Dança

De onde veio a dança (e, afinal, por que dançamos?)

© Mauro Puccini/Red Bull Content Pool
Nos mexemos há milhões de anos e ainda se tenta explicar como isso aconteceu
Escrito por Evandro PimentelPublicado em
O que balé, breaking, samba, frevo e popping têm em comum? Sim, são tipos de dança. A resposta pode parecer óbvia, já que essa arte, de uma maneira ou de outra, sempre fez parte da vida de todos nós. Estamos acostumados com a dança, mas você já pensou em algum momento de onde vem essa vontade de mexer o corpo seguindo (ou não) um ritmo? Aliás, o que determina qual tipo de movimento é uma dança?
Primeiro, vamos deixar claro que não é possível identificar com precisão quando a dança se tornou parte da cultura humana. Isso porque ela geralmente não produz artefatos físicos claramente identificáveis ​​que duram milênios, como ferramentas de pedra, instrumentos de caça ou pinturas em cavernas.
Pinturas rupestres encontradas na Índia, com cerca de 9 mil anos de idade, são as primeiras provas arqueológicas da dança, mas isso não significa que foi nessa época que ela surgiu. Segundo a antropóloga havaiana Joann Kealiinohomoku, "devemos nos lembrar que o homem chegou à Terra bem antes de fazer pinturas rupestres e esculturas, de modo que as descobertas arqueológicas não podem nos esclarecer quase nada sobre as origens da dança".
As pinturas têm cerca de 9000 anos de idade e estão nos Abrigos na Rocha de Bhimbetka
Evidências arqueológicas da dança encontradas na Índia
O que se sabe é que foi no período paleolítico, que teve início há cerca de 2,5 milhões de anos, que homens e mulheres começaram a criar formas corporais expressivas, elaboradas em processos criativos que desconhecemos, e cujas pistas – representações do corpo em movimento – se encontram inscritas nas paredes das cavernas. "De fato, não sabemos nada sobre a dança dos homens das primeiras eras", diz Giselle Guilhon, antropóloga especializada em dança. "O que sabemos é que a dança primitiva não existe. Existem danças executadas pelos povos originários, que são muito diversas para corresponderem a um estereótipo".
É por causa desse estereótipo que muitos estudiosos acreditam ser possível traçar uma linha única para explicar a história da dança, como se o processo de transmissão da dança ocorresse num sentido linear, da mais "primitiva" para a mais "civilizada", excluindo características estéticas específicas, atribuídas apenas genericamente às tribos africanas, aos indígenas da América do Norte, Central e do Sul e aos povos do Pacifico, como se esses povos fossem destituídos de história.
"Um fato curioso é que a maioria desses autores fala como se não houvesse, nos dias de hoje, centenas de povos de etnias diversas habitando o planeta. É como se esses povos não existissem e como se eles não tivessem danças", diz Giselle. "São esses povos que esses autores catalogam em termos de 'étnico', mas os africanos, os ameríndios do Norte, do Centro e do Sul e os povos do Pacífico ficariam todos horrorizados se soubessem que se enquadram nesse estereótipo".
É importante dizer que não faz sentido classificar uma determinada dança como "étnica" pois todas as danças são étnicas. "Todas refletem as tradições culturais no interior das quais foram desenvolvidas", explica Giselle. Até hoje, somos capazes de descobrir novos sons e ritmos e combiná-los a movimentos corporais. Como acontecia com nossos antepassados, um dos motivos mais básicos para isso é a necessidade de expressar e comunicar emoções.
"Os 'primitivos' recorriam à 'magia' quando sua capacidade de lidar realisticamente com as situações se esgotava", conta Giselle. "A 'magia' seria, então, uma espécie de realidade substituta: por exemplo, se as pessoas de uma determinada tribo não pudessem fazer a guerra com uma aldeia vizinha, poderiam, ao menos, dançar a guerra; em tempos de seca, dançariam para fazer chover e fertilizar as colheitas; quando as plantações não cresciam, dançariam para que isso acontecesse".
Agora, a humanidade tinha nas mãos (e no corpo todo) uma forma de extravasar. Porém, na Idade Média, que teve início no ano de 476 na Europa, manifestações corporais começaram a ser consideradas profanas e a dança perdeu força. Na Renascença, a partir de 1453, as danças voltaram com tudo. A arte de se movimentar conforme a música caiu no gosto das elites e passou a ser cada vez mais sistematizada. Foi também nessa época que aconteceram as chamadas grandes navegações, com nações europeias desbravando o planeta e impondo sua cultura por onde passavam.
Enquanto isso, outras formas de danças continuavam a ser praticadas por todas as classes sociais em todo o mundo, no que mais tarde ficaria conhecido como dança moderna e posteriormente daria origem à dança contemporânea. Essas manifestações espontâneas de culturas tão diferentes povoaram o planeta com diversos estilos, cada um com sua própria história, fazendo da dança uma das principais ferramentas para nos conectarmos com nossas raízes e com nós mesmos.
Para o bailarino Christian Casarin, a dança foi a maneira que ele encontrou para entender seu lugar no mundo. "A dança entrou na minha vida aos quatro anos de idade. Meus pais trabalhavam e eu acompanhava minha irmã até o balé e assistia às aulas", lembra. A paixão foi crescendo e logo sua mãe o matriculou em uma academia, mas seu pai não gostou nada da ideia.
O bailarino Christian Casarin
O bailarino Christian Casarin
"Houve uma ruptura na nossa relação. Eu era uma criança, não entendia o que estava acontecendo, mas eu sabia que a dança era uma coisa importante pra mim, e ela foi se tornando algo cada vez mais meu, um lugar seguro onde eu podia me expressar." Quando completou nove anos, Christian perdeu o pai. "Foi outro baque, porque meu pai nunca tinha me visto dançar, eu ainda estava tentando entender nossa relação e de repente ele faleceu", recorda. "Eu não fui ao enterro, fui dançar, porque era o meu jeito de dialogar com aquilo que estava acontecendo. A dança me resgatou."
A jornada de autoconhecimento de Christian enquanto ele crescia continuou sempre muito apoiada pela dança. "Quando eu estava começando a entender a questão do meu pai, veio a questão da homossexualidade", lembra. "Na dança, ao contrário do mundo lá fora, eu podia ser eu mesmo. Foi por meio dessa linguagem que eu tive a oportunidade de me conhecer e entender cada processo interno, cada fase, cada mudança."
+ Conheça, no filme Lords of BSV, o estilo de dança que mistura dancehall jamaicano ao improviso dos dançarinos do Brooklyn.
Dança · 1 h 16 min
Lords of BSV
A dança nunca mais deixou de fazer parte da vida de Christian, e hoje ele traz toda sua história para as aulas que dá no Ballet Paraisópolis, em um bairro favelizado na zona sul de São Paulo. Fundado em 2012 pela professora e coreógrafa Monica Tarragó, o projeto incentiva crianças e adolescentes, por meio do ensino da dança clássica e contemporânea, a buscar melhores oportunidades de vida.
“O Ballet Paraisópolis surgiu da vontade de transformar a vida de famílias e levar arte, educação e cultura para Paraisópolis", conta Monica. Atualmente, o Ballet Paraisópolis conta com 200 alunos sendo diretamente beneficiados e outros 2 mil na fila de espera. Com o apoio da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis, Monica e sua equipe lutam para transformar sonhos em realidade por meio da dança.
Alunos do Ballet Paraisópolis se apresentam no Auditório do Ibirapuera
Alunos do Ballet Paraisópolis se apresentam no Auditório do Ibirapuera
A dança é uma das maneiras mais genuínas de entender e dar vazão aos sentimentos que cada um de nós carrega. Foi graças à ela que Lê Gambalonga, hoje professora de dança em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, conseguiu vencer a depressão. "No momento em que busquei a dança, estava em processo depressivo, obesa e, apesar de financeiramente estável, não conseguia ver graça em nada. Havia perdido o gosto pelo trabalho e talvez até pela vida", conta.
Lê se matriculou em uma aula de dança por insistência do marido. "Ele ficava comentando que quando me conheceu eu amava dançar e que talvez esse tipo de atividade me ajudaria a voltar a ter alegria", diz. "Comecei dançando em casa e depois passei a frequentar a academia. Logo na primeira aula já pensei em desistir, pois além de estar acima do peso, eu não conseguia acompanhar as outras pessoas", lembra. Não foi paixão a primeira vista, mas ela insistiu e fez aula durante dois anos.
Com a perda de peso, a pressão arterial de Lê voltou ao normal e ela começou a se sentir mais confiante, a ponto de procurar curso de instrutor na franquia onde era aluna. "Com o tempo, vi que precisava de mais conhecimento". Em 2016, Lê começou uma nova faculdade. "Nem eu acredito que me encontrei na Educação Física. A dança me salvou! Procuro levá-la comigo da hora que acordo até a hora que vou dormir e onde eu puder estar com a minha dança pra ajudar alguém, é lá que eu quero estar."
Lê Gambalonga: "A dança me salvou"
Lê Gambalonga: "A dança me salvou"
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