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* Atualizado em agosto de 2020
Ele deixou diversos grandes jogadores profissionais de Street Fighter V para trás, nas finais latino americanas que valeram vaga para a decisão do campeonato mundial do jogo, a Capcom Cup 2017. No mundial superou um dos "deuses da luta" – melhores jogadores do Japão -, o campeão mundial do ano anterior, Ryota 'Kazunoko' Inoue. Conheça um pouco mais de Renato 'DidimoKoF' Martins, que arrancou gritos da torcida com seu impressionante Dhalsim e conquistou um inédito top 16 no mundial.
- Red Bull: De onde veio a vontade de ser um pro player de Street Fighter V?
Eu jogo desde criança. Comecei aos 9 anos, com The King of Fighters, que foi quando vi eu que gostava de jogar. Mas, competitivo mesmo, tem pouco tempo… faz pouco tempo que começou a rolar esses campeonatos profissionais no Brasil. Antes o que tinha eram torneios da galera onde a gente juntava uma grana e 'vamo apostar'.
- Red Bull: Tipo um bolão?
Isso. Mas isso ainda era na KoF (King of Fighters). Eu sempre gostei mesmo de KoF, jogava a XIII, só que aí, depois, eu fui para um lugar que não tinha como jogar KoF, daí comecei a jogar Street Fighter IV, que até gostava, mas não fiquei em um nível competitivo. E quando lançaram KoF XIV eu não gostei do jogo. Daí, decidi jogar o [Street Fighter] V, que foi lançado praticamente junto, pois sempre gosto de jogar jogos novos de luta, assim, logo quando lançam. Se não gosto, paro de jogar, se gosto, me dedico.
Eu não tinha computador ou PlayStation. Tinha um Xbox 360. Jogava mesmo Street Fighter em um arcade que tinha na República, toda sexta-feira, na WW Arcades. Daí, teve um primeiro torneio que fiquei em terceiro lugar, no segundo torneio fiquei em segundo, e no terceiro fiquei em primeiro. Depois disso, ganhei dezesseis campeonatos seguidos. Foi aí que vi que estava num nível legal.
- Red Bull: Nesses torneios, você sempre jogou com o Dhalsim?
A partir desses torneios, sim. Quando lançaram o jogo, joguei com o Nash, com a [R.] Mika, mas não fui longe, não ganhei nada. Foi quando comecei com o Dhalsim que vi que o nível estava melhor, e quando ganhei diretão assim, vi que já era um dos melhores de São Paulo com ele, que vi que esse era o caminho.
- Red Bull: Você sempre gostou do Dhalsim ou descobriu isso com o tempo?
Então, pelo meu estilo de jogo da KoF, um amigo meu de infância sempre falou, 'ô, acho que com o Dhalsim você jogaria bem!'. Daí, vi o Filipino Champ (Ryan Ramirez, campeão mundial da EVO) jogando com o Dhalsim lá fora, considerado um dos melhores Dhalsims do mundo. Vi ele jogando, ganhando campeonatos, gostei do estilo do boneco e comecei a jogar com ele a partir daí.
- Red Bull: Esperava esse retorno por causa do Dhalsim? Afinal, muitos ficaram surpresos por chegar tão longe com ele.
É porque o Dhalsim não é considerado forte. Ele é 'mediano' e ninguém venceu um torneio desse tamanho com o Dhalsim. Você vê três jogadores com um mesmo personagem ali, três com outro, mas Dhalsim? Não tem. É difícil de aparecer. Porém, tem bons jogadores de Dhalsim como o Filipino, o YHC-Mochi e o [Commander] Jesse, que dão trabalho.
- Red Bull: E como você entrou para o time da AA Games (AAG)?
Eu já conhecia eles, quando participei de alguns torneios de KoF. Ganhei alguns de KoF XIII, os de Street IV ia mais pra ajudar eles. Até pagava a inscrição, pois era mais pra ajudar a cena a crescer. Daí, quando comecei a ganhar esses torneios do SFV, que foi quanto fui para Brasília e ganhei do Just Wong (7º melhor das Américas e 14º do ranking global). Aí, eles viram que eu estava em um nível bom e não tinha nenhuma equipe, me mandaram uma mensagem pra entrar pro time e eu 'tá bom, aceito'.
- Red Bull: Como foram as viagens para os torneios de 2017? Vimos que você participou de oito deles.
Tem dois torneios online na América Latina (que valem pontos para o ranking, posteriormente para o mundial), só que a gente sofre um pouco com o lag, pois são partidas na América Latina toda, gente da Colômbia até a República Dominicana. Mesmo com esses problemas, no 1º torneio fiquei em segundo lugar e fiz a final com o Blolynho (Thomas 'Brolynho' Proenca, brasileiro, 1º colocado do Ranking da América Latina, 18º mundial). Esse foi o primeiro campeonato da região e já valeu 100 pontos, que já é muito! Daí, pensei em me dedicar nos outros pra conseguir pontos ao menos para a Last Chance. Todos os outros torneios valem pontos, mas não como esse primeiro online. Neles eu fiquei em 4º, depois em 5º. Não foi a mesma coisa.
- Red Bull: Foi aí que você garantiu pontos para o Last Chance, venceu e garantiu vaga para o mundial. O que passou na cabeça nesse momento?
Nossa (risos)! Uma é que eu tava, acho, uns dois meses sem jogar. Já estava desanimado pois achei que não teria como ir para o Last Chance. Porém, foi quando o Brolynho e o Mena (o dominicano 'MenaRD', atual campeão mundial de Street Fighter V) conseguiram vagas diretas por pontos que sobraram duas vagas para o Last Chance. Quando fiquei sabendo, treinei um dia antes do torneio, treinei com um amigo que é um dos melhores Guiles que conheço. Soube que minha primeira luta era contra um Guile, daí, pensei em fazer bonito e ganhar ao menos a primeira luta. Quando ganhei dele e vi que dava para ir longe, ativei o sétimo sentido e disse, 'vamos nessa!' (risos).
- Red Bull: E o mundial? Como foi participar e até enfrentar alguns dos "deuses da luta"?
Eu aprendi a ter o controle do nervosismo. Quando eu estava na sala e vi todo aquele pessoal que você acompanha há anos, sabe? Os japoneses, você fica, 'caracas! Tá todo todo mundo aqui, e normalmente só vejo esses caras por vídeo!'. O melhor é que tá todo mundo, te respeitando e tudo. Daí, joguei alguns free play (jogos treino) com eles, ganhei algumas, perdi outras e vi que, nossa, dá pra ganhar! Ganhei de alguns e as que perdi não levei 'um couro', sabe? Foi aí que peguei mais confiança, 'dá pra dar um trabalho pra esses caras aí!', entendeu?
- Red Bull: E a sensação de vencer e tirar o atual campeão mundial do torneio?
Todo mundo sabe como foi e o que fiz (risos). Gritei demais, não acreditei. Ali, pra mim? Eu tinha ganho o campeonato.
- Red Bull: Até os streamers da Twitch internacional começaram a torcer por você naquele momento. Como lidar com a pressão de ser 'o brasileiro que chegou mais longe'?
A gente só não tem mais oportunidades. O Brasil tá crescendo muito na cena, por mais que ainda nos vejam como uma 'cena fraca', nisso daí. Eu fico feliz de estar ajudando, porque cresce o olho, 'nossa, o Brasil tem jogadores!'. O campeão foi da América Latina. Eu ainda não tenho patrocinadores para ajudar nas viagens. A do mundial foi tudo pago, ok, mas todas as outras tenho que me virar. E mesmo assim, no mundial, você tem que ter uma grana pra ir, pois só no hotel, você já deixa uma grana de segurança, tipo uns US$300, que depois reembolsam.
Você tem que ter uma grana, minha sorte foi que o pessoal – fãs, que doam verba por sites de financiamento coletivo – me ajudou com doações. Se até atletas olímpicos sofrem com patrocínio, imagina a gente, que é de um Esport que tá crescendo agora. E o pior que não queremos salário, apenas auxílio para os gastos para ir pras competições. Um exemplo, no Paraná mesmo tem o evento TRETA, que foi numa faculdade. Eles até cedem um espaço pra gente, mas é muita gente! Os caras tentam nos ajudar, e até tem uns sofás lá, mas não cabe todo mundo. Daí, o jeito é dormir no chão e tem que jogar no ano seguinte, morto de cansaço.
- Red Bull: Quais os planos para o próximo ano?
Mesmo com tudo isso, já comprei passagem pra março, vou pra Atlanta, torneio oficial de Street Fighter V, um dos primeiros eventos Premiere, que valem pontos dobrados para o ranking. Se eu ganho esse, já é certeza a vaga pro Last Chance, ele vale uns 400 pontos! Só falto fazer a inscrição, mas meu time, a AAG, vai tentar fazer pra mim. Sempre tem esses custos, passagens, inscrição, hospedagem, e toda ajuda é sempre bem-vinda.
- Red Bull: Como lidar com o fato que não temos torneios Premiere na América Latina?
Não foi à toa que o campeão (Mena) postou no Twitter dele, 'por favor, Capcom, olhe pela América Latina!'. Eu concordo demais com ele, até troquei mensagens com ele hoje, pois estamos todos vendo questões de patrocínio. Ele também quer me ajudar, compartilhar algo comigo e eu mando algo meu, pro pessoal ver. Ele é muito gente boa. Fiquei no quarto dele no mundial e a gente ficou jogando. Ele me ensinou algumas coisas do jogo e passei algumas minhas pra ele também.
- Red Bull: O Street Fighter V: Arcade Edition acabou de sair. As novidades e novos personagens podem mudar muito o jogo, como o V-Trigger?
Olha, como dá para escolher o V-Trigger, não vejo muito problema. Geralmente falando, muitos jogadores não devem mudar seu V-Trigger, porque tem personagens que dependem muito do V-Trigger, como o Balrog. Ele vira a partida muito fácil por causa dele, como a Mika, que faz uns resets e muda a partida muito facilmente. O Urien também, muitas partidas de pro players viram por causa do espelho.
Já outros personagens podem. O Blanka pode pesar muito. Abigail chegou, tá muito forte e é muito pesado de vencer (risos). É muito apelão! Então acho que vêm outros que também podem mudar o jogo.
- Red Bull: Mas e você, Dhalsim continua?
Aqui é Dhalsim sim! Sempre (risos)! Mas já estou treinando com outro também (não quis revelar qual), para cobrir as matches ruins dele, pois dá para trocar de personagem quando você perde uma partida. Já fiz isso uma vez, com o Birdie, por exemplo.
- Red Bull: Vimos que você criou um canal no Twitch. Podemos esperar streamings regulares?
Faço por prazer mesmo. Adoraria ter algo mais elaborado, pra galera ver com frequência, poder colaborar e fazer doações, mas até lá é por diversão e pedido da galera mesmo. Já teve até uma galera da América Latina, 'não para de fazer! E se me der umas aulas, até te pago!' (risos). Gostaria, sim. Mas o momento não permite que eu viva disso. Tenho que trabalhar fora dos games, nos meus empregos, não tenho um horário fixo para fazer streaming todos os dias. Faço sempre que tenho uma brecha.
- Red Bull: Você já tem alguns fãs mais jovens que, como muitos, querem ser pro players. Qual a dica para quem quer seguir carreira?
O jogo não é difícil. São combos padronizados, não tem aquela dificuldade do Street Fighter IV. Treine SFV e treine a questão mental. Mantenha a calma, pois há momentos de pressão. O resto, é como se fosse um jankenpô (pedra-papel-tesoura), 'bati agora, bati agora, agora é um agarrão'. Se você sabe ao menos os combos e, enfim, sabe jogar o jogo, se treinar o mental você já terá um nível muito bom.
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