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Kahe: No fluxo da nova grande onda de Carlos Burle

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Documentário conta a história da carreira de Carlos Burle e do atual momento de transição. De competir aos 50 anos a tornar-se mentor de uma das maiores promessas do surf mundial de ondas grandes.
Escrito por Maíra PabstPublicado em
Surf · 14 min
Kahe – A Próxima Grande Onda de Carlos Burle
É muito comum falar em medo quando tratamos do surf de ondas grandes. Carlos Burle passou mais de 20 anos superando o medo de ondas enormes para construir uma carreira gloriosa. Mas, hoje, o que mais o assusta é medo de perder o controle de sua mente por ficar longe delas. 
Isso porque, em dezembro do ano passado, aos 50 anos de idade, Burle despediu-se oficialmente dos campeonatos de ondas grandes, durante a etapa do circuito mundial em Nazaré, Portugal. Em uma última bateria frustrante, em que não conseguiu surfar nenhuma onda, ele aprendeu uma lição: aceitar o fluxo da vida. 
E é sobre isso que se trata o documentário 'Kahe - A próxima onda de Carlos Burle', que você pode assistir no player acima!
O fluxo da vida - Kahe, em havaiano - se impunha naquela bateria para Burle e mostrava o quanto ele já tinha feito para o esporte. Não havia nada mais a provar naqueles 30 minutos. Dali para frente, ele poderia seguir outro caminho. 
E assim foi. Como confirmação disso tudo, Lucas Chumbo, a quem Burle vem passando todos os seus conhecimentos, subiu no lugar mais alto do pódio. 
Trocamos uma ideia com Burle para saber mais sobre como ele está encarando esse momento da sua vida, e nos surpreendemos com as respostas!
Veja a entrevista abaixo e assista ao documentário. Carlos Burle tem muito a ensinar, mesmo a quem não tem coragem nem de chegar perto de ondas gigantes! Aproveite!
Burle, por que Kahe? Por que fluxo? Em que momento você entendeu sobre o fluxo da sua vida? 
Fluxo é a ordem da vida. Tudo tem um fluxo, tudo tem um momento, as coisas não são iguais. As coisas não são, elas estão sendo. Por mais que você olhe para algo e ache que aquilo é infinito, você vai estar enganado, porque as coisas mudam. Umas mais rápido e outras levam um tempo. Aos poucos você vai entendendo que quando se está em harmonia com esse tempo as coisas ficam mais equilibradas, a vida fica mais feliz. Porque não é só o que você quer da vida, e sim o que a vida quer para você, o que ela tem a te oferecer para que você evolua. O sentido da vida é espiritual, né?! Então a gente tem que estar evoluindo. Quando a gente não entende que a vida tem um fluxo, tem um propósito superior, a gente fica nadando contra a corrente e por que isso? Se você pode se conectar ao fluxo natural da vida e aproveitar o que de melhor ela tem a te oferecer?
No documentário você fala em medo, qual o maior deles, hoje?
Hoje o maior medo é o medo de perder o controle da minha mente. Perder a lucidez. É o que mais me deixa preocupado. Porque se você tiver uma mente equilibrada, tiver emoções equilibradas, tiver em paz com você mesmo, tiver clareza para tomar as decisões certas ou, pelo menos, para ter equilíbrio quando for preciso, você consegue lidar com qualquer coisa nessa vida. Porque a vida sempre vai ter desafios, mesmo você sendo sábio, ela irá te desafiar.  Então o que mais me preocupa é perder essa capacidade de discernimento, de raciocínio, de clareza, de paz, de quietude mental, emocional e espiritual. 
Hoje o maior medo é o medo de perder o controle da minha mente. Perder a lucidez.
Carlos Burle
Carlos Burle aceitando o fluxo da vida
Carlos Burle aceitando o fluxo da vida
Se você pudesse mudar a realidade da sua última bateria em Nazaré, você mudaria? Por que ?
Eu não mudaria nada! Se eu fosse mudar eu estaria indo contra com o que a natureza mandou para mim, o que a vida mandou para mim, com o que o fluxo do universo mandou para mim. Isso nunca passou pela minha cabeça.... 'Tipo, se eu pudesse eu mudaria...'. Não, eu achei tão perfeito. Foi uma lição tão forte, tão bonita. Com a vitória do Lucas (Chumbo) no campeonato. Foi tão bonito, o que mais eu poderia querer ali? Eu tive uma carreira muito longa, em um esporte muito extremo, muito difícil e eu sou uma pessoa muito grata. Achei uma despedida incrível, inesquecível e uma conexão pura com o fluxo da vida!
Achei uma despedida incrível, inesquecível e uma conexão pura com o fluxo da vida!
O que você acha que terá mais oportunidade de fazer a partir de agora que, por algum motivo, sempre deixou para depois?
Terei mais oportunidade agora de olhar para mim mesmo, me desenvolver de outras formas. Eu era totalmente à minha profissão, ao meu trabalho. Agora eu posso me expandir em outras áreas e, com certeza, eu farei isso. Eu vou ter mais tempo para conviver com a minha família e acho isso muito legal. Meus filhos, minha esposa, meus pais, meus primos, meus amigos. Vou fazer outros esportes... Sempre quis fazer outros esportes, mas estava sempre pensando em entregar o que tinha que entregar profissionalmente. Agora posso surfar ondas pequenas com mais regularidade, me expor menos. 
E também estou muito feliz de poder trabalhar bastante com outras coisas, trabalhar com o Lucas (Chumbo), com as produções do Canal Off e com as coisas que ainda vão surgir! Mas, com certeza, vou ter tempo para ler mais, ir ao teatro, ir ao cinema... ter tempo de me desenvolver mais espiritualmente. Isso é muito bom, estou muito feliz. 
Carlos Burle, mentor do campeão de Nazaré, Lucas Chumbo
Carlos Burle, mentor do campeão de Nazaré, Lucas Chumbo
Qual o tamanho da sua satisfação de partilhar seus conhecimentos?
Compartilhar os meus conhecimentos é um prazer enorme, inenarrável. É uma das coisas que eu mais gosto de fazer na minha vida, se não "A" que eu mais gosto. Poder retribuir de forma sincera e honesta, com transparência, para o universo o que eu sou, o que eu penso, quais são as minhas emoções. E saber de alguma forma que eu estou ajudando a alguém. Porque ninguém é dono da verdade, se a gente puder compartilhar nossa existência com outras pessoas, de uma forma bem clara, bem aberta, a gente vai estar ajudando todo mundo a se entender e se conhecer. Quando as pessoas se conhecem, elas tem muito mais possibilidades de serem mais felizes. Quando as pessoas são felizes, elas não roubam, não se agridem, não tem guerra. Então, indiretamente, eu quero estar ajudando a termos um mundo melhor e o que eu posso fazer é ser sincero. O que eu mais gosto de fazer é realmente me doar!