Tamara Franklin
© Giulio Cesare
MC Battle

Mulheres no rap: a luta não pode (e nem vai) parar

Como as vozes femininas estão tomando a cena
Escrito por Evandro Pimentel
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"Já fui desacreditada simplesmente por ser mulher", conta Stefanie Rodrigues, a MC Shante, lembrando de um evento que participou em 2019. "Fui convidada para fazer um pocket show e depois houve uma batalha de rap. Desde o inicio, o menino com quem batalhei foi desrespeitoso comigo, rimando cuspindo no meu rosto, tocando no meu corpo, me peitando como forma de me intimidar."
Shante começou sua trajetória nas batalhas de rap em 2017 e nunca se deixou vencer pelo machismo da cena. "Sempre tem panelinhas dos parças, é difícil ser mulher e se sentir confortável nesses espaços, mas as MCs não podem se deixar influenciar pelo medo, ele tem que ser combustível pra rima."
Shante
Shante
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Dando a cara a tapa

A predominância masculina sob os holofotes da rima provoca a impressão de que mulheres são minoria, quando na verdade a presença delas na cena só cresce. Mostrar que elas existem e merecem respeito é uma forma de diminuir essa invisibilidade e, para isso, iniciativas como o documentário "Essas Mina é Zica" são fundamentais.
Dirigido pela jornalista Natacha Vassou e pelo publicitário Lucas Espeto, o filme, ainda em fase de produção, busca retratar a realidade de seis mulheres atuantes na cena rap de Belo Horizonte. "Apesar da presença cada vez maior de mulheres, as oportunidades ainda são muito desiguais", analisa Natacha. "Poucas conseguem se dedicar exclusivamente à música, dividindo o seu tempo entre empregos fixos, freelas e família."
Dona de uma voz marcante, Tamara Franklin é uma das rappers representadas na produção. Em 2016, ela lançou seu primeiro álbum, "Anônima", referenciado por importantes veículos de comunicação, como o Geledés e o jornal Estado de Minas, por “​renovar o rap e apresentar discurso em defesa da mulher negra”.
Tamara Franklin
Tamara Franklin
Mas se hoje Tamara comemora o nascimento de seu segundo disco, "Fugio", lançado em agosto de 2020, ela também não se esquece das dificuldades que precisou enfrentar apenas por causa de seu gênero. "Uma vez eu era a única integrante mulher de um grupo e o DJ sugeriu que eu deixasse um dos manos cantar minhas letras, por que eu escrevia melhor que esse mano", lembra.
Para Patrícia Meira, ser mulher dentro da cena em qualquer circunstância é positivo e representativo, "afinal não nos querem na cena". Poeta, produtora cultural, slammer, roteirista, compositora e empreendedora, a baiana é organizadora do Slam Delas, batalha de rap que já soma dez edições. "Só neste projeto contratamos certa de 52 mulheres, priorizando mães solos, artistas da musica, do teatro, da literatura e do slam."
Colecionadora de títulos em slams nacionais e internacionais e autora de quatro livros de poesia, Patrícia acredita que ser mulher é sua maior dificuldade dentro da cena. "Eu sempre tenho que me desdobrar pra provar que sou competente no que me proponho a fazer, enquanto um cara só precisa dizer que sabe fazer algo".
Patrícia Meira
Patrícia Meira
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Novos tempos, velhas lutas

Em entrevista concedida ao Jornal da USP, Guilherme Botelho, mestre em Filosofia pelo Instituto de Estudos Brasileiros da USP, aponta que o empoderamento feminino contemporâneo deu mais força e precisão ao afronte à misoginia em relação ao que acontecia nos anos 90. Além disso, o estudioso avalia que a saída do rap das malhas da indústria fonográfica ofereceu ao gênero perspectivas de educar a periferia e de levar até ela debates sobre questões regionais e globais.
As mulheres sempre fizeram parte do rap, mas com a popularização da internet e de ferramentas de produção, as MCs passaram a ser mais donas de sua próprias vozes. Com ajuda da tecnologia, elas hoje estão conseguindo levar suas mensagens para cada vez mais mulheres, que enxergam nelas a possibilidade de também mostrarem seus talentos e contribuirem para uma luta que só ganha força e que não pode parar.
A cultura hip-hop fala sobre respeito e sobre não haver ninguém melhor que ninguém.
Tamara Franklin
"Eu acredito na arte como uma maneira de refletir os tempos e questionar o que sabemos que tá errado, o que sabemos que é injusto e o que sabemos que é opressão", pondera Tamara Franklin. "Se continuarmos fazendo rap sem a cosmovisão da cultura hip-hop, nos afastaremos cada vez mais do respeito, da luta contra as opressões, do real sentido de tudo que envolve evolução pessoal, mas muito mais que isso, da evolução enquanto comunidade."
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Red Bull FrancaMente

O Red Bull FrancaMente é uma competição que promove grandes batalhas entre talentos do hip-hop do Brasil todo. 🎤 As inscrições estão encerradas, mas você pode testar suas habilidades com outros MCs no app do evento, disponível para Android e iOS e saber tudo sobre o torneio no canal oficial no YouTube. E no dia 24 de junho, os jurados Max B.O., Clara Lima e Slim anunciam os classificados à Final Nacional com transmissão ao vivo na Twitch (@AmazonMusicBR)!
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