NoiteMúsica

Hábitos Noturnos: ¡Venga-Venga!

Escrito por Isabela Talamini
Entendendo nomadismo cultural e festas de rua com Denny Azevedo e Ricardo Don
Denny Azevedo e Ricardo Don @ Red Bull Station
Denny Azevedo e Ricardo Don @ Red Bull Station
Se você frequenta festas de rua em São Paulo, com certeza já foi ou ouviu falar na ¡Venga-Venga!. O projeto, criado pelos artistas Denny Azevedo e Ricardo Don, teve início em 2012 e desde então vem ganhando cada vez mais espaço no circuito de cultura alternativa no Brasil. Ritmos folclóricos, ciganos, africanos e latinos são apenas algumas das influências citadas pelos dois ao descrever a ideia por trás da festa — que entrou no ano passado para a curadoria da Virada Cultural de São Paulo, além de fazer parte da programação do SP Na Rua desde a primeira edição.
Convidamos Denny e Don pra trocar uma ideia com a gente no Red Bull Station. A dupla, que não passa despercebida pelo figurino incrível, nos explicou um pouco mais sobre a proposta do projeto, como funciona eventos gratuitos na rua e o quais são seus próximos passos. Confira a entrevista abaixo e aproveite pra ver isso tudo de perto nesse sábado, dia 17, na edição Dança Dos Demônios.

Como começou o projeto? Quais foram as inspirações?

Denny: A ¡Venga-Venga! começou há três ou quatro anos, foi uma ideia minha e do Don que nasceu a partir da necessidade de publicar nossa pesquisa musical inspirada na Gypsy Road (rota dos povos ciganos) e mesclar isso com a psicodelia brasileira e outros ritmos do mundo.
Don: Quando aconteceu a Gypsy Road, havia uma troca de culturas muito grande. O povo nômade chegava em uma certa região e não apenas deixava registrado lá sua cultura, mas também carregava consigo influências do local. Então existem também muitos “filhos” disso, como o flamenco na Espanha, por exemplo. A gente começou estudando essas coisas do Oriente Médio, música africana, música brasileira, que também sofreram influências árabes e ciganas. No início do nosso projeto falavam que nossas influências eram música de terceiro mundo porque o que as pessoas geralmente têm interesse é em música americana e britânica. A gente não queria simplesmente fazer o que todo mundo já fazia mas quando começamos a apresentar essa pesquisa não havia ninguém abraçando essa nossa proposta musical.
Denny: Por um lado foi bom, porque se você não tem um espaço você também não fica limitado a uma certa ideia ou público. Por exemplo, quando você fala de música brasileira, há algo que as pessoas esperam mas quando você fala de uma música que aborda historicamente um momento que as pessoas não dominam, não. A música que a gente começou a tocar no início da ¡Venga-Venga!, era uma música de muito manifesto, por uma série de fatos históricos. A poesia que a gente cria em cima do nomadismo só é visualizada depois de todos esses anos de distância da real história, que foi muito cruel. É um povo que sofreu, que migrou muito mas, ao mesmo tempo, é um povo que sempre carregou muita alegria, intensidade musical e visual. Nós mesmo já fomos muito associados como ciganos por conta de trabalharmos muito esse ideal do nomadista cultural. A gente não fica conectado apenas à música, nós acabamos migrando pra várias outras áreas da arte.
Então podemos considerar a ¡Venga-Venga! muito mais uma performance cultural do que uma festa?
Denny: A gente nunca pensou na ¡Venga-Venga! como “ah, uma festa pras pessoas irem pra beber, namorar e a gente ganhar dinheiro”. Nós começamos pensando nela como uma manifestação artística onde a nós tentaríamos causar comoções estéticas nas pessoas, até que num momento conseguimos ir além e transformar ela numa plataforma cultural mesmo. Mas até chegar nisso a gente trabalhou muito na parte da música e da estética – incluindo pinturas, adornos, etc.
Don: Que fazem referências a várias etnias! A gente faz uma mescla, buscando artistas brasileiros que também valorizam isso. Estamos sempre tentando levantar a bandeira de que podemos unir várias etnias, valorizando todas elas, indo totalmente contra a segregação. Porque a gente acredita que a identidade do homem se forma através desse “patchwork”.
Denny: Quando vimos que não tinha muito campo pra levar essa pesquisa, acabamos recebendo uma data em uma casa de uma amiga. Ali fizemos as primeiras experiências da ¡Venga-Venga! como uma festa. Bem despretensiosamente mesmo, foi uma forma de a gente mostrar pras pessoas essa nossa pesquisa, que estava fora da caixinha do que estava rolando em São Paulo, em meados de 2012. Desde o início nos preocupamos em aderir a parte da decoração, do figurino, da ambiência, para que as pessoas se sintam em outro espaço, outra atmosfera. Não só pela música diferente, mas também pela luz, pelo cheiro.
Quando você faz uma festa no meio da cidade, você interage com tudo, sejam os prédios, os carros, a poluição, a sujeira. Não adianta você querer fazer uma festa ou uma performance na rua e querer “limpar” o que está ali.
A gente se viu basicamente com poderes estéticos de criar situações onde conseguíamos realmente transportar essas pessoas para outras dimensões. É uma imersão cultural! Como a gente tem esse anseio, achamos isso fundamental. O que a gente não consegue criar sozinho, acabamos fazendo em parcerias com outros artistas.
Don: Trabalhamos num consciente coletivo, com energias básicas, primitivas do ser humano. É muito comum na festa as pessoas terem uma certa comoção, um envolvimento com a atmosfera. Elas passam a fazer cirandas, pular e dançar juntos. A gente busca isso mesmo e tenta proporcionar cada vez mais interações. É uma festa performática. É uma base para artistas se mostrarem, e por artistas consideramos o público também.
Denny: É exatamente isso que queremos proporcionar pras pessoas: que o mundo pode estar caótico lá fora, mas que ali estamos numa bolha, num oásis.
E é interessante que vocês fazem isso na rua, no centro de São Paulo, que é caótico mas incrível ao mesmo tempo.
Denny: Quando você faz uma festa no meio da cidade, você interage com tudo o que está na cidade, sejam os prédios, os carros, a poluição, a sujeira. Não adianta você querer fazer uma festa ou uma performance na rua e querer “limpar” o que está ali. A coisa mais interessante quando você faz uma festa na rua é que quando você põe a primeira música o cara que vai abrir a pista de dança é o cara que já mora ali. Você tem que saber interagir com as informações que vem do local.
Don: Eu acho que é como a história das carrancas, que protegiam as pessoas dos maus espíritos. A carranca é um monstro mas que está sempre rindo, porque o melhor modo de repelir o mau e a violência sempre é a felicidade. Se você chega com música, alegria, pessoas se divertindo, quem não gostar daquilo vai fugir e quem gostar vai ficar. O centro de São Paulo é um dos poucos lugares aqui que ainda não perdeu a identidade. Ali tem espaços muito bonitos, que a gente não pode deixar esquecido. Se não podemos ir lá e reformar a praça, pelo menos pode deixar ela iluminada e cheia de gente por uma noite.
Denny: Uma coisa importante que sempre fazemos questão de pedir pro nosso público é que deixe o lugar limpo. Afinal, a gente faz a festa para pessoas conscientes, que pensam num bem coletivo. A gente não está ali pra promover o caos. Ele já existe e, o que a gente faz, não pode estar envolvido de maneira alguma com essa parte negativa.
Denny Azevedo e Ricardo Don @ Red Bull Station
Denny Azevedo e Ricardo Don @ Red Bull Station
E vocês sentem que houve uma evolução nas festas de rua em São Paulo no último ano?
Don: Com certeza! Essa cena de festas de rua em São Paulo não está rolando em outros lugares, ela é única. No começo elas eram mais alternativas, tinha aquele ar de ocupação e era um jeito muito espontâneo da cidade interagir com ela mesma. O primeiro SP Na Rua foi muito importante porque foi a primeira vez que os coletivos da cidade foram reunidos. Houve um reconhecimento por essa cultura alternativa. A grande questão da festa de rua é que a gente não conta com um orçamento. O apoio recente da prefeitura, de marcas, tem sido um fator importantíssimo. A ¡Venga-Venga!, por exemplo, sempre aconteceu na rua mas cerca de duas vezes por mês temos que fazer em lugares fechados para conseguir se manter, pagar os artistas, os equipamentos, etc. Os artistas precisam de um retorno, obviamente, e a questão da estrutura também custa.
Denny: Na verdade eu acho que a cidade ainda não está completamente preparada. Existem dezenas de coletivos fazendo festas em bairros que não são devidamente reconhecidos ou valorizados. O conceito de festa ainda tem uma conotação muito fútil, de onde as pessoas bebem, causam tumulto. Ter essa validação das subprefeituras, por exemplo, ou convites da secretaria de cultura, é fundamental. Inclusive para servir como exemplo para outros locais. Estamos vendo que há um movimento parecido também em cidades como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Recife, entre outras.
Realmente isso ainda é uma coisa que precisa evoluir. As pessoas aceitarem que uma festa deve ser tratada como expressão cultural, tanto quanto uma peça de teatro, por exemplo.
Denny: Sim! E isso é no mundo inteiro. Hoje, São Paulo ainda é uma cidade modelo. O movimento que a gente faz aqui está sendo observado por todo mundo. O que a gente quer é mostrar, tanto pras pessoas que estão no poder quanto pra vizinhança dos locais, que o que a gente faz não é levar baderna, não é colaborar com a violência, não é deixar sujo, não é fazer ruído. Ruído faz o edifício espelhado de trinta andares no meio do centro. A gente não faz ruído, a gente faz arte. É como a história dos hippies na rua, que estão ali produzindo e vendendo sua arte. Isso sempre foi comum na história da humanidade. Por que de repente utilizar a rua se tornou uma anomalia? E aí quando temos um prefeito como o atual as pessoas reclamam.

Teve alguma edição da ¡Venga-Venga! que vocês consideram especial?

Denny: Esse SP Na Rua foi memorável! Reunir aquela quantidade de pessoas em um cenário tão lindo como é a Praça Ramos, conseguir com tranquilidade cenografar, iluminar e ter uma verba disponível pra uma estrutura técnica de qualidade. Foi lindo de ver.

Como vocês lidam com a questão de gênero do público da festa?

Denny: É interessante notar que o público gay, que nos anos 70, por exemplo, era quem estava à frente de todos, promovia o que era diferente e inusitado, hoje muitas vezes está mais careta que outros públicos. Rola um movimento em que os homens e as mulheres gay querem se adequar à vida de uma família hétero. Eles acreditam naquela imagem que a publicidade sempre vendeu daquela família feliz tradicional. Cadê o brilho e as cores? Não acho que todo mundo tem que sair montadíssimo por aí, mas cade a brincadeira? A diversão? Quando fazemos a ¡Venga-Venga! não estamos convidando as pessoas a se expor ao ridículo, não é uma maneira de alfinetar a sociedade nem nada. Eu quero que a sociedade se dane, a gente
só quer que as pessoas se divirtam!
A gente se encaixa nesse circuito alternativo que não é hétero, mas também não é gay. Não queremos levantar uma bandeira de divisão. Hoje vivemos uma mania de segmentação. Na nossa opinião quanto mais segmentar, mais vai segregar.
Don: A gente passou a fase das tribos. Hoje em dia não tem mais muito essa questão das roupas, do figurino, relacionado à identidade. Você vai ali e compra na mesma loja uma roupa gótica ou hippie. Mas é difícil falar de festas e não tocar nesse assunto de gênero. Historicamente falando as melhores festas sempre foram as festas gays. A gente se encaixa nesse circuito alternativo que não é hétero mas também não é gay. Não queremos levantar uma bandeira de divisão. Hoje vivemos uma mania de segmentação. Na nossa opinião quanto mais segmentar, mais vai segregar.

E o quais são os próximos passos?

Denny: Esse ano ainda vai ter mais edições. Dia 17 agora é a próxima, no Espaço 355. Temos um planejamento até março do ano que vem. Estamos em nossa turnê, Cruzada, que abrimos na Alemanha.
Don: A ideia é começar a chamar artistas de fora, pra fazer esse intercâmbio, pra elas verem o que está acontecendo aqui e propagar em outros lugares. Além de festas temos outros trabalhos multimídia. Temos uma exposição rolando no Museu da Diversidade, um projeto que a gente seleciona homens com barba e fazemos neles um trabalho de maquiagem. Não é uma abordagem à questão sexual, é uma questão de pintura mais primitiva mesmo, sem julgamento social ou sexual.
Denny: A gente tem o projeto da festa e outros paralelos, que acontecem à medida que nossos desejos vão se despertando e a gente vê que é possível fazer.
Don: Por isso que chamamos a ¡Venga-Venga! de plataforma cultural. Nós direcionamos os artistas dentro do conceito que a gente propõe. Queremos levar esse sensorial todo, que vai muito além de um DJ set. Levar artistas, performances, convidar artistas locais, etc.
Denny: Nós acreditamos também que se você focar muito em um só ponto, você não se desenvolve. Quando chegamos em outras cidades falamos que é muito importante a existência de artistas locais, que buscam referências dali e não de outras cidades como São Paulo.