Maradona e Matthaus entram em campo para a final da Copa de 1990
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Futebol

O dia em que Maradona xingou toda a Itália. Ou quase isso

Vaias ao hino argentino na final do Mundial de 1990 despertaram a ira do "Pibe"
Escrito por Ricardo Gomes
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Maradona pode não ser o melhor jogador da história do futebol, mas o mais polêmico muito provavelmente é. Com o "Pibe" sempre foi na base do "ame-o ou deixe-o". E, a bem da verdade, ele nunca deu muita importância para o que pensavam a seu respeito.
Em 1990, Maradona vivia o ápice de seu envolvimento com as drogas. A imprensa italiana não dava trégua ao craque, pivô de manchetes indecorosas dos jornais locais. A única exceção era a cidade de Nápoles, onde Maradona era venerado. Por lá, o noticiário se esforçava para manter intacta a imagem de atleta do seu "filho" querido.
O Maradona de 1986, personagem crucial no título mundial argentino, já sofria com o declínio físico. Mas a genialidade ainda habitava aquele corpo. E o camisa 10 tinha na Itália a chance de mostrar que estava mais vivo do que nunca. Calar a boca dos seus detratores era quase que uma obrigação.
Na primeira fase a Argentina e Maradona ficaram devendo: três pontos em três jogos e a vaga na "conta do chá", na terceira e última vaga do Grupo B. Veio as oitavas e pela frente o Brasil, que àquela altura jogava um futebol mais vistoso. O time de Lazaroni teve as melhores chances do jogo, mas numa rara escapada, Maradona deixou Alemão e Dunga para trás e passou para Caniggia, que anotou o gol da vitória. A Argentina renascia.
Maradona desequilibrou contra o Brasil

Maradona desequilibrou contra o Brasil

© Pedro Martinelli / Veja

O duelo contra a Iugoslávia pelas quartas não agradou. Bem marcado, Maradona pouco fez. Depois de um persistente 0 x 0, decisão dos pênaltis. Melhor para a Argentina.
Aos trancos e barrancos a "albiceleste" já se colocava entre as quatro melhores seleções do planeta. E o jogo semifinal não poderia ter sido mais emblemático para Maradona: contra a Itália, no San Paolo, em Nápoles.
Antes da partida, Maradona até clamou para os napolitanos que torcessem para ele e sua Argentina. Sem sucesso. Maradona jogou bem e ajudou a eliminar os donos da casa ao converter sua cobrança na decisão por pênaltis. A torcida italiana não perdoou a dor causada pelos argentinos.
Na final contra a Alemanha, a imagem daquele Mundial. Enquanto o hino nacional argentino era executado, boa parte do estádio Olímpico, em Roma, vaiava a canção. As câmeras de transmissão, claro, pararam em Maradona, que despejava todo o seu rancor no mais límpido espanhol. Não é preciso ser um perito em leitura labial para entender o que o craque expressou.
Depois de vencer a Alemanha em 1986, Maradona levou o troco em 1990

Depois de vencer a Alemanha em 1986, Maradona levou o troco em 1990

© Cezar Loureiro

Apupada, a Argentina não se impôs. Fria e calculista, a Alemanha marcou o seu gol a cinco minutos do apito final com Brehme, de pênalti, para definir aquela que é considerada uma das decisões mais monótonas da história dos Mundiais.
Um ano depois do Mundial, em 1991, Maradona deixava o Napoli. Ele nunca mais reencontraria o seu auge.