Música

Por dentro do Método Marina Abramovic

Escrito por Camila Alam
Fomos visitar a maior exposição da artista sérvia em São Paulo para descobrir como funciona.
Marina Abramovic
Marina Abramovic
Era uma da tarde da terça-feira, dia 10, quando cheguei ao Sesc Pompéia, em São Paulo, para participar do Método Abramovic. A meia hora de antecedência ao horário marcado denunciava a ansiedade, mas, à minha frente, na fila de inscritos, já havia outros dez mais ansiosos. Era o dia de abertura da exposição 'Terra Comunal', uma retrospectiva da carreira de Marina Abramovic, a artista sérvia que conseguiu o quase impossível na arte contemporânea: levar a performance - essa técnica por vezes incompreendida - a milhares e ávidos interessados. Atrás de mim, naquela tarde abafada e úmida, a fila só ia aumentando.
Comecei a conhecer o trabalho de Marina Abramovic quando cursava História da Arte, há alguns anos. Tem gente que acha um porre. Comigo, foi paixão à primeira vista. Suas obras, imateriais, me passam um misto de tensão, energia e alívio. Suas performances de longa duração, que trabalham corpo e mente, são resultados de longas pesquisas, comprometimento e entregas extremas. A união de força, controle, conceito, concentração e autoconhecimento.
São muitas as peças que fazem da artista uma favorita. Em ' Art must be beautiful, Artist must be beautiful', de 1975, ela escova bruscamente os cabelos por mais de uma hora, entrando num transe crítico ao seu próprio meio. Em ' Rest Energy', com o antigo parceiro Ulay, desafia a morte quando tensiona um arco e flecha contra o peito, ao mesmo tempo em que o público pode ouvir as batidas de seu coração. Com o mesmo Ulay, com quem dividiu vida e obra, fez a maior das travessias, em ' The Lovers, The Great Wall Walk' (1988). Partindo de direções opostas da Muralha da China, os (ex-)amantes caminharam noventa dias para, ao se encontrar, dizer adeus. Há fim de relacionamento mais poético e sacrificante do que esse?
Marina Abramovic Rest Energy
Marina Abramovic Rest Energy
Quotation
Se você vai participar do Método Abramovic e não quer saber o que acontece, alerta: contém spoilers 
Pontualmente, às 13h30, a equipe da exposição encaminha a fila para uma sala quadrada, com quatro grandes tevês. Tiro minhas botas e guardo no armário número 25. É gelado o chão de mármore sujo do Sesc Pompeia. Se você vai participar do Método Abramovic e não quer saber o que acontece, alerta: contém spoilers. Ali pedem que fiquemos em silêncio por todo o tempo. Pelas próximas duas horas que virão, nada de falar, ir ao banheiro ou beber e comer. Se sair, não pode voltar. Se passar mal, avise aos monitores o quanto antes. Nas tevês, a artista aparece com jaleco branco, marcado com as iniciais MAI - Marina Abramovic Institute - e começa um aquecimento. Onze ou doze exercícios que trabalham os cinco sentidos e fazem relaxar. Por fim, sacodimos o corpo para "nos livrarmos de qualquer negatividade".
O Método é dividido em quatro partes, cada uma de meia hora. O grupo grande, de 98 pessoas, é dividido em quatro e cada subgrupo segue para uma posição, usando aqueles fones de ouvido de aeroporto que lacram todo som. Uma maravilha. O barulho interno da respiração se torna mais alto e consigo ouvir os meus passos no chão e o coração batendo. Sons internos.
Comecei no grupo em pé. Seguimos para estruturas de madeira que lembram tótens com três cristais pontudos. De frente para as pedras, me aproximo e percebo que a primeira delas toca exatamente entre meus dois olhos. Místico. O terceiro olho, o chacra frontal. Faço algumas respirações profundas, alguns métodos de relaxamento em pé que aprendi em aulas de yoga. Ao meu lado esquerdo, uma senhora permanece imóvel todo o tempo, enquanto um cara à esquerda desiste logo nos primeiros minutos. Ficamos ali. A tarde abafada e úmida e aqueles grandes fones de ouvido me fazem suar. Encosto o rosto no cristal para dar uma refrescada. Parece prova de resistência do BBB.
A primeira meia hora acaba passando rápido e os instrutores batem palma para avisar que o tempo acabou. Somos encaminhados para a segunda parte, desta vez sentados. As cadeiras individuais foram todas tomadas e eu sento no banco, encostando costa com costa em uma menina. Ela parece incomodada, os reflexos da tarde abafada e úmida começam a ficar mais claros por causa do calor entre nossos corpos. Aproveitei para fechar os olhos e arriscar um método de meditação posicionada. Devo ter ficado nessa por uns 12 ou 15 minutos. Pelos olhos cerrados, conseguia perceber o outro grupo de participantes passando em frente. A tarefa deles era caminhar em câmera lenta. Quando abri os olhos, a última fileira passava por mim. Gastei o resto dos minutos alongando os pés, os braços e o pescoço. E contando o número de fileiras de tijolos na parede em frente. Cinquenta e sete, do chão ao teto. De baixo pra cima, depois de cima pra baixo.
Marina Abramovic - The Artist is Present, 2010
Marina Abramovic - The Artist is Present, 2010
Passada a meia hora, nos encaminham para a parte da câmera lenta. Foi a mais legal pra mim. O exercício sugere concentração e equilíbrio. Dava pra perceber que alguns, mesmo andando tão devagar, apressavam o ritmo. A menina que começou ao meu lado, terminou lá na frente. Eu e mais duas moças ficamos pra trás. Realmente estava curtindo aquela movimentação, quase um tai chi chuan. Desde o início contei todos os passos. Ao final, foram 193. Não tinha muito o que fazer a não ser me concentrar em algo. Eu queria olhar para o chão (tinha alguns cristais em lugares estratégicos), mas uma instrutora tocou carinhosamente em mim e acenou para que eu levantasse a cabeça. Deu um sorrisinho e fez um inesperado carinho na minha nuca. "Ela deve ter sentido meu cabelo molhado", pensei. A tarde abafada e úmida me fazia suar muito.
Meia hora depois, por fim, o último exercício. Em uma de suas muitas vindas ao Brasil, Marina começou a estudar pedras e cristais e sua influência sobre corpo e mente. Ela criou alguns objetos, alguns utilizados no Método. O que usaríamos ali é uma cama de madeira, com um gigante cristal na cabeceira. Depois de uma hora e meia em pé, sentada e caminhando em câmera lenta, aquela cama de aparência mega desconfortável é uma delícia de deitar. Poder dos cristais ou exaustão do corpo? Entrei num estado de relaxamento corporal extremo, ao mesmo tempo em que a mente parecia alerta. Ou melhor, achava que estava alerta. Depois percebi que estava tendo pensamentos sem nexo, tipo aqueles de sonhos de sono bem leve.
Se em ' The Artist is Present', Abramovic literalmente se fez presente, em 'Terra Comunal' ela está em cada detalhe. O Método Abramovic é, portanto, uma das suas maiores obras. Uma performance atípica, onde por um mês inteiro ela não entra em ação, mas transforma seu público em ator. E ao mudar o ponto de vista do visitante, que desta vez se encontra imerso em seu pensamento, consegue criar uma nova perspectiva sobre toda sua obra.
"A 'Terra Comunal' é aberta a todos, uma comunhão, pronta para novos tipos de intercâmbio, sugerindo uma comunidade e ampliando a consciência coletiva através da arte", é o que diz o curador da mostra, Jochen Volz, no texto de abertura. Pra mim, a Terra Comunal, o Método Abramovic, foi um encontro. Um encontro comigo mesma e com o silêncio, aquele que é tão impossível de "escutar". Foi o mais próximo que chegarei de uma grande performance. Mais ainda, um íntimo encontro com a própria artista e sua obra.
Dica: se você encontrar um conhecido na saída, evite o impulso de falar ;)