Inter e Vasco se enfrentam na final do Brasileirão de 1979
© Acervo Sport Club Internacional / Montagem: Gabriella Schiavo
Futebol

Inter, 1979: quatro décadas do time que ninguém ousou vencer

O terceiro título brasileiro do Internacional foi conquistado sem uma derrota sequer: 'Nosso foco era jogar e continuar ganhando', conta o ex-zagueiro Mauro Galvão
Escrito por Ricardo Gomes
5 min de leituraPublished on
É insano hoje em dia imaginar um time que seja campeão brasileiro invicto. Nenhuma derrotinha. Na verdade, é um feito quase impossível desde sempre. Prova disso é que só aconteceu uma vez desde 1971, quando a competição passou a se chamar Campeonato Brasileiro. O dono da façanha foi o Internacional, que levantou o troféu quatro décadas atrás sem ser derrotado uma vez sequer.
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O Campeonato Brasileiro de 1979 foi na verdade o desfecho dos sonhos de uma década em que quase tudo dava certo pelos lados do Beira-Rio.
Os anos 70 foram brilhantes para o Inter. Até 1979, o Colorado havia conquistado oito de nove títulos estaduais, todos contra o maior rival, o Grêmio, além de dois Brasileiros, em 1975 e 1976. Depois de dois anos mornos, aconteceu então o ano da glória.
E até estes anos mornos tiveram sua serventia. Sem chance de título no estadual de 1979, o técnico Zé Duarte aproveitou para testar alguns atletas da base. Entre eles estava Mauro Galvão, 17 anos. "Eu estava preparado, esperando uma chance. Os jogadores mais velhos me passaram segurança. Eu só me preocupava em jogar bola", disse o ex-jogador ao redbull.com.

O gigante acordou

No fim do Gauchão de 1979, a diretoria do Inter demitiu Zé Duarte e contratou Ênio Andrade. De cara, o novo técnico privilegiou o talento no meio-campo com o trio formado por Falcão, Batista e Jair. "Ele [Ênio] não era de muito papo, do tipo paizão, mas se fazia entender quando necessário. Tinha comando. A leitura de jogo dele era muito boa. No intervalo dos jogos ele adiantava tudo o que iria acontecer", lembrou Mauro Galvão.
Time do Internacional campeão brasileiro invicto em 1979

Time do Internacional campeão brasileiro invicto em 1979

© Acervo / SC Internacional

Fortalecido, o Inter começou bem o Brasileiro. Terminou a primeira fase na ponta do Grupo G com três empates e seis vitórias, uma delas sobre o Grêmio por 1 a 0, gol de Jair. Na segunda fase, 11 pontos em sete jogos (a vitória à época dava dois pontos) e classificação garantida. A terceira fase foi impecável: três jogos e três vitórias. As semifinais estavam a caminho.

O jogo que muda um campeonato

A vaga na final seria decidida contra o Palmeiras. Os dois times dividiam a liderança de conquistas do Brasileiro à época, com duas taças cada um.
O primeiro jogo foi no Morumbi e, como era esperado, o Palmeiras dirigido por Telê Santana se impôs. Ficou duas vezes na frente do placar e vencia o jogo até os 15 do segundo tempo. Mas Falcão apareceu para fazer dois gols e cravar a virada dos visitantes. "Esse jogo de ida contra o Palmeiras fez a gente acreditar que era possível ser campeão. Eles tinham um bom time e eram favoritos ao título."
Na partida de volta, no Beira-Rio, empate por 1 a 1 e vaga colorada na final do Brasileiro, a terceira em cinco anos.

Hora da decisão

Vinte e um jogos, 13 vitórias e seis empates. A invencibilidade do Inter intimidava os adversários, mas para os comandados de Ênio Andrade, esses números nem faziam parte das conversas. "A gente nem se preocupava com essa série invicta. Naquela época não tínhamos essa contabilidade que se tem hoje. Nosso foco era jogar e continuar ganhando."
Antes de soltar o grito, porém, Mauro Galvão e seus colegas teriam de derrotar o também invicto Vasco.
Assim como aconteceu na semifinal, o Inter iniciou o duelo fora dos seus domínios. E assim como ocorreu contra o Palmeiras, foi um visitante dos mais incômodos. Atacante que saia do banco para decidir, Chico Spina anotou os dois gols da vitória por 2 a 0. A taça já tinha impressões digitais em vermelho.
Mais de 54 mil pessoas foram ao Beira-Rio para acompanhar a consagração colorada. Entraram em campo pelo Inter naquele 23 de dezembro: Benítez; João Carlos, Mauro Pastor, Mauro Galvão e Cláudio Mineiro; Batista, Falcão e Jair; Valdomiro (Chico Spina), Bira e Mário Sérgio.
Jair e Falcão marcaram o 2 a 0. A seis minutos do apito final, Wilsinho anotou o de honra para os cariocas.
O Inter fechava a melhor década de sua história com um Brasileiro invicto, feito inédito até hoje por aqui e que, segundo Mauro Galvão, deve perdurar por muitos anos. "Acho complicado repetir isso, ainda mais num campeonato longo, equilibrado como tem sido nos últimos anos."

Fim de uma era

Com a base mantida, o Inter viu na Libertadores de 1980 a chance de ouro de arrebatar o seu primeiro troféu continental. E coroar uma geração brilhante conquistando o continente.
E tudo foi muito bem até a decisão. Na fase de mata-mata, despachou o argentino Vélez Sarsfield e o colombiano América de Cali, antes de pegar o Nacional, do Uruguai, na final.
Em casa, o Inter teve dificuldades e não saiu do 0 a 0. A volta, em Montevidéu, perdeu por 1 a 0 e adiou o sonho da América, que só seria conquistada mais de duas décadas depois, em 2006.
Falcão deixou o Inter em grande estilo para virar Rei em Roma

Falcão deixou o Inter em grande estilo para virar Rei em Roma

© Acervo / SC Internacional

O vice da Libertadores fo o gatilho para uma reformulação no elenco colorado. Falcão, talvez o melhor jogador em atividade no país, transferiu-se para a Roma. Outros jogadores importantes da campanha de 1979 foram sendo negociados nos meses seguintes.
Com a leve queda do Inter, times como Flamengo, Grêmio e São Paulo aproveitaram a brecha para dominar o cenário nacional nos anos 80. Mas aquele time tantos anos depois, não foi esquecido. E parece certo dizer que jamais será.
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