Dança

Passinho usa a dança pela paz e contra o preconceito

© Fabio Piva/Red Bull Content Pool
Criado nas favelas cariocas, gênero deu mais destaque ao funk
Escrito por Evandro PimentelPublicado em
Se o breaking foi criado nos anos 70 pelas comunidades negra e latina do Bronx para pacificar disputas territoriais, no início dos anos 2000, uma história bem parecida aconteceu no Brasil. Um estilo que mistura breaking, frevo, samba e capoeira surgiu nos bailes funk das favelas cariocas: o passinho.
Prova de que a dança pode promover a paz, seja qual for a época, o passinho nasceu quase como uma brincadeira e acabou mostrando que tem uma grande força, capaz de aliviar tensões entre favelas. Isso porque dançarinos do estilo passaram a participar de batalhas realizadas em outras comunidades, diminuindo as barreiras entre elas.
O passinho é originalmente dançado ao som do funk carioca e se caracteriza por um movimento coordenado e – principalmente – rápido dos pés e das pernas. Tanto que quando um dançarino de passinho está a todo vapor, fica até difícil enxergar seus pés com clareza (olha esse gif aí embaixo!).
Mesmo tendo sido criado no começo dos anos 2000, o passinho só começou a ficar conhecido em 2006, quando o grupo Imperadores da Dança – fundado por Anderson Santana, o Baianinho, na favela carioca do Jacarezinho – incluiu o estilo em suas performances e o levou para batalhas que rolavam pela cidade. Logo, vídeos das competições começaram a ser postados na internet e em 2008 – ano da publicação do viral “Passinho Foda" – o passinho se tornou um fenômeno.
Muita gente acha que passinho se resume a apenas um movimento, mas são vários os passos que caracterizam o estilo. O passo-base é o sabará, em que o dançarino usa um dos pés como apoio enquanto faz movimentos alternados com a outra perna na frente e atrás do corpo. Tem também a cruzada, passo em que o dançarino cruza um dos pés para frente enquanto desliza o outro pra trás, o que é uma influência direta do frevo.
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Dança · 5 min
Dance Como: Celly e o passinho
Como qualquer dança, o passinho exige técnica e muito treino para quem quiser dominá-lo. Porém, uma das mais belas características do estilo é que ele dá grande liberdade de criação ao dançarino, que pode imprimir suas características pessoais aos passos, criando estilos únicos.
Foi assim que surgiu o Passinho do Romano. Um morador da Vila Romano, zona leste de São Paulo, conhecido como Magrão, acabou criando o passo em 2004 enquanto tentava dançar black music. A falta de prática resultou em uma mistura de black e forró. Magrão morreu pouco tempo depois e foi homenageado pelo MC Bruno IP em uma música que celebra o bairro. A faixa, batizada de "Passinho do Romano" – o nome foi criado por MC Bruno IP com autorização da viúva de Magrão – viralizou e muitos vídeos foram postados por pessoas demonstrando suas habilidades, ajudando a popularizar ainda mais o estilo.
Desde então, outras formas de passinho foram criadas pelo Brasil. É o caso do Passinho Malado, criado em Belo Horizonte. É uma versão mais rápida dos passinhos dos bailes de charme. Em Recife, a ascensão do brega-funk ajudou a criar uma variação conhecida como Passinho dos Maloka.
Essa dominação nacional contribuiu muito para diminuir o preconceito – que ainda existe – em torno do funk, frequentemente associado ao crime. Tanto que no Rio de Janeiro, berço do passinho, foi aprovada em 2009 uma lei estadual que reconhece oficialmente o passinho como movimento cultural e proíbe sua descriminação.
Em 2011, o produtor cultural Julio Ludemir criou a Batalha do Passinho. A primeira edição do evento rolou naquele mesmo ano no Sesc Tijuca e, em 2012, Ludemir levou um grupo de dançarinos para se apresentar na cerimônia de encerramento dos Jogos Paralímpicos de Londres. Foi a primeira grande exposição internacional do passinho, que teria destaque na abertura Olimpíadas Rio 2016.
Hoje, o passinho é pop e já foi parar até nos pés da Beyoncé. Toda essa fama muitas vezes faz com que dançarinos originais sejam excluídos de festas caras que se apropriaram do estilo. Mas é graças a essas pessoas que o passinho mantém até hoje sua essência, e o que se espera é que o estilo continue criando oportunidades de transformar vidas por meio da arte.
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