Thiago Adamo, conhecido também como Pxldj
© Thiago Adamo
Games

Chips à brasileira: entrevista com Thiago Adamo

Streets of Rage, Villa-Lobos e rock progressivo num papo com o compositor de jogos.
Escrito por Pedro Falcão
6 min de leituraPublished on
Thiago Adamo, conhecido também como Pxldj

Thiago Adamo, conhecido também como Pxldj

© Thiago Adamo

Se o cenário de designers de som e compositores de jogos brasileiros fosse um prédio, Thiago Adamo certamente seria o síndico. Ele sabe tudo o que está acontecendo dentro e fora da cena, e é participante ativo da sua fomentação e crescimento – seja com um vídeo mostrando como fazer risadas malignas em lo-fi, seja trocando uma ideia com todo mundo envolvido no desenvolvimento de games no Brasil.
Retomando a série de entrevistas com músicos de games iniciada ano passado, bati um papo com o Thiago sobre a sua relação com música eletrônica, influências brasileiras e o futuro do cenário de independente brasileiro.
Red Bull: Você parece ser um músico bem prolixo e ativo na comunidade de sound designers de jogos, mas quais são os seus trabalhos favoritos?
Thiago Adamo: Eu trabalhei durante muitos anos em jogos educativos e infantis. Por este motivo, até começar a trabalhar com desenvolvedores indies, não trabalhei em jogos de muita expressão. Pra compensar, mantenho desde 2008 um trabalho artístico bem forte no meio de games fazendo remixes e mesmo minhas próprias músicas, o que me ajudou a ter visibilidade no meio.
Trabalhei criando música original e arranjada, e efeitos sonoros junto com o Filipe, do PipocaVFX, na série de vídeos First Person, do Machinima. Eu diria que esses trabalhos ajudaram bastante com a visibilidade fora do Brasil.
Meus principais trabalhos por aqui foram com a Loud Noises!. Já fora do Brasil, sem dúvida alguma o This Little Piggy, que apesar de ser um jogo de jam, ganhou um destaque muito grande, o que me ajudou bastante a conseguir inclusive trilhas de projetos lá fora.
Vendo os seus vídeos, dá pra perceber que você tá ligado também no que rola de música eletrônica assim como nas músicas de games. Como você vê a influência do videogame na música contemporânea?
Eu vejo como algo que hoje já é intrínseco na cultura pop. Em termos de música eletrônica, a chipmusic e a música eletrônica mais popular nasceram praticamente juntas no final dos 70. Quando os videogames se popularizaram, foi exatamente o início do House em Chicago, e depois o Techno em Detroit. Com isso, chegamos até o ponto em que o Megadrive usava um chip de áudio da Yamaha similar a um sintetizador de mercado da época, o que aproximou demais a sonoridade dos games com a música que se fazia.
Hoje essa influencia é bem latente. Quando o Deadmau5 e o Zedd tocaram remixes e mashups com o tema do Legend of Zelda em diversos festivais, se tomou um caminho sem volta pra popularização desse som na música eletrônica, e não dá pra esquecer do Aphex Twin, que remixou nos anos 90 o tema do Pac Man, e também do Joachim Garraud, que usa Space Invaders como sua marca desde meados da década de 90.
Reject False Idols

Reject False Idols

© Loud Noises!

Quais são as trilhas que mais te impressionaram e influenciaram?

Sem dúvida nenhuma as trilhas dos três jogos da franquia Streets of Rage e a trilha do Final Fantasy VI. As trilhas do SoR me introduziram no mundo da música eletrônica e me fizeram ter interesse em coisas como Acid House/Jungle, que aparece bastante na trilha do SoR 3. Mesmo a trajetória do Yuzo Koshiro foi decisiva na minha escolha em trabalhar com música de games, tanto que decidi seguir esse caminho na música desde o primeiro vídeo que vi o Yuzo tocando os temas de SoR numa festa no Japão.
A trilha do Final Fantasy VI desde o início me impressionou bastante, eu fui educado ao som do rock progressivo setentista, e se você pegar, por exemplo, a Dancing Mad poderia perfeitamente estar num Tarkus do Emerson Lake and Palmer, ou até em algum álbum do King Crimson também.

Tem algum jogo atual cuja trilha você gostaria de ter produzido?

Gostaria muito de ter a liberdade que o Danny B. teve para fazer uma trilha como a do Crypt of Necrodancer. Ela sem dúvida é uma das melhores trilhas que escutei em 2014, e também tem a do Bastion, por toda inovação e mistura de estilos que o Darren Korb fez como ninguém.

Você recentemente fez trabalhou com o Video Games Live. Como rolou isso?

Na verdade, eu trabalho com a Conexão Cultural que organiza a Video Games Live no Brasil desde 2012. Eu entrei principalmente para ajudar na organização da edição daquele ano do Game Music Brasil, depois acabei ficando apenas na Video Games Live, na qual atuo como produtor. No momento, estamos já conversando sobre os 10 anos de Video Games Live no Brasil. Trabalhar num evento desses com o Tommy Talarico [diretor do Video Games Live] sem dúvidas me abriu muito os horizontes, tanto em termos de contatos quanto em termos da visão que o Tommy tem sobre o mercado.
Como você vê o representação da tradição musical brasileira nos trabalhos dos compositores brasileiros de jogos? Ou você não vê tanto isso assim?
Ainda é rara, até por que temos poucos jogos com temáticas e espaço para música brasileira, mas temos um ótimo exemplo de música regional, que é o Xilo. Outro exemplo de influência da música clássica nacional, no caso Villa-Lobos, é na excelente trilha do jogo Aritana e a Pena da Hárpia, do Vitor Ottoni.
Quanto tempo você está no mercado de jogos? Como foi ver o crescimento da cena de desenvolvimento brasileiro crescendo desde o começo até agora?
Minha primeira trilha de jogo foi feita em 2009 para um game da extinta Xbox Live Indie Games. Naquele mesmo ano, eu constitui empresa e comecei a fazer outras trilhas, a grande maioria pra advergames e jogos educativos. O crescimento do nosso mercado, principalmente o independente, foi muito bacana. Hoje temos uma cena bem interessante aqui no Brasil, e o mais legal é que essa cena já tem alguma visibilidade fora também. Tem encontros como o SPIN, em São Paulo, que ajudam bastante a juntar o pessoal que desenvolve jogos por aqui.

Como vê o crescimento do mercado de jogos brasileiros no futuro?

Creio que o nosso mercado, principalmente o independente, tem um potencial muito bacana. Os nossos desenvolvedores já atraem atenção das fabricantes de consoles e já temos alguns casos bem legais de vendas de jogos brasileiros. Acho que pelo menos na cena indie teremos um futuro brilhante, os projetos vêm aumentando e boto minhas fichas que o sucesso de jogos como Toren e Chroma Squad tragam mais jogos nacionais pra atenção internacional.