado pela Playtronic

Os clones de Famicom e NES

Comparado à sua história nos Estados Unidos, o Atari teve poucos anos de carreira no Brasil. Quando chegou por aqui, o mercado americano de games tinha acabado de se reerguer de um colapso, então vimos apenas a sobrevida do console no país.
No meio dos anos 80, do Japão surgia a Nintendo e seu console doméstico revolucionário, o Family Computer, ou Famicom, que no Ocidente foi adaptado como Nintendo Entertainment System, o NES, ou só Nintendinho, se você perguntar o nome do sistema no Brasil.
“Os clones ajudaram a mais pessoas terem acesso a video games no Brasil, visto que um console original da Nintendo era caríssimo na época”, explicou Danilo Dias, desenvolvedor da Joy Masher e fã absoluto de clones e jogos brasileiros retrô. O NES reinou por um período maior do que o seu antecessor, durando até meados dos anos 90, quando o Super Nintendo estava no ápice da sua dominação dos mercados estrangeiros.
Danilo relembrou que os jogadores da época não se importavam com a origem do produto, e mal compreendiam se o console era brasileiro ou importado. "A maioria do pessoal que eu conhecia inicialmente achava que o Phantom System, o Turbo Game e tal, eram só consoles [oficiais]”, disse. "O pessoal falava que os cartuchos eram 'padrão Nintendo’, mas a molecada não entendia ao certo o que isso significa. O que sabíamos é que o meu Turbo Game jogava cartuchos do Phantom System do meu colega e vice versa.”
Os clones de NES e Famicom eram divididos em dois grandes grupos: os de 72 pinos, que correspondiam ao padrão americano, e o de 60 pinos, que era o padrão do console japonês. Alguns consoles driblavam essa barreira técnica com adaptadores, ou até mesmo com slots pros dois padrões de cartuchos, mas sempre mostravam a inventividade enorme das empresas brasileiras.
Phantom System, clássico dos clones, da Gradiente
Phantom System, clássico dos clones, da Gradiente
Phantom System (Gradiente, 1988)
O paizão dos clones brasileiros de NES, o Phantom System copiava o design dos controles do Mega Drive e da carcaça do console do Atari 7800. Como é falado no documentário Paralelos, o console era tão bem feito que a Nintendo pediu para que a Gradiente parasse de produzi-lo em troca de uma licença para fazer uma versão oficial do Nintendinho no Brasil.
Dynavision e Handyvision (Dynacom, 1989 e 1993)
Lançado em maio de 1989 (e depois relançado com pequenas diferenças em outras versões), o clone aceitava cartuchos japoneses de 60 pinos, apesar de ser possível usar um adaptador de 72 pinos. O seu controle era igual ao do Atari 2600, com um joystick.
O Handyvison era a versão mais portátil do Dynavision e resgatava a tecnologia de transmissão de som e imagem pra TV do MegaBoy. O console usava quatro pilhas AA e tinha uma anteninha de rádio no topo, que era um verdadeiro charme.
Bit System, da Dismac
Bit System, da Dismac
Bit System (Dismac, 1989)
"O clone mais estranho que eu me recordo era o Bit System, da Dismac”, Danilo lembrou do console de 72 pinos que tentava imitar o casco do NES original, mas com um design levemente modificado. “Ele era estranho justamente por parecer demais com o NES original e pelo fato de colocarmos o cartucho na horizontal nele, diferente de todo o resto, que colocava verticalmente.”
Assim como o NES, o Bit System tinha uma pistola a laser e o controle era bem similar ao original. Além de tudo, teve seus próprios cartuchos lançados pela Dismac.
Top Game VG 9000 e Turbo Game (CCE, 1990 e 1991)
A CCE entrou no mercado de games com o Top Game VG 9000, o primeiro console nacional com duas entradas, o que o tornou muito popular. "Meu favorito é o Top Game”, disse Danilo. "Não só é um clone perfeito do NES, como era extremamente durável e tinha entradas pra cartucho padrão 60 e 72 pinos, uma maravilha."
O seu sucessor, Turbo Game, lançado em 1991, tinha um controle no formato do Mega Drive, mas de cabeça pra baixo, mas o mais importante é que introduziu a função “turbo” no console, que acelerava os comandos.
Hi-Top Game e Top System (Milmar, 1990 e 1994)
A Milmar queria lançar um clone de NES e optou por um dos modelos mais baratos do mercado. Com padrão 72 pinos, o Hi-Top Game oferecia cartuchos inéditos no país, que eram licenciados pelo estúdio AVE. Os controles eram bem parecidos com o do Atari, de joystick, e o console também tinha uma pistola própria.
O seu sucessor, o Top System, lançado quatro anos depois, aceitava 72 e 60 pinos, mas saiu muito tarde, porque já tinha que competir com os consoles 16-bit.
Super Charger, da IBTC
Super Charger, da IBTC
Super Charger (IBTC, 1990)
O clone da IBTC era um dos poucos que imitavam o design do Famicom, em vez do NES. Seguindo no mesmo tema, ele também só aceitava cartuchos de 60 pinos japoneses, e acabou não ficando muito popular. Tinha um botão para ejetar cartucho e a empresa importava jogos piratas pro sistema.
Geniecom (Geniecom, 1992)
Com design próprio, o clone da Geniecom aceitava fitas de 72 pinos. O que o destacava de todos os outros consoles era um sistema “Game Genie” embutido no aparelho, uma espécie de Game Shark da época, feito para quem curtia usar cheats malucos nos jogos.
ProSystem-8, da Chips do Brasil
ProSystem-8, da Chips do Brasil
ProSystem-8 (Chips do Brasil, 1994)
A empresa fabricava controles e cartuchos pros clones de NES da época, mas foi só em 94 que resolveu lançar o próprio console. Os seus controles tinham a função "turbo" e "slow motion”, uma grande novidade no mercado. Aceitava cartuchos de 72 pinos e imitava o design da carcaça do Super Famicom (a versão japonesa do Super Nintendo, de 16-bit). Também foi lançado muito tarde e não tinha como concorrer com os consoles mais avançados.