Rappin' Hood é uma das mais emblemáticas figuras do rap nacional. Multi-instrumentista e respeitado por todos que orbitam no gênero, ele aceitou o convite para ser um dos curadores do Red Bull Music Pulso, que durante todo o mês de abril reunirá 25 artistas do gênero para ocupar o Red Bull Station, no Centro de São Paulo.
Nascido Antônio Luiz Júnior, Rappin' Hood cresceu na Vila Arapuá, Zona Sul de São Paulo, onde ainda jovem aprendeu a tocar diversos instrumentos, entre eles trombone e corneta, e mergulhou na cultura hip-hop. Em meados dos anos 90, estourou com a música "Sou Negrão" e, em 2001 e 2005, lançou os dois volumes de "Sujeito Homem", uma das séries essenciais do rap nacional.
Além de compositor e rapper, Hood apresenta programas no rádio e na TV, faz parte do trio Posse Mente Zulu desde 1992 e, em 2019, prepara seu terceiro disco solo após um hiato de mais de uma década. Parte fundamental do passado, do presente e do futuro do rap, ele nos contou na entrevista que você lê abaixo detalhes marcantes de sua história e detalhes de novos projetos que serão lançados ainda este ano.
Como o rap entrou na sua vida?
Quando eu era muito garoto. Meus tios faziam bailes no interior de São Paulo, mais precisamente em Araraquara, e eles compravam muitos discos. Eu já comecei a ouvir rap quando a primeira geração chegou: Grandmaster Flash, Afrika Bambaataa, depois Kurtis Blow e Break Machine, enfim, esses caras do começo mesmo. Me inspirei também em uns caras brasileiros que faziam rap, como Pepeu & Mike, Thaíde & Dj Hum, Os Metralhas, Jr. Blaw e Região Abissal. Aí eu já comecei a dançar break e a fazer rap, bem novão.
Que momentos você considera que definiram sua carreira?
Um momento que eu julgo muito importante é o dia 15 de novembro de 1995. Nesse dia, o Primo Preto e o programa "Yo! MTV Raps" fizeram um grande show no Vale do Anhangabaú chamado "300 Anos de Zumbi". Esse foi o show que alavancou minha carreira, que fez todo mundo conhecer meu trabalho, com a música "Sou Negrão" [assista no player abaixo]. Depois ela foi lançada de forma independente pela Raízes Discos e quase 100 mil cópias foram vendidas.
Um outro momento especial foi um show chamado "Caetano em Sampa" que rolou no aniversário de 450 anos de São Paulo [em 2005], na esquina da Avenida Ipiranga com a Avenida São João. O Caetano Veloso me convidou para esse show e estavam lá Jair Rodrigues – grande mestre, meu padrinho –, Jairzinho, José Miguel Wisnik, Nando Reis, Gilberto Gil... Esse show foi, digamos, um pontapé inicial para as gravações de "Sujeito Homem 2", um disco muito importante na minha vida. Para você ter uma ideia de como foi importante, hoje, 14 anos depois do lançamento desse álbum, tem uma música dele na novela "O Sétimo Guardião", minha e do Caetano [ouça no player abaixo].
De que maneiras o rap faz parte do seu dia a dia?
O rap está em todos os meus dias. Eu sou o rap todos os dias. Eu me relaciono com coisas sobre o rap, eu respiro o rap, como o rap, ouço o rap, bebo o rap. Tudo é rap na minha vida, graças a Deus, e eu agradeço a Ele por essa oportunidade, de verdade.
E o que vem por aí na sua carreira?
Eu estou terminando um álbum chamado "Os Dez Mandamentos", meu retorno após 14 anos. Ele vai sair no dia 3 de julho de 2019 e tem produção do tecladista e pianista Renato Neto, que era tecladista do Prince e com quem eu fiz os beats, e do maestro Rildo Hora, com quem eu fiz os sambas com rap. Vai ter também um EP especial do Rappin' Hood para o dia dos namorados e uma música nova do Posse Mente Zulu – porque a gente nunca para – chamada "Sou Negrão 2".
Qual é o futuro do rap?
Eu acho que no Brasil o futuro do rap é se misturar com elementos brasileiros e se transformar em uma cultura cada vez mais forte. Se misturar também com músicas eletrônicas de diferentes batidas, com o samba, com a bossa-nova, com a MPB, fazendo parte dessa grande gama de ritmos que nosso país tem. Lá fora eu vejo o rap como um movimento cada vez mais pop, um movimento cada vez mais popular e que só cresce. O rap já é, segundo o Spotify, a música mais ouvida do mundo, né? Então se a gente já dominou o mundo, o futuro é dominar a galáxia.
Parte desta história