Dago Donato
© Fabio Piva / Red Bull Content Pool
Música

O que mudou no cenário musical independente desde 2015, por Dago Donato

Naquele ano acontecia a primeira edição do Red Bull Music Pulso, da qual fui um dos curadores
Escrito por Dago Donato
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Em 2015, fui convidado para fazer parte do time de curadores da primeira edição do Red Bull Music Pulso. O projeto ainda não tinha um formato definido quando começamos as reuniões de curadores. Era um desafio legal demais: além de moldar um projeto de residência para música independente, montar um time de músicos ou pessoas ligadas à música para colaborar, gravar e trocar experiências.
Não é preciso dizer que o projeto, que agora chega à terceira edição, foi um sucesso. Tivemos um mês intenso, com muita troca, intercâmbio, gente diferente e de diferentes cenas se conhecendo e trabalhando junto. Era muito bom estar no Red Bull Station durante aquelas semanas. O prédio estava tomado por música. O estúdio e as salas repletas de gente talentosa totalmente imersa no objetivo de fazer música.
Musicalmente, o Red Bull Music Pulso gerou muitas parcerias. Lei Di Dai trombou a Bad$ista por lá pra tramparem em faixas que saíram no disco mais recente da Dai, por exemplo. O Ogi gravou com meio mundo e segue até hoje lançando tracks gestadas durante o projeto.
Muito legais também foram os momentos de troca com o pessoal “de fora” do projeto. Tivemos palestras, debates e tardes de shows abertos ao público. Claro que um ambiente desses também trouxe muita discussão. Trocou-se muita ideia.
Um dos exemplos práticos mais interessantes dos frutos que um projeto como este pode gerar foi o que aconteceu a partir do painel “As mulheres têm o poder”, que teve mediação de Claudia Assef e do qual participaram Karen Cunha, Amanda Mussi, Érica Alves, Raissa Fumagalli, Jessie Evans, Lei Di Dai, Monique Dardenne, Lourene Nicola e Juçara Marçal. A partir deste debate sobre a inserção das mulheres no mercado de música surgiu o grupo #mulheresnamusica e posteriormente o Womens Music Event.
Karen Cunha, Kiko Dinucci, Chico Cornejo, Andre Maleronka, Dago Donato e Fabricio Nobre

O coletivo de Dago Donato no Red Bull Music Pulso 2015

© Fabio Piva / Red Bull Content Pool

Não se pode dizer que nos últimos três anos houve grandes saltos na cena independente, seja em termos musicais ou de público. Ela segue do mesmo jeito, aos trancos e barrancos, com quem se compromete fazendo as coisas porque precisa fazer.
Talvez a maior evolução tenha vindo na questão do protagonismo, que era muito menos discutido até então. E mais do que discutidas, vejo muitas coisas sendo colocadas em prática. Um exemplo mais óbvio é o movimento de artistas queer, que ganhou grande espaço através de nomes como Liniker e Linn da Quebrada.
Noto também sensivelmente a postura feminina dentro do meio cada vez mais forte em reclamar seu espaço, não só como artistas, mas também como agentes da cena (produtoras, donas de selo, bookers, engenheiras de som) e público dos shows. E vejo festivais, festas e casas de show cada vez mais preocupadas com essa representatividade. É um processo longo e complicado, mas cada vez mais perceptível.
Pra finalizar, devo lembrar que eu mesmo faço parte de um projeto que nasceu durante o Red Bull Music Pulso. Foi lá que me aproximei mais do pessoal da Balaclava Records, que fazia parte do meu time. Tivemos a ideia de abrir juntos uma casa para shows de artistas independentes. Três anos depois, temos o Breve há um ano e meio, firme e forte recebendo semanalmente apresentações de artistas novos e antigos, brasileiros e estrangeiros, e dos mais diferentes gêneros. Quanto ao Red Bull Music Pulso, mal posso esperar para ver o que vai render esta edição atual.