Dúdús
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Arte & Design

Dúdús: O vídeo negro entre resistência, odes e reimaginação

Como se dão os processos de reimaginação, desconstrução e ressignificação dos estereótipos raciais por meio dos videoclipes?
Escrito por Gabriel Hilair
11 min de leituraPublished on
Os videoclipes têm munido uma vasta conjuntura especulativa para assimilar os seus fornecimentos discutis identitários, do mesmo modo que as questões alusivas de reimaginação, desconstrução e ressignificação de culturas e subjetividades de indivíduos. Usando o vídeo como linguagem, artistas negros, através da estética, somada às respectivas melodias, transportam os meios de concórdia e contestação onde as identidades racializadas são o que se autuam – estes desempenham uma função preeminente na construção do conceito de raça, no campo político, assim como no cultural, a qual acaba por redirecionar o próprio entendimento de produção afrodescendente e os valores simbólicos empregados à palavra “negro”.
Dúdús

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© Rodrigo Bento

Dentre o processo de colonização e escravidão que posicionou tal produção na subalternidade e muniu tal termo de valores negativos, resignou-se uma trama que ultimou os valores de belo e bom e de visão e apreço estéticos o qual, em meio um projeto higienista em detrimento de uma cultura, firmou através de composições de fotografia, cenário e figurino, violências etimológicas com respaldo na revogação da cosmogonia negra. Nesse sentido, fabricar pretensões, restaurar visões de mundo e colocar em curso princípios torna-se práticas artísticas frequentes, de modo que é criada uma esfera onde representações, ausências e permanências são possíveis de serem negociadas a favor das identidades e da diferença.
A lógica de assimilação empregue nos estudos culturais chama a nossa atenção para a consequência das relações sociais que se organizam entre cultura e nosso contexto social na contemporaneidade. Consideramos aqui então que entender os estudos culturais para compreender as identidades e a diferença é um processo de desmistificação de uma cultura central, de forma em que essa perspectiva nos libera de antigos pontos de vista centralizadores de cultura, bem como da respectiva hegemonia.
“A cultura é uma produção. Tem sua matéria-prima, seus recursos, seu “trabalho produtivo”. Depende de um conhecimento da tradição enquanto “o mesmo em mutação” e de um conjunto efetivo de genealogias. Mas o que esse “desvio através de seus passados” faz é nos capacitar, através da cultura, a nos produzir a nós mesmos de novo, como novos tipos de sujeitos. Portanto, não é uma questão do que as tradições fazem de nós, mas daquilo que nós fazemos das nossas tradições. Paradoxalmente, nossas identidades culturais, em qualquer forma acabada, estão à nossa frente. Estamos sempre em processo de formação cultural. A cultura não é uma questão de ontologia, de ser, mas de se tornar” - Stuart Hall
O conceito de Hall de transição do “ser” para o “tornar-se” é pontual para compreender que a cultura é um grupo de significados que por meio das tradições se desvia para uma nova condição de se localizar e se engendrar num processo de metamorfose em que novos conceitos, compreensões e caminhos nos permitem o surgimento de novos sujeitos. Esse processo de transmutação nos propicia pensar sobre o itinerário que atravessamos diante de nossas tradições e, se esse itinerário está sendo codificado com base nas mediações do dia-a-dia, em razão de o “fazer” depreender reconstruir-se a partir de debates advindos da contestação da tradição e a nova forma de pensar contemporaneamente a cultura.
Citando o teórico cultural e sociólogo jamaicano em seu livro “Black Looks: Race and Representation” de 1992, bell hooks afirma que para enfrentar as feridas e para curá-las, os negros e seus aliados em luta devem estar dispostos a conceder o esforço para interferir criticamente e transformar o mundo da imagem fazendo autoria de lugar em nossos movimentos políticos de libertação, pois ela acredita que, se assim fosse, estaríamos conscientes da necessidade de fazer intervenções radicais, consideraríamos cruciais tanto o tipo de imagens que produzimos quanto à maneira crítica de escrever e falar sobre imagens, e o mais importante: nos elevaríamos ao desafio de falar aquilo que não foi falado.
Isto posto, Beyoncé atada com Jay-Z, ao objetar a hegemonia branca nas obras do vídeo de “APESHIT” dirigido por Ricky Saiz e Jenn Nkiru, refuta no Museu do Louvre, em Paris: “Quais outras histórias a arte pode contar além da história da arte?” – questionamento análogo do diretor artístico do MASP Adriano Pedrosa em relação a exposição Histórias Afro-Atlânticas, a qual o museu sediou uma parte, e ao conjunto de temas que fundamentam a programação da instituição este ano. “O casal Carter entendeu que museus importam, são símbolos de poder e história. Toda grande metrópole se reveste de aparatos culturais que dão um pouco a cara da cidade e do país”, disse o antropólogo e um dos curadores da exposição Hélio Menezes ao Jornal Nexo. “O Louvre é talvez o maior símbolo de poder, cuja história é permeada de saque colonial – como das obras do setor egípcio, onde eles aparecem algumas vezes –, frequentado, como são os museus de modo geral, por pessoas brancas, com obras de artistas, em sua grande maioria, brancos e também maioria de personagens brancos pintados nas telas”, completa.
Beyoncé antagonizou o racismo estruturante pela primeira vez em 2016 com o clipe de “Formation”, dirigido pela norte-americana Melina Matsoukas, no qual, em seus primeiros segundos, brada as declarações “what happened at New Orleans?” (“o que aconteceu em Nova Orleans?”, em tradução literal), e “Bitch, I’m back by popular demand” (“Vadia, eu estou de volta pela demanda popular”, em português) de um rapper chamado Messya Mya assassinado a tiros em 2010 por denunciar a violência policial na região. E, nos seus quase cinco minutos, denuncia a forma como a população negra do local sofreu com as consequências do furacão Katrina e foi esquecida pelo governo Bush, em 2005, a forma díspare com a qual a polícia trata brancos e negros, seguidas de reverências ao movimento “Black Lives Matter” e ao orgulho do cabelo crespo.
Os créditos de alguns elementos do vídeo de “Formation” são do cinegrafista, um dos diretores de “4:44” de Jay-Z. Também artista visual e diretor de fotografia, Jafa captura a história e as experiências de americanos negros em filmes e mídias visuais inovadoras por quase três décadas, exemplificando a chamada estética negra, um termo nascido do Black Arts Movement que significa simplesmente centralizar a vida negra na arte sem o foco ou o uso de ideais ou regras eurocêntricas.
Além de imagens perturbadoras da brutalidade policial e os protestos de 2014 em Ferguson, em “4:44”, vemos um menino cantando "Feeling Good", de Nina Simone (1965), imagens de Eartha Kitt e Jean-Michel Basquiat e uma rara performance ao vivo de Al Green, dessa forma, percebemos a honra ao legado de artistas que vieram antes dele, e uma transposição de linguagens e temas relacionados à Love Is The Message, The Message Is Death (2017) nas cenas onde Jay-Z e Beyoncé dançam juntos no palco sem se tocar ou olhar um para o outro diretamente.
Essa intertextualidade nos processos de criação aparece de forma magistral em “Don’t Touch My Hair” de Solange, vídeo dirigido pela própria artista com seu marido Alan Ferguson e com direção de fotografia também de Arthur Jafa, no qual obras da pintora ganesa-britânica Lynette Yiadom-Boakye são recriadas.
Tal qual no início do clipe para “ELEMENT.” de Kendrick Lamar onde há uma recriação direta da foto clássica de Gordon Parks de 1963, Boy With June Bug, assim como no decorrer da obra audiovisual que, entre muçulmanos negros treinando autodefesa e referência à Ethel Sharrieff, é dedicada à pungência das imagens do fotógrafo que teve sua trajetória envolvida em militância e respeito a questão negra, dos direitos civis e das populações mais pobres nos EUA, desde 1940 até 2006, quando veio a falecer.
Se por um lado, no ocidente, o mimetismo do legado à produção negra para a história da arte é o que ameniza a estética de violência policial e protestos popularizados por Kahlil Joseph, um dos diretores de videoclipe musical mais proeminentes de sua geração, que realizou trabalhos com a própria Beyoncé em “Lemonade”, Flying Lotus em “Until The Quiet Comes”, Sampha em “Process” , FKA twigs em “Video Girl”, entre outros, na África, mesmo sob a alcunha colonizadora e rasa de arquétipos quiméricos que ora envolvem fome, pobreza e guerras, outrora, posiciona o que se cria no continente em categorias subordinadas como “naif”, “artesanal’ e “popular”, há uma produção que pensa o vídeo como aquele capaz de reimaginar, desconstruir e ressignificar essas ficções, entendendo o ato de criar estética como dispositivo de preconização para um futuro possível. Assim acontece a narrativa do videoclipe “La Vie Est Belle” do cantor sul-africano Petite Noir mesclando o mundo real com o virtual, de forma que grafismos e modelagens 3D se fundem com texturas e cenários reais ao mesmo tempo em que o artista aparece como um elemento desse mundo digital, ao observá-lo com os óculos de realidade virtual e se inserir de forma homogênea nos ambientes criados.
Também na África do Sul, a hipermasculinidade socialmente imposta de forma severa ao homem negro e a solidão a qual as bichas pretas estão fadadas ganham rupturas no clipe de “Queenie” do duo FAKA, dirigido por Jabu Nadia Newman and Luvuyo Equiano Nyawose. Nele, se reimagina família e luxo e somos convidados a pensar sobre gênero e sexualidade em relação ao passado: as nossas infâncias e nossas criações, as condições sob as quais começamos a formar e a moldar nossas ideias incipientes de nós mesmos e de nosso lugar no mundo. Muitos de nós só tinham a nossa imaginação e hoje podemos pensar e, acima de tudo, construir de forma colaborativa movimentos ancorados nas reinterpretações radicais da família e do parentesco, como as houses de vogue do final dos anos 80, sempre comandada por mothers, no vídeo representado por Queenie, que davam seus sobrenomes aos filhos, todos ilustres e criativos jovens expressando sua homossexualidade numa época de pobreza e devastação pelo HIV, ainda mortal.
Já a Nigéria é o país onde nasceu Akinola Davies Jr, outro notável diretor de videoclipes. Seu catálogo de filmes e exposições experimentais explora as identidades individuais e comunitárias alterando o contexto físico e emocional em que elas são apresentadas. Em “Permission” de 2017, um curta-metragem em colaboração com a estilista Bianca Saunders, como em “Queenie”, Davies e Saunders exploram a masculina negra através de uma série de toques e abraços e, nos videoclipes que Davies dirigiu para artistas como Dev Hynes (mais recentemente, "Charcoal Baby", Larry B e Klein, tradições e rituais são distorcidos como um meio de redefini-los e desafiá-los. Assim, partindo desta premissa, se quando pensa em crianças africanas lhe vem à mente crianças passando fome, extremamente magras, doentes e à beira da morte, num dos vídeos de Akinola para a dupla do Mali Amadou and Mariam essas crianças são infectadas com o direito de sonhar.
E se há uma peculiaridade comum que permeia, mesmo que num diminuto espaço de tempo, a existência de todo corpo negro, ela é a busca ou a necessidade de reimaginar e dar novo sentido ao seu próprio ser. Dessa forma, foi para este local que a visão de proponentes da oficina “Vídeo Negro: Entre Resistência, Odes e Reimaginação” que integrou o segundo ciclo de oficinas relacionado à exposição Histórias Afro-Atlânticas do MASP guiou o Dúdús enquanto coletivo: um local que aufere a presença negra com tudo o que vem consigo. Colapsando a estrutura, os participantes desmantelaram o desígnio da instituição, promovendo envergaduras e criando novos espaços ao retirar a pátina do concreto usurado do museu. Para Ana Cláudia de Oliveira, toda estética é regida por uma ética, e foi promovendo rupturas com suas presenças que as imagens produzidas durante a atividade liberaram a estese: modos de sentir que fragmentam a escravidão semântica e estrutural que a palavra negro representa.
Confira abaixo uma playlist de videoclipes exibidos e citados na oficina mais outros adicionados de forma colaborativa pelos participantes.
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