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Fugitivos do Samba: expedição cinco ilhas

Relembrar é viver: na busca por sossego e aventura, ciclistas curtem o carnaval no litoral do país
Escrito por Alexandre Cappi & Andre Piva
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Pôr do sol abençoado em Ilha do Mel (PR)
Pôr do sol abençoado em Ilha do Mel (PR)
Enfim carnaval! Enquanto a maioria dos meus compatriotas já comemora o feriado a partir da meia-noite de sexta-feira, na contramão social, música, bebida e folia passavam bem longe dos meus planos. Àquela altura, o terminal rodoviário de São Paulo mais parecia um formigueiro de tanta gente. Minha primeira missão é desviar de todas aquelas pessoas para pegar um ônibus com destino a Curitiba, apenas com uma certeza: seria o carnaval mais insólito de toda minha vida.
A idéia de viajar pedalando...Cinco ilhas em cinco dias... de autênticas travessuras.
A idéia de viajar pedalando como um cicloturista agora soava como uma verdadeira maluquice expedicionária. Cinco ilhas em cinco dias, totalizando 191 quilômetros de autênticas travessuras.
Vagão para levar as bikes no Paraná
Vagão para levar as bikes no Paraná
Injusta é a fama de que o Paraná não tem litoral. Embora o Estado registre a segunda menor extensão de praias do País, possui um dos cinco ecossistemas mais notáveis do globo terrestre.
O roteiro ainda inclui duas ilhas no Estado de São Paulo: Cardoso e Comprida. Comigo (Alexandre Cappi), mais três amigos fugitivos do samba - Andre Piva "ATP", Matheus Vieira "Pig" e Leonardo Battista "Begginer"- que seriam meus únicos companheiros nessa avenida de praias desertas.
Pico do Marumbi (PR)
Pico do Marumbi (PR)
Na manhã de sábado, mal saltamos do ônibus na rodoviária de Curitiba e já embarcávamos no trem da ferroviária, a poucos metros do terminal. Agora nossas bicicletas viajavam mais confortáveis que seus donos, com direito a vagão exclusivo para elas.
Agora nossas bicicletas viajavam mais confortáveis que seus donos.
Serra do mar: natureza quase intacta
Serra do mar: natureza quase intacta
A caminho do mar, a descida é coberta pela rica Mata Atlântica, que guarda uma das únicas partes intocadas da floresta original que ainda sobrevive no sul e sudeste do País. E o charme está justamente em descer a Serra do Mar curtindo a altura dos penhascos e das pontes férreas através da janela da locomotiva. Um grupo de alemães que viajava conosco que o diga. A cada curva pelos trilhos centenários, os gringos soltavam um profundo "ooohhh...", e foram muitos "oh" até meu reencontro com a estação Marumbi.
Descida da serra paranaense
Descida da serra paranaense
Nem todos consideram um passeio como esse tão normal. Quando saltamos do trem com as bikes, os turistas alemães logo sacaram suas máquinas fotográficas para registrar o momento. E de fato os 15 segundos de fama disparados com os flashes deram uma inspiração extra à equipe. A verdade é que em um lugar como esse, onde não falta beleza, sobra contemplação.
Bikes embarcadas com segurança rumo à Ilha do Mel
Bikes embarcadas com segurança rumo à Ilha do Mel
O imponente Pico do Marumbi é berço do montanhismo nacional. O nome deste Parque Estadual provém da palavra “Guarumby”, que em Tupi-guarani significa “Montanha azul”. O Parque é uma das inúmeras Unidades de Conservação da Serra do Mar e consiste numa imensa cadeia de montanhas que corre pela costa brasileira.
Os povos primitivos do litoral paranaense acreditavam que o Marumbi era um vulcão adormecido, devido à constante fumaça que pairava sob seu cume.
A descida a partir do trilho do trem da Estação Marumbi é adrenalina correndo solta por mais de 6 km de puro downhill mata adentro. Trechos que exigiam bastante técnica, com pedras escorregadias e algumas escadarias traiçoeiras. A velocidade acima dos 50 km/h era tanta que enchia os olhos de lágrimas e, em poucos minutos, chegávamos ao município de Morretes.
Mar sem fim
Mar sem fim
Na praça da cidade, enquanto abastecíamos nossos cantis com o combustível mais precioso, um senhor passante desejou toda sorte do mundo em nossa jornada. De fato iríamos precisar muito dela. Em pleno meio-dia, a temperatura marcava 39 graus à margem do asfalto da rodovia BR-277. Pedalávamos pelo acostamento com o sorriso de orelha a orelha quando, de repente: arghhh! Algo explodiu em minhas costas causando uma intensa dor. Um caminhoneiro me acertou em cheio com uma goiaba podre. Quanta gentileza!
Um caminhoneiro me acertou em cheio com uma goiaba podre. Quanta gentileza!
Trilhas da costa brasileira
Trilhas da costa brasileira

Paraíso à vista

Após 48 km de asfalto pedalávamos entre igrejas, museus e monumentos históricos. No ar, o tom de despedida da civilização. Agora as bikes viajavam no teto do barco, reluzentes ao sol e respirando a maresia da cidade de Paranaguá. A concepção de paraíso para muitas pessoas é uma ilha deserta repleta de coqueiros. Mas, se pudéssemos nomear um éden no Paraná, ele já teria nome: Ilha do Mel. Graças aos esforços de muitos, na ilha não entra carro, moto ou qualquer veículo motorizado. Sem dúvida, nossas "namoradas" seriam o melhor meio de transporte para percorrer suas praias.
Contemplação para recuperar as energias
Contemplação para recuperar as energias
Já com as rodas na areia de Encantadas, desembarcávamos no verdadeiro pólo de ecoturismo e esportes de aventura: surf, mergulho, trekking, vela, e até alguns locais para escalar.
Já com as rodas na areia de Encantadas, desembarcávamos no verdadeiro pólo de ecoturismo e esportes de aventura: surf, mergulho, trekking, vela, e até alguns locais para escalar. Montamos acampamento em meio às picadas de mosquitos numa tentativa frustrada de descansar nossas carcaças. O calor era insuportável dentro da minúscula barraca, ainda mais com um companheiro desmaiado apelidado de Pig. A única solução era aderir ao ignorado carnaval e cair na balada.
Pedal desbravador pela Ilha de Superagui (PR)
Pedal desbravador pela Ilha de Superagui (PR)
Como toda boa noitada na praia, regada a mulheres bonitas, reggae e cerveja gelada, as horas passaram rápido demais. Às dez da manhã o sol forte inviabilizava qualquer tipo de sonolência. Hora de recolher as tralhas e pedalar à beira-mar, mesmo sob efeitos da ressaca. Só para variar, escolhemos o "melhor" horário para darmos continuidade a expedição: meio-dia.
Escolhemos o "melhor" horário para darmos continuidade a expedição: meio-dia.
Pesca artesanal predomina na região
Pesca artesanal predomina na região
Comunicação primitiva para chamar os barqueiros
Comunicação primitiva para chamar os barqueiros
Desafio do dia: atravessar cerca de 100 metros de rocha costeira carregando nos ombros as bicicletas e seus pesados bagageiros.
Os instrumentos marcavam 42 graus de temperatura, o suor escorria do rosto como uma torneira, até nos depararmos com o primeiro desafio do dia: atravessar cerca de 100 metros de rocha costeira carregando nos ombros as bicicletas e seus pesados bagageiros. No meio da travessia pelo labirinto rochoso, Piva começou a escorregar pelos rochedos, pois usava sapatilhas ao invés de tênis. Uma mulher que estava por perto soltou um grito desesperado, mas já era tarde. Piva rolou rocha abaixo e reapareceu exibindo as primeiras cicatrizes de nossa viagem. "Souvenires", dizia ele.
Visual da Ilha das Peças ao fundo
Visual da Ilha das Peças ao fundo
Depois do susto, nosso pedal seguiu rumo a Ponta do Hospital, no extremo norte da ilha. O objetivo era pedalar o máximo pela areia, já que a maré alta logo nos impediria de fazê-lo. Realmente, não demorou a acontecer e o espaço da praia logo diminuiu, nos espremendo contra a restinga do manguezal. Aumentamos a velocidade e alcançamos a Fortaleza de N. Sra. dos Prazeres, construída em 1767 para proteger Paranaguá.
Logo acima do Forte subimos uma trilha íngreme até o mirante de onde avistamos a próximo desafio da expedição. Mas para descer todo santo ajuda e é só alegria. Em questão de minutos o caminho nos devolveu à praia.
Meios de transportes integrados
Meios de transportes integrados
Pouco depois seguimos para um cais abandonado nas proximidades do Forte. Após uma sessão fotográfica de alguns saltos à beira mar, foi a minha vez de experimentar a dor de uma queda. Numa tentativa de saltar, meu pé esquerdo escapou do pedal. Resultado: a coroa perfurou minha panturrilha causando cinco furos profundos e arrancando nacos da minha perna.
A dor de pensar que a expedição poderia terminar por causa de um acidente estúpido era bem maior que a própria ferida sangrando.
Bicicleta transporta para lugares inimagináveis
Bicicleta transporta para lugares inimagináveis
Ainda tive que pedalar todo o caminho de volta, até o posto de saúde da praia de Brasília. Enquanto uma enfermeira limpava a ferida com iodo, o médico de plantão aproximava-se para dar uma olhada na minha proeza: "Rapaz, como conseguiu se acidentar com tanta simetria? É impossível até de dar pontos. No mínimo 48 horas de repouso e, caso insista em pedalar, sua perna corre o risco de gangrenar", disse o doutor vestindo chinelos e bermuda florida.
Sem hesitar pela dor, já no dia seguinte, tínhamos de nos apressar para pegar o barco rumo à Ilha das Peças.
Natureza selvagem
Natureza selvagem

Natureza furiosa

O barco que levava uma dúzia de casais para avistagem de golfinhos também nos conduzia ao próximo destino. Debaixo de muita chuva desembarcamos no vilarejo de pescadores da ilha. E não é que os mamíferos moram lá mesmo, bem em frente ao cais. Cerca de 350 pessoas vivem na comunidade de Ilha das Peças. Uma das versões que explicam seu nome deve-se à sua localização estratégica. Antigamente, ali teriam sido colocadas algumas peças de artilharia contra navios piratas que atravessavam o canal da barra.
Bivaque: acampamento selvagem na natureza
Bivaque: acampamento selvagem na natureza
Dali pra frente minha panturrilha demandaria uma série de cuidados específicos. Protegi o curativo com um saco plástico e enfaixei metade da perna com fita adesiva. Agora pedalávamos por um Patrimônio Natural da Humanidade, formado pela Ilha das Peças e pela Ilha de Superagüi, ambas com mais de 21 mil hectares de área preservada. Grande parte dos moradores dessas ilhas sobrevive da pesca e convive em harmonia com os botos-cinza. Seguimos por 12 km pedalando com vento a favor entre centenas de gaivotas que sobrevoavam nossas cabeças.
Fim de praia e chegamos a um canal de 150 metros, do lado oposto da ilha. A única forma de atravessar para vila de Superagüi era torcer por um pescador nos avistar na outra margem. A chuva não dava trégua e a tudo o que podíamos fazer era sinalizar com as mãos. Deu certo e em poucos minutos um caiçara atravessou o canal para nos resgatar. Perguntei como estava a condição da maré e ele respondeu que estava baixando. "Perfeito para continuarmos!", pensei.
Momento de reflexão
Momento de reflexão
A diferença entre os terrenos das duas ilhas era brutal. Ao contrário da anterior, a areia da Ilha de Superagüi era fofa o bastante para perdermos o controle da bicicleta. Para complicar ainda mais, a bagagem encharcada aumentava nosso fardo e dificultava a progressão pela praia. Levamos horas para percorrer quatro míseros quilômetros até que chegamos a um rio de mangue escuro, com as ondas do mar revolto invadindo a restinga.
E então veio a dura constatação: o pescador havia errado sua previsão de maré baixa. Seria impossível atravessar o mangue naquelas condições. O forte vento sul e a areia fofa tornavam a tarefa árdua e exaustiva. A única solução era empurrar as pesadas magrelas de volta à comunidade.
Natureza, paz e gratidão
Natureza, paz e gratidão
A ilha foi declarada Parque Nacional em 1989 e faz parte do complexo estuário integrado por Cananéia, Iguape e Paranaguá, uma das regiões mais importantes do país, sob o ponto de vista de sustentação alimentar. O nome Superagüi também tem origem Tupi-guarani e significa "Rainha dos Peixes". O Parque não é aberto ao público, mas seu entorno pode ser visitado, caso represente uma atividade de baixo impacto ambiental.
Encarando os desafios a qualquer custo
Encarando os desafios a qualquer custo
O último dia de carnaval ainda era nublado e chuvoso. Leo e Piva acordaram alagados dentro de uma tenda que mais parecia a banheira do Gugu. Finalmente a maré baixou e saímos pedalando e comemoramos com gritos eufóricos. Pela frente, 34 km de uma praia totalmente deserta. Desta vez, a areia dura tinha espaço de sobra. E foi só alegria até atingirmos a Barra do Ararapira, divisa entre os Estados do Paraná e São Paulo.
Enquanto atravessávamos um série de pequenos rios, um pescador chamado Aires aproximou-se com seu barco de alumínio. Mais uma travessia e ele nos deixou em uma pequena cabana que servia comida. Abastecidos, pedalávamos em formação para vencer os 14 km do Parque Estadual da Ilha do Cardoso.
Trilhas de encher os olhos
Trilhas de encher os olhos
E assim chegamos ao vilarejo de Marujá, local onde reside um povoado simples e hospitaleiro. Apesar de não dispor de energia elétrica, a comunidade atrai uma porção cada vez maior de turistas à procura de sossego e balada. Quase 90% dos 140 km² da Ilha do Cardoso são cobertos por Mata Atlântica costeira, ainda virgem. Oito anos atrás conheci esta vila que era animada por um rústico e pequeno forró caiçara. Hoje, o forró triplicou de tamanho conforme a demanda de visitação na alta temporada.
A boemia noturna estendeu-se até o alvorecer na praia e acordei com a maior ressaca do mundo na quarta-feira de cinzas. Não havia dormido quase nada e ainda tínhamos de pedalar a maior extensão litorânea da expedição. Pegamos um barco para a cidade de Cananéia, com três horas de duração, e de lá fizemos a última travessia de ferry boat até a Ilha Comprida.
Pela frente, 59 km de uma praia infinita. O sol forte e o calor escaldante nos castigavam fazendo com que sentíssemos saudades da chuva. Na metade do caminho a ressaca da noite anterior obrigou-me a parar diversas vezes exigindo imediata hidratação. A bicicleta fazia tantos barulhos que dava a impressão que iria desmontar tal qual o seu dono. Os quilômetros finais foram amargurantes...
Ao olhar para o horizonte sem fim a palavra superação irradiava minha mente. Finalmente, alcançávamos nosso glorioso destino a tempo de pegar o ônibus para São Paulo. Ao retirar o curativo da perna percebi que havia ganhado uma tatuagem bastante expressiva: um furo para cada ilha.
Como diz o ditado: após a tempestade, a calmaria.
Como diz o ditado: após a tempestade, a calmaria.
Itinerário: São Paulo / Curitiba / Morretes / Ilha do Mel / Ilha das Peças / Ilha do Superagüi / Ilha do Cardoso / Cananéia/ Ilha Cumprida / São Paulo

NOTA DO EDITOR

Esta história veridica aconteceu no carnaval de 2007. Também tema da Revista Sexy, edição 330 (junho 2007).