Música
Faixa a faixa: Medulla - "Deus e o Átomo
Conheça os detalhes do segundo álbum da banda
Dez anos. Foi bem o longo intervalo entre “O Fim da Trégua” (2006) e “Deus e o Átomo” (2016), os dois álbuns do Medulla. Mas isso não significa que a banda formada pelos irmãos Keops e Raony tenha ficado estacionada esse tempo todo.
Eles lançaram 4 EPs no intervalo entre os discos e mais recentemente ganharam novos integrantes: Alex Vinicius, na guitarra e no synth, e Tuti AC, no baixo. O novo álbum, relata Keops, foi feito com muito suor ao longo de quase um ano de muito trabalho em São Paulo, a nova moradas dos irmãos pernambucanos que cresceram no Rio de Janeiro.
Com produção de Pedro Ramos, integrante do Supercombo, “Deus e o Atómo”, como o nome entrega, é um disco dividido em duas partes. A primeira vai do interlúdio inicial “70x7” até “A Paz” e a segunda é entre o interlúdio “Z” e a faixa “Prosseguir”. “Queríamos que o disco tivesse um lado A e um lado B, sendo que no lado B ficariam as músicas mais estranhas. Talvez role a divisão exata dos lados quando o álbum sair em vinil e k-7”, conta Keops, que também é o responsável por destrinchar o segredos de “Deus e o Átomo” no nosso faixa a faixa.
Ouça o disco enquanto vai lendo os detalhes de cada som:
70x7 (part. Síntese)
"Esse título é uma alusão ao conceito de infinito, é um termo aparece algumas vezes na Bíblia, né? Essa faixa é um interlúdio para "Deus". Quando a gente decidiu que o título do álbum era "Deus e o Átomo", a ideia era que tivesse uma faixa chamada de "Deus" e outra chamada "Átomo". Tínhamos ouvido o último disco do The Roots e ali tinha uma porrada de interlúdios e aquilo impactou a gente, por isso pensamos em fazer os dois interlúdios antes dessas duas faixas, especificamente. Chamamos o Síntese para esse primeiro porque ele tem uma mensagem muito forte, espiritualizada e ali é uma poesia dele que foi feita no dia da gravação."
Deus
"A gente queria que o disco tivesse muitas linguagens. Temos essa vibe desde o começo da banda de muita mistura, mas nesse disco a gente conseguiu isso com mais eficiência. "Deus" é uma música que é orgânica pra caramba, queríamos que tivesse muito batuque, muita percussão, inclusive tem um toque meio de candomblé ali no meio. A faixa é mais uma referência a espiritualidade do que a um Deus religioso. É uma música que fala basicamente das pessoas e de fé, sabe? Fala muito do brasileiro no refrão, é um resumo: "É difícil de entender/No meio da dificuldade/Essa força de vontade/Eu vi Deus em você". É muito essa parada do cidadão e da fé."
Faça Você Mesmo (part. Marcelo D2)
"Somos brothers do D2 há um tempão. Ele conhece a gente desde moleque, a gente meio que cresceu no meio dos caras no final dos anos 90, mas de uns dois anos pra cá a gente se aproximou muito, temos ido nos shows do Planet Hemp e foi em um desses shows que a gente fez o convite e o Marcelo super topou, ele curte a banda, fez posts sobre a gente. A ideia da música era a gente fazer um trap rock porque a gente tava ouvindo muito essas paradas. A gente queria fazer esse crossover. A ideia do "faça você mesmo" resume muito o que a gente tem vivido."
Travesseiro Azul
"Ela tem uma parada de beat também, mas queríamos um esquema meio folk. Um beat eletrônico, mas que tem o timbre orgânico. Queríamos que as pessoas confundissem o que ali é bateria, o que é beat eletrônico, o que é guitarra, o que é synth. Sair do padrão. Tem violão na música, então, ela mistura essas paradas. "Travesseiro Azul" tem uma onda da verdade, um momento pessoal que eu tava vivendo."
Abraço (part. Martin)
"A gente nem queria que ela tivesse muita guitarra, que fosse só um detalhe durante a música, e no final a guitarra trouxesse a catarse. É uma música lenta, basicamente teclado, piano, baixo acústico com um tom de jazz. Foi a primeira música que a gente fez do zero pro disco, a maior parte do repertório já tinha pronto em voz e violão. O refrão dela existe porque a gente foi fazer um show em BH e tinha um fã que pegou a mão do meu irmão e começou a espremer e apertar até uma hora que confundiu se o moleque tava na intenção de machucar ou excesso de energia e foi o ponto de partida da música. O Martin conhecemos há um tempão por causa da Pitty e sempre que a gente vinha pra São Paulo trombava com ele. Quando mudamos pra cá acabamos virando vizinhos. A promessa dele fazer uma participação com a gente era antiga."
A Paz
"É uma música que fala sobre a polícia pacificadora do Rio de Janeiro. Escrevemos ela quando rolou a invasão do Alemão e já era uma letra muito forte pra gente. Quando construímos aquele 7/8 que tem ali percebemos que precisava entrar uma rima, algo falado, aí fui pro YouTube e comecei a pescar depoimentos das pessoas que sofriam com a polícia pacificadora e não tem pouco, não, é uma galera. Pra gente é um dos momentos mais fortes do disco."
Z (part. Edgar)
"O Edgar é um brother de Guarulhos, um artista incrível que desenvolve vários personagens pra mandar a mensagem dele, é um cara quase teatral. A descrição que ele faz do átomo é na onda dele, da poesia, ficou muito foda, os dois interlúdios tiveram o impacto que a gente queria. O Alex, nosso guitarrista, ligou pra ele e ele avisou que queria gravar já no dia do convite porque sentiu que era a hora."
Átomo
"A maior parte das músicas da gente são arranjadas depois de estarem meio prontas. Fazemos primeiro voz e violão e depois criamos o arranjo em cima. Tínhamos a necessidade muito grande de compor de outra forma, sabe? Escolhemos nessa música e na seguinte, "Estamos Ao Vivo", fazer primeiro todo o instrumental e depois escrever a letra e melodia em cima. Aqui a gente consegue resumir melhor o conceito de “Deus e o Átomo”, quando fala da física quântica e tal. Foi a primeira música que a gente fez nessa nova formação e a letra veio pra resumir a história."
Estamos Ao Vivo
"É a música mais esquizofrênica do disco, tem referência do Mars Volta, aquela coisa de ter uma música grande que vira jazz, tem esquema de sopro, muda o bpm e depois volta. A letra fala muito do cotidiano, fala da tragédia de Mariana e cita o caso dos policiais que alvejaram cinco garotos negros dentro de um carro, tudo ao mesmo tempo."
Separação (part. Helena D'Troia)
"Essa fala basicamente de uma separação amorosa, mas não queríamos que ela fosse piegas, sabe? Sentíamos que precisamos do ponta de vista da mulher na música e fomos atrás de uma rapper. Conhecemos a Helena através do meu irmão e tenho quase certeza que é a primeira gravação dela que vai pra rua. Conheci ela na hora da gravação e fui impactado ali mesmo. Foi foda, é muito bom conhecer uma pessoa fazendo música."
O Segredo
"Ela tem a vibe do eletrônico mais forte, tem referência de um cara que conhecemos na pesquisa do disco que chama Raury, um moleque muito novo. É uma letra do Dudu Vale, ex-integrante da banda, e ele tem essa viagem, por ser um cara mais velho, de ter uma história de vida louca. Quando ele trouxe a letra pra gente fomos sugados porque resume muito o cotidiano da gente. Quando a música vem com verdade ela fala com todo mundo."
Fim da Estrada
"No começo da música tem uma viola de 12 cordas sem as cordas graves, ficou um som meio caipira. Também é uma música bem pessoal, o Dudu fez ela andando em um lugar do Rio que é tipo um canal, uma estradinha mesmo, onde passa pouco carro e era quase cinco da manhã com o dia amanhecendo. Nesse trajeto pra casa ele foi cantarolando e compondo a música, ela bem visual por causa disso."
Prosseguir (part. Teco Martins)
"Ela não era um HC no começo, era uma canção voz e violão que a gente percebeu que se acelerasse ia virar um hardcore bonito pra caralho. Quando ela virou uma HC pensamos no Teco, amigo das antigas de São Paulo que ajudou a banda no começo, um padrinho nosso. Foi inevitável chamar ele, a gente tava saudosista de ouvir ele gritando no Rancore e rolou essa resposta da galera também. É uma música muito verdadeira e tem essa onda de deixar um interlúdio para o próximo disco."