Red Bull Batalla de Los Gallos 2018
© Gustavo Cherro / Red Bull Content Pool
MC Battle

Como batalhas de rima podem ajudar a construir uma carreira?

Jurado do Red Bull FrancaMente, Mamuti conta que vencer nem sempre é o mais importante
Escrito por Evandro Pimentel
Publicado em
Os melhores rimadores e rimadoras do Brasil já estão a postos para a segunda edição do Red Bull FrancaMente, versão em português do Red Bull Batalla de los Gallos, duelo de MCs mais famoso do mundo. Mas como se destacar (e até mesmo vencer) um campeonato importante como esse pode influenciar a carreira de um rapper? "Aprender a lidar com a pressão e com a emoção durante o embate vai te preparar melhor pra lidar com a pressão e emoção quando precisar tomar decisões na sua carreira", aconselha Mamuti.
Conhecido por organizar e participar de batalhas de rimas, Mamuti é MC, apresentador e produtor cultural, possui hoje uma carreira sólida na música e ainda faz parte do time de jurados que vai definir o vencedor ou vencedora do Red Bull FrancaMente. Na entrevista abaixo, ele dá mais algumas dicas de como transformar batalhas de rima em combustível para alavancar carreiras, lembra de MCs que conseguiram fazer isso com sucesso e conta um pouco de sua trajetória inspiradora, influenciada por grandes nomes da cena.
Mamuti
Mamuti
Como você entrou para o mundo da rima e das batalhas?
Eu escuto rap desde muito pequeno, me apaixonei ouvindo pelo rádio o Gabriel, o Pensador cantando "2345meia78". Não sabia o que ele estava falando, mas a batida e o flow me encantaram. Pegava emprestado alguns CDs do meu primo mais velho, comprava alguns outros na feira quando conseguia juntar algum dinheiro e ainda criança, com 10 anos de idade, já arriscava algumas rimas parodiando algum flow que gostava muito.
Aos 13, assisti ao filme "8 Mile: Rua das Ilusões" e fiquei encantado, mas não sabia se aquilo existia aqui. Aos 14, com mais acesso a internet, comecei a ingressar em comunidades sobre rap e freestyle no saudoso Orkut e caí em alguns vídeos da Liga dos MCs 2003, Funkero x Gil Metralha... E daí pra frente foi só pesquisa e aprofundamento. Quando eu tinha 15 pra 16, nasceu a Batalha do Santa Cruz, mas eu não conseguia colar por conta da rotina de casa. Então me juntei com alguns amigos que moravam mais próximos de mim e fizemos o ImproviZ/O. A gente se reunia todo sábado as 17h pra rimar no terminal da Lapa.
Não durou muito, porque não existia tanta demanda naquela época, e no ano seguinte acabei me organizando pra frequentar o Santa Cruz semanalmente. Na sequencia teve a Rinha dos MCs e por aí fui, sempre estudando pra melhorar nas batalhas, seja praticando ou buscando algo de fora que pudesse melhorar minha performance. Fiz teatro, oratória, estudava stand-up comedy, tudo pra aplicar e desenvolver meu estilo de batalha.
Como as batalhas ajudaram você a construir sua carreira?
Em um âmbito pessoal, as batalhas me ajudaram a melhorar minha argumentação e também a vencer a timidez. Me tornaram um negociador melhor, um orador melhor, um apresentador melhor. Quando lancei minha carreira musical, fiz muitos shows em batalhas de outras cidades, eventos de pessoas que me viram em batalhas. Eu vendia muito CD pra gente que me conhecia de batalha, ou que tinha me visto batalhando no dia mesmo, em alguns eventos maiores.
O maior ativo que adquiri nas batalhas foi "a rede". Eu estava em todas as batalhas possíveis, dentro e fora do estado. Onde eu tinha pernas pra chegar, eu chegava. Isso me proporcionou uma rede de contatos muito vasta.
Mamuti
Quando pensei em criar o CPBMC - Circuito Paulista de Batalha de MCs, só sabia que era possível porque eu tinha contatos em quase todo o estado, graças a circulação pelas batalhas. Eu já tinha visto o que os coletivos locais eram capazes de fazer e sabia com quem poderia contar para realizar algo tão grande com tão pouca verba. Mais do que só batalhas, o Freestyle me ensinou que é totalmente possível fazer tudo vindo de um nada!
Que outros rappers você conhece que tiveram suas carreiras ajudadas pelas batalhas, seja no rap ou em outros ramos?
Acredito que o Emicida marcou o início dessa era em que MCs têm nas batalhas sua vitrine. É praticamente a história do "8 Mile" da Zona Norte (risos). Ele ter sido campeão da Liga dos MCs 2006 contra o Gil Metralha, que pra mim é o melhor MC da história, o início da popularização do YouTube no Brasil... Tudo isso junto fez ele viralizar de mais no início de 2007 e ele soube aproveitar isso muito bem.
De Projota, Rashid e Maomé (ConeCrew) até os mais jovens, como César, Orochi, Sid, Clara Lima, WinniT, Kant, Thiago Kelbert, Leozin, e Krawk, temos muitos nomes que, como o Emicida, conseguiram usar a vitrine que as batalhas foram para escalar o início da carreira musical. É o caminho mais lógico e comum, mas não é o único.
Temos alguns outros cases de MCs que usaram dessa vitrine das batalhas de outras formas, por exemplo o BOB13, não ficou famoso por ser um grande MC de batalha, mas escalou sua carreira musical apresentando a Batalha da Aldeia. Já o Falatuzetrê usou os conhecimentos adquiridos nas batalhas e vivencias na rua pra começar o canal no Youtube que alçou a carreira dele.
O Gaspary se tornou uma autoridade e exemplo pra muitas batalhas com a gestão do canal da Batalha do Tanque, que também marca o início de uma era. O Meleca e o Dimas levantaram grandes canais do YouTube com batalhas e hoje trazem mais alguns conteúdos. O Alva e o Noventa conseguiram nome com público de batalha, mas hoje também são streamers de games, além da música.
Quais dicas você daria para MCs mais jovens, que vêem nas batalhas uma forma de crescerem no mundo do rap?
Mais importante do que ganhar títulos é fazer ótimas batalhas. Busquem os melhores adversários e não quantidade de "folhinhas" (é costume das batalhas premiarem os vencedores com a folhinha com a chave da noite). Adversários bons te tornam um competidor melhor. Mas não adianta só batalhar, tem que evoluir como pessoa. Aprender a lidar com a pressão e com a emoção durante o embate vai te preparar melhor pra lidar com a pressão e emoção quando precisar tomar decisões na sua carreira.
Aprenda a lidar com o público. O feedback do público é imediato, dá pra você sentir se o que você tá fazendo agrada ou não agrada na hora! Aprenda a sentir isso e mude a estratégia quando necessário. Isso serve pra vida muito além do ring. E nunca deixar de se divertir. Batalhe com seriedade e empenho, mas não deixe que isso mate o seu amor pelo freestyle.
MCs que se cobram muito acabam perdendo o brilho fazendo o que amam, e por consequência perdem as batalhas mais importantes de suas vidas.
Mamuti
Acredito que ainda tem muito espaço dentro das batalhas, pois estamos no começo ainda do potencial que a cena tem. A minha projeção é que, em alguns anos, a gente tenha muito mais DJs, videomakers, produtores musicais e culturais, social medias saídos dessa vivência da batalha, começando em um coletivo numa esquina, fazendo uma batalha de rima e ganhando o mundo como grandes profissionais de suas áreas.
01

Vem aí o Red Bull FrancaMente

O Red Bull FrancaMente é uma competição que promove grandes batalhas entre talentos do hip-hop do Brasil todo. 🎤 As inscrições estão encerradas, mas você pode testar suas habilidades com outros MCs no app do evento, disponível para Android e iOS e saber tudo sobre o torneio no canal oficial no YouTube. E no dia 24 de junho, os jurados Max B.O., Clara Lima e Slim anunciam os classificados à Final Nacional com transmissão ao vivo na Twitch (@AmazonMusicBR)!
Baixe agora o app da Red Bull TV e tenha acesso a vídeos, filmes e séries!