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Fraçois D'Haene: recorde mundial na trilha GR20
Fraçois D'Haene: recorde mundial na trilha GR20
Nas ruas sonolentas de Calenzana às 03:55 da manhã do dia 3 de junho de 2016, um grupo de pessoas se aproxima, muitas delas com lanternas de cabeça, vestidos com roupas de corrida. Outros levam apenas câmeras na mão ou estão lá apenas para dar apoio, todos focados em um único personagem: François D'Haene, o ultramatonista.
De relance, você não poderia afirmar que ele estaria a caminho de um dos maiores desafios de toda a sua carreira, a quebra do recorde mundial de uma das trilhas mais míticas e desafiantes da Europa, a GR20 na Córsega (França).
Calmo, no seu canto, fazendo piada com os outros corredores - aqueles que irão acompanhá-lo nas diversas partes desta jornada - e com a equipe de apoio, observá-lo assim já é algo impressionante.
E também tem os "oficiais". Este recorde, se quebrado, irá para os livros e precisa ser bem-documentado para ser considerado válido.
Poucos minutos antes das 04:00, François caminha em direção ao comecinho da trilha, seguido pela equipe de apoio e outros corredores que querem fazer parte desta empreitada. É melhor se apressarem, pois, assim que o "vai" é autorizado, as longas pernas do atleta começam a percorrer trilha à frente.
Para este francês, o que começou como uma grande trilha entre amigos 15 anos atrás, torna-se hoje um desafio pessoal e uma verdadeira aventura.
A GR20: 180km de trilhas árduas e implacáveis
A GR20 é super conhecida entre os trilheiros franceses, espanhóis e italianos. O nome é um acrônimo de Grande Randonnée, ou "grande caminhada" em francês. A GR20 possui 180km de extensão e cobre a ilha montanhosa da Córsega de norte a sul.
Com o passar dos anos, houve muitas tentativas de se estabelecer e quebrar recordes nesta trilha. Em 2009, Killian Jornet realizou o primeiro recorde com 32h e 54m. Após algumas outras tentativas infrutíferas de diversos corredores, a maioria por conta de péssimas condições climáticas, foi a vez do corso Guillaume Peretti realizar o feito em exatas 32 horas em 2014. A marca de 32h foi, desde então, o tempo que François teria que bater.
Com 13.000 metros de elevação acumulada, a trilha percorre 17 segmentos estafantes, levando para a maioria dos trilheiros cerca de duas semanas para completá-la de cabo a rabo. Cada seção possui sua dificuldade mas, no geral, a parte norte é considerada a mais técnica.
Após as duas primeiras horas de corrida, François D'Haene já se encontrava com grandes rochas, regiões nevadas, subidas e descidas íngremes que ficaram ainda mais difíceis por conta da chuva persistente, onde cada passo tornou-se um possível escorregão.
A segunda metade da trilha também possui as suas dificuldades. A navegação é o principal desafio, especialmente à noite. Muitas rotas alternativas e trilhas paralelas cruzam a GR20, tornando a orientação desafiadora.
Se o François perdesse alguma marca e pegasse um caminho errado, poderia ser o fim da quebra de recorde. Isso se torna ainda mais relevante à noite, na densa floresta: na escuridão completa, com exceção do pequeno foco de luz da lanterna de cabeça, tudo parece igual. Todos os sentimentos são reprimidos e é aqui que os corredores de apoio fazem um papel fundamental, enquanto ajudam a encontrar as marcações corretas e manter o atleta no caminho certo. Na total escuridão, a GR20 é um verdadeiro labirinto.
Este passo lógico na carreira de D'Haene exigiu muita preparação, tanto na parte logística quanto na parte física e emocional. Ao contrário de uma corrida organizada, ele e sua equipe tiveram que encontrar as pessoas adequadas para acompanhá-lo ao longo da trilha, mapear o caminho e possíveis pontos de empecilho, assim como organizar a logística da equipe. Isso aqui não é uma ultramaratona organizada: é uma verdadeira aventura.
Resistência mental é provavelmente uma das melhores qualidades de François D'Haene. Apesar de ter atrasado o início da corrida durante três dias e quase tê-la cancelado, por conta das condições climáticas ruins, ele permaneceu calmo, tranquilo, zen. Ele planejou cada detalhe com a equipe e passou um tempo junto a sua mulher e os dois filhos pequenos.
Uma vez que a corrida se inicia, o maior desafio mental e a principal diferença em relação às competições regulares são o fato de D'Haene ter que encarar a si próprio, confiando apenas em sua motivação interna. A única maneira de completar uma trilha tão longa e difícil como esta é dividi-la em partes: ao passar a linha de saída, ele não estava cruzando uma gigantesca trilha de 180km, mas sim 17 pequenas seções - uma a uma, completadas pelo corredor. Segmentar o percurso é o único jeito de conseguir.
Depois vem o desafio físico. Embora D'Haene seja um ultramaratonista consolidado, preparado para ter velocidade e resistência, ele teve que treinar nas montanhas, em áreas íngremes. Com relação à falta de sono, não há muito o que se fazer: é preciso confiar no próprio vigor e adrenalina para seguir correndo.
Vencendo o desafio
Para um ultramaratonista como ele, uma das coisas mais frustrantes é provavelmente o controle de velocidade. Ele não pode ir o quão rápido gostaria, correndo, provavelmente, a apenas 60% de sua velocidade potencial total.
Isso também faz parte do trabalho dos corredores de apoio, onde a afinidade entre eles tem um papel superimportante, uma vez que eles precisam saber quando aumentar ou diminuir a velocidade geral. Este é o momento no qual correr com as mesmas pessoas durante anos faz a diferença, contribuindo para o sucesso de toda a operação.
Às 11:06 do domingo, dia 04 de junho de 2016, o sorridente François D'Haene chega ao fim da linha da trilha GR20, em Conca, sob o brilho do sol e uma multidão de amigos, familiares e imprensa.
Ele conseguiu, o recorde é dele após 31 horas e 6 minutos de absoluta perseverança. Esta á uma performance atlética que não será esquecida.
Caso queira conferir os detalhes mais de perto - como o mapa GPS por onde passou, as paradas e horários - confira o website do esportista.
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