Como a cultura Sound System conquistou a música

© Kane Hibberd/Red Bull Content Pool
Escrito por Chris Parkin
De Sir Coxsone a DJ Kool Herc, a cultura dos sistemas de sons tem desempenhado um papel fundamental na evolução da música
Na década de 90, a ideia do soundclash jamaicano - uma batalha entre os sistemas de sons rivais - decolou no mundo todo, do Caribe aos EUA, do Japão à Escandinávia. Uma série de eventos do World Clash mostrava quão longe a cultura do sistema de sons tinha viajado desde os primeiros dias nas ruas de Kingston, na Jamaica, nos anos 50.
Fizemos aqui um resumão pra entender melhor como a cultura dos sistemas de sons jamaicanos conquistaram o mundo.
Os soundsystems jamaicanos começaram tocando músicas de R&B americanas
Reggae e dancehall foram apenas um brilho nos olhos dos criadores pioneiros quando os primeiros sistemas de som foram instalados nos anos 50. Esses sound systems - pilhas de alto-falantes instalados nas ruas de Kingston, Jamaica, tocando blues e músicas vindas dos Estados Unidos - foram liderados por Duke Reid e Sir Coxsone, cujos nomes correspondem ao status deles na comunidade. Eles ganhavam sua classificação ao vencer os sound clashes - batalhas, até então informais, entre dois sistemas de som instalados perto um do outro.
"Os jamaicanos adoram a competição. Eles gostam de provar que podem ultrapassar alguém. É apenas a nossa natureza de pessoas centradas no "Eu e eu ". É por isso que há tanta criatividade e tantos cantores incríveis por aqui, porque o nível da competição é muito alto.", conta Luciano, cantor de roots reggae.
Johnny Clarke, cantor jamaicano
Johnny Clarke, cantor jamaicano
As coisas evoluíram... e rápido!
Nos anos 60 e 70, DJs e seletores tornaram-se tão importantes quanto a música. Eles tinham que escolher a dedo as músicas locais, como King Tubby, Joe Gibbs e Lee 'Scratch' Perry. Tubby, o pioneiro do Dub, começou a criar "especiais" - ou trilhas exclusivas - para serem tocadas pelo seu e por outros sistemas de som.
Isso se transformou em algo maior com o advento do dancehall e com o surgimento de DJs como Yellowman, Tenor Saw e Burro Banton. Eles apresentaram ao público vocalistas e MCs que cantavam ao vivo em cima de suas batidas e falavam sobre seus sistemas de sons e seus concorrentes, preparando assim o caminho para o dubplate: trilhas pré-existentes gravadas com letras que falam sobre sua equipe. Na batalha entre sound systems, os dubplates são usados como "armas musicais", sendo essas as músicas que vão fazer o baile de cada equipe mais especial ainda.
"Alguns dos primeiros dubplates vieram dos sistemas de sons Bass Odyssey e Killamanjaro", conta David Rodigan, DJ inglês conhecido por tocar reggae e dancehall.
Sound system sempre foi um trabalho de equipe
A cultura sound system jamaicana está enraizada na competição, incluindo o tamanho das caixas de som auto-falantes de cada equipe. À medida que as coisas ficavam mais e mais fora de controle, as caixas começaram crescer sobre o público. Quando quando empilhadas, elas atingiam até 3.6m de altura. Para funcionar, este tipo de ambição exigia um esforço em equipe. Era necessário organizar suas próprias apresentações, construir seus próprios amplificadores e alto-falantes e testar os sistemas para garantir que eles funcionariam corretamente. 
A cultura Sound System rapidamente se espalhou para o Reino Unido...
Muitos jamaicanos migraram para o Reino Unido nos anos 50 e 60 e começaram a se reunir em casas e porões para eventos chamados de "festas de blues". Esses eventos exigiam sistema de som, que tinham o custo elevado para montar, então o público precisava pagar uma taxa de entrada para cobrir os gastos. Sir Coxsone Outernational, de Lloyd Coxsone, foi um dos primeiros sistemas de som que ficou conhecido no Reino Unido, seguido por Jah Shaka, Channel One, Iration Steppas e Saxon Studio International.
Os maiores nomes da música jamaicana vieram para tocar nesses sistemas de som no Reino Undo. A cultura Sound System cresceu, dominou o Notting Hill Carnival e influenciou muitos outros eventos, desde festas até festivais, entre eles, o Red Bull Culture Clash.
Soaking up the sounds from a soundsystem at Notting Hill Carnival 2006.
Notting Hill Carnival
… e nos Estados Unidos
Nos anos 70, o seletor Tony Screw criou um dos primeiros sistemas de som de reggae de Nova York, o Downbeat International. Mas tão importante na cena quanto este Sound System, foi a presença do DJ Kool Herc
Nascido em Kingston, na Jamaica, Clive Campbell - o verdadeiro nome de Herc - testemunhou em primeira mão as festas de dancehall organizadas pelos sistemas de som de bairro e vivenciou MCs jamaicanos soltando suas rimas quentes. Herc mudou-se para o Bronx e criou seu próprio sistema de som, criando o break as bases para processo da criação do hip-hop. Seu sistema de som Herculords foi uma grande influência para artistas como Grandmaster Flash And The Furious Five e Afrika Bambaataa's Zulu Nation, entre muitos outros. O resto, claro, é historia.
The NYC hip-hop legend DJ Kool Herc shows a new generation how it's done in Blackpool, UK, in 2000.
DJ Kool Herc
E no Brasil também.
A cultura que nasceu na Jamaica, passou por Londres, chegou no Brasil através de discos e ondas sonoras que vinham da ilha caribenha para o Maranhão. Os maranhenses abraçaram o Reggae, e até hoje o estado é conhecido como a “Jamaica Brasileira”.
Em São Paulo, o coletivo Dubversão foi o pioneiro a levar seus soundsystems pra rua. Em 2001, o grupo foi responsável por difundir as festas jamaicanas na capital paulistana ocupando espaços públicos.
Lei Di Dai
Lei Di Dai
Lei Di Dai foi a primeira mulher a ter um sound system no Brasil. Ela é responsável por criar o projeto Gueto pro Gueto Sistema de Som, apoiado pela Red Bull Amaphiko, que leva festas de soundsystem para as periferias de São Paulo, com o objetivo de trazer diversão, cultura e reflexão aos moradores das regiões por onde passa.
Desde então nomes como Yellow P, Magrão, Dubversão, Feminine Hi-Fi, Muamba Sounds, Jurassic Sound System, Zion Gate Sound System, Africa Mãe Do Leão Sistema de Som, Garage Sistema de Som vem difundindo a cultura jamaicana pelas ruas da cidade, amplificando sons e cultura por onde passam.
O Concreto Som Sistema, que acontece dia 24 de novembro, no Red Bull Music Festival São Paulo, celebra a cultura jamaicana um encontro que reúne seletores, músicos e artistas influenciados por sonoridades jamaicanas, do dub ao reggae e dancehall com nomes como Lei di Dai e Dubversão Sistema de Som, Buguinha Dub, Neguedmundo e Sound Sisters, o primeiro sistema de som comandado somente por mulheres do país.
Data: 24 Novembro, às 21h.
Local: Fabriketa - R. do Bucolismo, 81 Brás, São Paulo, SP