Henrique Avancini na sessão de fotos

Crônica: Brasil Ride - Uma batalha épica

© Caio Guatelli / IstoÉ 2016

Fotógrafo encara o desafio de pedalar 7 dias e descreve as dificuldades e os próprios dilemas.

Caio Guatelli lutando por cada metro nos 600km
Caio Guatelli lutando por cada metro nos 600km
Abrimos espaço para o fotógrafo Caio Guatelli fazer sua crônica após sua participação - para valer - na principal Ultramaratona de Mountain Bike das Américas - Brasil Ride, que acontece anualmente no mês de outubro na região da Chapada Diamantina - Bahia.
Além de habilidoso nas fotos, Guatelli tem um vigor físico e técnicas invejáveis sobre duas rodas, herança da paixão pelo esporte praticado desde à infância.
Na crônica "Brasil Ride 2014", Caio pedalou com a alma de um guerreiro, superando uma batalha contra a própria mente. Antes vale destacar que na véspera de pedalar, o profissional foi autor do ensaio fotográfico com o ciclista Henrique Avancini, como é possível conferir na edição da Revista IstoÉ 2016.
Confira!
Henrique Avancini na sessão de fotos
Henrique Avancini na sessão de fotos

Brasil Ride 2014! Um circo ou um ringue?

Por várias vezes me fiz essa pergunta.! Essa gente toda veio até aqui pra se divertir ou pra lutar? Sim, porquê pelos sorrisos e pela pompa nem parece que teremos uma competição de seiscentos quilômetros num terreno quase lunar sob um calor quase infernal - e todos estão bem avisados disso!
Essa gente toda veio até aqui pra se divertir ou pra lutar?
Brasil Ride: Batalha épica ou desafio mental?
Brasil Ride: Batalha épica ou desafio mental?
No meio dos quase mil ciclistas procuro aqueles que vieram para competir, mas essa é a fantasia preferida desse carnaval. Em meio a tanta alegoria, vestes exuberantemente decoradas com todo tipo de estampas, óculos reluzentes, capacetes espalhafatosos, e ensaiadas coreografias sobre suas sapatilhas, fica difícil encontrar o verdadeiro contender - ciclista de comportamento arisco, de rosto chupado, corpo delgado, mãos calejadas, cicatrizes profundas e pernas finas e rasgadas por e!normes veias.!
Com todo tipo de alegoria, fica difícil encontrar o verdadeiro contender - ciclista de comportamento arisco, de rosto chupado, corpo delgado, mãos calejadas...
Os seiscentos quilômetros são divididos em sete dias, cruzando estreitas trilhas de terra, areia, lama e muitas pedras. A primeira etapa é bem curta, e por consequência extremamente violenta com os pulmões e fibras musculares. A segunda etapa é a mais desafiadora de todas, são cento e quarenta e sete quilômetros que levam os ciclistas da largada na histórica Mucugê à chegada em Rio de Contas, cruzando todo tipo de terreno. O pior de todos os trechos fica nessa segunda etapa, e não à toa foi batizado de “Vietnam”. Extremamente quente (neste ano a temperatura atingiu os 45oC) com a pior topografia possível e obstáculos que exigem uma genética de equilibristas circenses - mais de noventa por cento dos participantes passa grande parte do Brasil R!ide empurrando suas magrelas, e com prazer... !
Mais de noventa por cento dos participantes passa grande parte do Brasil R!ide empurrando suas magrelas, e com prazer...
Atletas de 20 Estados Brasileiros e 20 países
Atletas de 20 Estados Brasileiros e 20 países
A grande e desafiadora maratona Brasil Ride é um circo muito bem armado, cheio de luzes, música, fantasia e espetáculos. As trilhas, as rochas, a areia, as montanhas e a paisagem exuberante da Chapada Diamantina não são as únicas estrelas desse show. Meia-dúzia de tendas concentram os demais espetáculos, onde o mestre de cerimônias é também o dono e idealizador de tudo aquilo.
As trilhas, as rochas, a areia, as montanhas e a paisagem exuberante da Chapada Diamantina não são as únicas estrelas desse show.
Mario Roma conseguiu atrair para seu evento ídolos e grandes marcas do mountain-bike internacional. Seu compatriota, o português Luís Leão Pinto, é o mais aclamado dum elenco composto por grandes nomes do circuito internacional como Henrique Avancini, Bart Brentjens e Rebecca Rusch. Esses astros estão sempre presentes nos palcos, recebendo seus prêmios e muitos aplausos, mas suas apresentações são ocultas.
Meia- dúzia de equipes que consegue cruzar os seiscentos torturantes quilômetros num tempo tão curto que dá pra dizer que fazem assim, tão rápido, pra sofrer menos...
Ao soar a corneta da largada, o show se apresenta àqueles que desembolsaram belas economias por breves instantes, quem tem perna ainda consegue vê-los por mais alguns metros, mas a grande maioria tem que se contentar com a breve imagem de seus ídolos alinhados na linha de largada. As habilidades dos grandes atletas (e artistas) das duas rodas são um show reservado para seus adversários diretos, meia- dúzia de equipes que consegue cruzar os seiscentos torturantes quilômetros num tempo tão curto que dá pra dizer que fazem assim, tão rápido, pra sofrer menos, e ainda por cima são pagos pra isso, ao contrário da grande maioria, que parece adorar cada hora extra no calor infernal, cruzando trilhas inóspitas e pagando por isso.!!
Camisa de líder: Ulisses Valarelli e Caio Guatelli
Camisa de líder: Ulisses Valarelli e Caio Guatelli
Numa das sete etapas, num ponto de abastecimento qualquer, cercado pelos galhos retorcidos, secos e espinhosos da Caatinga, dou sequência ao meu conflito (circo ou ringue?) e tenho um pensamento que por um tempo mantive em silêncio: Cruzar os seiscentos quilômetros qualquer um cruza, é só uma questão de tempo, mas qual é o meu objetivo?
Cruzar os seiscentos quilômetros qualquer um cruza, é só uma questão de tempo, mas qual é o meu objetivo?
Uma resposta passa a ser tão crucial, que incomodado eu grito (com meu companheiro de equipe, que com uma mão segurava uma fatia de melancia e com a outra um copo de Coca-Cola): Isso não é um passeio dos Nightbikers, isso é uma corrida porra! Será que você não percebeu?! Anda logo com isso Ulisses, sobe logo na sua bike e coma pedalando! Treinou o ano todo para quê?!!
Quem sou eu pra chamar Ulisses para batalha? Ou melhor, para que batalha eu estou chamando Ulisses?!
Alegria de completar 7 dias de pedal
Alegria de completar 7 dias de pedal
Caio Guatelli, ciclista que participou na categoria Corporativa, em equipe com os atletas Ulisses Valarelli e Gustavo Jorge. Sua equipe foi vice-campeã na categoria.
Andre Piva, Caio Guatelli e Henrique Avancini
Andre Piva, Caio Guatelli e Henrique Avancini