O atleta Henrique Avancini - considerado o melhor ciclista do país e da América Latina na modalidade mountain bike cross country - passa a expor os bastidores de competições internacionais e sua perspectiva: bastidores, curiosidades, histórias e um olhar diferente sobre as coisas. O novo colunista do RedBull.com/Bike conta os detalhes de sua trajetória de carreira e o difícil inicio nas competições europeias, confira!
O ciclismo em geral é um esporte europeu. As maiores competições, as maiores equipes, a tradição e a paixão pelas bikes residem no velho mundo.
Sendo assim torna-se desejo dos atletas descobrir esse novo mundo e, mais do que isso, tornar-se parte dele! Nos meus 19 anos, tomei uma atitude radical que envolveu uma grande e arriscada aventura, com a meta de ingressar no universo do MTB Europeu.
Em 2009, fui contratado pela ISD Cycling Team, me tornando o primeiro brasileiro (do MTB XCO) a ser contratado por uma equipe com chancela da UCI (União Ciclística Internacional).
Finalmente eu estava dentro do paraíso dos ciclistas. Eu só não esperava encarar o fato que esse “paraíso”, as vezes, se transformava um pouquinho em “inferno”.
Existem dois modos de entrar nesse mundo: “No peito” (como eu fiz), ou através de um “procurador”, função muito comum na Itália, onde seu agente passa a ter direitos econômicos sobre seus contratos e ganhos.
Quando fui buscar meu lugar ao sol em 2009, eu já havia recebido propostas de alguns procuradores, mas era uma coisa que não me cheirava bem.
Resolvi juntar as economias e tentar mostrar meu potencial na marra e ao mesmo tempo negociar um contrato por conta própria. Uma aventura um tanto inconsequente, que fica para uma próxima...
Nesse período eu viajava para Europa e passava 2-3 meses competindo todo final de semana, em países diferentes. Foi muito comum eu acordar e não saber em qual país eu estava.
Geralmente na Europa as equipes recebem um bônus ou cachê para levar seus atletas nas provas. Obviamente essa grana extra vai para o bolso dos diretores da equipe.
Sobreviver ao sistema é uma tarefa dura, para o corpo e também para mente.
Porque algumas equipes pequenas expõem tanto seus atletas? Para os donos de equipe é um risco que vale a pena. Se, por um milagre, seu atleta começar a render muito bem, você pode “vendê-lo” para uma equipe grande e se ele sucumbir ao cansaço, não tem problema. Existe uma longa fila para substituí-lo. Sobreviver ao sistema é uma tarefa dura, para o corpo e também para mente.
Em 2010, fui o primeiro atleta sub-23 na Cyprus Sun Shine Cup. Após um grande resultado, conversas sobre possibilidades futuras surgiram imediatamente.
Em 2011, passei um momento em que minha postura me levou a uma situação que pequenas portas se fecharam, mas só por isso grandes portas abriram futuramente.
Nesse universo, algumas poucas equipes oferecem um “atalho” para o ganho de performance.
Grandes industrias da bike, geralmente não arriscam suas reputações, conceitos e valores em troca do resultado a qualquer custo.
De fato no universo do MTB é uma minoria esmagadora, mas ainda existe um envolvimento com doping. O perigo para um atleta entrar nesse meio (além do óbvio) é que as portas se fecharão futuramente.
A grande maioria das equipes de fábrica não se envolvem com atletas que apresentem uma atitude suspeita em relação ao uso de substâncias proibidas.
Grandes industrias da bike, geralmente não arriscam suas reputações, conceitos e valores em troca do resultado a qualquer custo.
Nos anos de 2012 a 2014, competi pela Caloi no Brasil, porém me mantive ativo no cenário internacional onde boas oportunidades surgiram, até que a melhor delas se concretizou.
Em 2015, tive uma das minhas primeiras corridas pela CFR na Sun Shine Cup, onde fui vice-campeão do maior evento de abertura da temporada europeia.
A jornada é difícil para qualquer atleta de elite, mas quando olhamos um pouco mais a fundo nos bastidores, entendemos porque é tão difícil para um atleta latino se firmar nesse concorrido mundo do MTB internacional. Além de performance, a postura, conceito e credibilidade do atleta conta muito...
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