O Manthiqueira ainda está longe do tão sonhado salto para elite do futebol paulista, mas já fez bastante para servir de modelo para outros clubes. Sediado em Guaratinguetá, o clube não abre mão do fair play em campo, proibindo a famosa "malandragem" para levar qualquer tipo de vantagem, e da diversidade. E é aí que Nilmara Alves, 36 anos, entra em cena.
Formada em Educação Física e zagueira nos tempos de jogadora, Nilmara dava aulas de futebol em escolas na região de Aparecida (SP) quando recebeu o convite para trabalhar no Manthiqueira. De início, cuidaria da preparação física dos atletas do sub-20. Mas em pouco tempo subiu de cotação.
Em 2012, ela assumiu o comando técnico do time principal. Dessa forma, tornou-se a primeira mulher a comandar uma equipe profissional masculina em São Paulo. Só não é pioneira no Brasil porque Cláudia Malheiro treinou o Andirá (AC) em 2007.
"Quando o presidente (Geraldo Margelo Oliveira, o 'Dado') me fez o convite, achei que não daria certo. Aceitei pelo desafio, pra mostrar que mulher também pode trabalhar com isso. Já estava preparada psicologicamente para as críticas. Os primeiros jogos à frente da equipe foram bons, e isso de certa forma ajudou na continuidade do meu trabalho. Com o tempo os nossos jogos começaram a ter mais gente porque os torcedores do Manthiqueira e dos clubes rivais ficaram curiosos para ver como se saia um time masculino treinado por uma mulher", disse Nilmara em bate-papo com o Redbull.com.
A boa arrancada na nova profissão não evitou, no entanto, que Nilmara fosse alvo recorrente de comentários machistas. Nas derrotas era comum ouvir insultos vindos das arquibancadas, mas o mais lembrado por ela veio de um colega de profissão. "Antes de um jogo contra o Atlético de Mogi, o técnico deles disse que não aceitaria perder para uma mulher. Fomos para o intervalo com 3 x 0 contra, mas ajustei o que precisava no vestiário, voltamos e viramos para 4 x 3. Cada um usa as ferramentas que tem. Ele tentou mexer com o brio dos seus jogadores. Hoje em dia vejo que jogadores, técnicos e torcida me respeitam mais."
Aceitei (o convite) pelo desafio, pra mostrar que mulher também pode trabalhar com isso
Tudo ia bem até que em junho de 2017 Nilmara teve de deixar o comando do Manthiqueira por incompatibilidade de agenda com o cargo público que exercia na prefeitura de Aparecida. Acaso do destino, foi sem a treinadora que a "Laranja Mecânica" arrebatou seu único título, o da quarta divisão, garantindo o inédito acesso à série A-3 estadual deste ano.
Mas Nilmara e Manthiqueira não ficariam tanto tempo longe um do outro. Em janeiro último, a técnica voltou ao posto, sucedendo Luís Felipe. "O Manthiqueira é um time diferente. Essa filosofia de jogar respeitando as regras é uma das muitas coisas que me fazem querer seguir aqui. Prezo pelo fair play. O futebol é bonito quando é bem jogado, dentro das quatro linhas, sem malandragem. Temos um lema no clube que diz: 'O que não quero para mim eu não faço para o outro'. Não quero ganhar com gol irregular."
Depois de tanto tempo convivendo num universo totalmente masculino, Nilmara sabe perfeitamente os atalhos para abordar os garotos da melhor maneira. "Com a mulher tem que ser mais 'mãezona', carinhosa. O homem é mais adrenalina, se abate menos na questão psicológica. Tinha muito receio de como me tratariam, mas me surpreendi com a receptividade. Eles pedem conselho, brincam, mas sempre com respeito. Quando preciso falar mais duro, dar uma bronca, eles entendem."
Só que pelo visto Nilmara tem tido trabalho nas conversas de vestiário. Com apenas uma vitória em seis jogos, o Manthiqueira amarga a 19ª e penúltima colocação da A-3. "Estamos disputando um campeonato forte, jogando contra muitos atletas experientes, que já jogaram a A-1. Estamos aprendendo a competir na A-3."
Seleção? Por enquanto um sonho distante
Recentemente a seleção brasileira feminina quebrou o paradigma de nunca ter sido treinada por uma mulher. Emily Lima durou pouco no cargo, apenas nove meses, mas abriu um belo precedente.
Nilmara sonha em um dia vestir a camisa verde e amarela, mas considera que é muito cedo para alcançar esse patamar. "Desejo trabalhar na seleção, claro, mas não penso muito nisso. É um sonho que tenho guardado. Primeiro preciso fazer meu nome, construir minha reputação."
Enquanto o ponto mais alto da montanha não chega, Nilmara espera poder comemorar um título de expressão do time nacional. Para ela, a seleção conquistará uma Copa do Mundo ou um ouro olímpico nos próximos dez anos. "Temos grandes jogadoras, mas nos falta incentivo e um trabalho de base forte e contínuo. Quando tivermos uma estrutura um pouco melhor, conseguiremos bater de frente com outras grandes seleções. Podemos ganhar uma Copa ou uma Olimpíada em dez anos. Não está longe disso acontecer."