Música

Beach House instaura clima onírico em São Paulo

Banda combina cenário e iluminação sofisticados às suas canções introspectivas.
Escrito por Carlos Messias
3 min de leituraPublicado em
Beach House ao vivo no Cine Joia
Beach House ao vivo no Cine Joia
Existem shows para dançar, shows para cantar junto e shows para ignorar. A apresentação do Beach House que ocorreu na última quarta-feira (28), como mais uma edição do Popload Gig, em São Paulo, pertence a uma quarta (e talvez mais elevada) categoria. Foi um espetáculo para ser sentido.
Como dificilmente ocorre em um show no Cine Joia, a banda montou um cenário que se mostraria fundamental para apresentação: uma instalação de armações que se pareciam canos, preenchidos por cordas que poderiam ser de harpa. Em vez de emitirem sons, as peças refletiam a iluminação e as projeções que transformaram cada canção em uma experiência multi-sensorial. Em uma estética calcada na penumbra, luzes verdes, amarelas, vermelhas etc. ou projeções de estrelas e figuras disformes iam se contrapondo gradualmente à escuridão, de acordo com o crescendo das canções, o que acentuou o caráter luminoso do repertório do Beach House.
Victoria Legrand e Daniel Franz
Victoria Legrand e Daniel Franz
Ao vê-los ao vivo, a classificação dream pop, na qual eles são enquadrados, realmente cai como uma luva, dado a atmosfera etérea dos arranjos e do timbre da cantora e tecladista Victoria Legrand. Sua voz, que parece uma mistura de Elizabeth Fraser (do Cocteau Twins), Margo Timmins (Cowboy Junkies) e, principalmente, Hope Sandoval (Mazzy Star), foi prejudicada pela equalização ineficiente, o que não chegou a comprometer a performance. Sobre bases eletrônicas, o guitarrista Alex Scally reproduziu com competência os dedilhados minimalistas dos discos, ousando em passagens mais ruidosas muito bem vindas. A dupla foi acompanhada pelo baterista Daniel Franz, que teve papel fundamental em trazer à vida a sonoridade introspectiva do grupo americano, seja acompanhando a dupla meio que por fora, sem tentar interferir na melodia incessante, seja em viradas nas quais se fez notar.
Eles entraram no palco pontualmente às 23h30 com "Wild" (assista abaixo), faixa de abertura do quarto e mais recente álbum, Bloom (2012). Este foi tocado praticamente na íntegra, com exceção de "On the Sea", a única do disco a ficar de fora. Dentre as outras nove, "The Hour", "Wishes" e "Myth", a última antes do bis, renderam momentos épicos. Por outro lado, o repertório pode ser acusado de ser, digamos, monocórdico, o que pode ter entediado parte do público. E as sete músicas que eles tocaram de "Teen Dream" (2010) - com destaque para "Norway", "Silver Soul" e "Zebra" -, que já seguia na direção de "Bloom", não ajudaram a quebrar o andamento. Nitidamente, a homogeneidade faz parte da concepção do espetáculo. Ainda entraram duas músicas de "Devotion" (2008), o segundo álbum da dupla: "Heart of Chambers" e "Turtle Island" (confira, abaixo, o setlist). Esta foi a primeira do bis, encerrado por "Irene", que também fecha "Bloom".
Com quase 1h40 de duração, o show foi uma satisfatória imersão na atmosfera e no imaginário do Beach House. O que quebrou a concentração foram problemas pontuais, como o empurra-empurra no bar e o excesso de gente na pista (embora tenham sido vendidos cerca de 70% dos ingressos, o mezanino do Cine Joia ficou fechado, o que concentrou todo o público no térreo). Mas a banda fez sua parte em promover uma viagem onírica que não requer o uso de aditivos.
Setlist
1- Wild

2- Walk In The Park

3- Troublemaker

4- Norway

5- Other People

6- Lazuli

7- Silver Soul

8- The Hours

9- Zebra

10- Wishes

11- Used To Be

12- Heart Of Chambers

13- New Year

14- Take Care

15- 10 Mile Stereo

16- Myth
BIS

17- Turtle Island

18- Irene