Música

Por trás da faixa: Rincon Sapiência

Saiba tudo que envolveu a criação do som “A Coisa Tá Preta”
Escrito por Vinicius Felix
4 min de leituraPublished on
Rincon Sapiência

Rincon Sapiência

© Renato Stockler

"A Coisa Tá Preta", atual single de trabalho do Rincon Sapiência, tem uma letra com uma missão clara: ressignificar a expressão racista “a coisa tá preta”. Devidamente recontextualizada, ela vira um elogio no texto do rapper.
Se eu te falar que a coisa tá preta A coisa ta boa, pode acreditar Seu preconceito vai arrumar treta Sai dessa garoa que é pra não moiá
trecho de "A Coisa Tá Preta"
Além da ótima sacada lírica, a faixa mostra uma nova pegada do artista em relação ao seu lançamento anterior, o EP "SP Gueto BR" de 2014. Por isso foi uma surpresa quando descobrimos que por pouco "A Coisa Tá Preta" não saiu dois anos atrás, assim como vários outros sons que virão no seu primeiro álbum, previsto ainda para este ano.
O rapper explica melhor: “ Pra definir o repertório do EP, eu escolhi as músicas com uma estética mais tradicional dentro do rap. Agora me sinto mais preparado pra explanar novas ideias, e a co-produção do William Magalhães (Banda Black Rio) ajudou a dar mais corpo a essas minhas ideias. Portanto, posso afirmar que nos próximos lançamentos trago sim um som com uma assinatura ainda mais original e autêntica do que antes”, conta.
Enquanto esta porção de novas ideias não chega, fomos atrás de mais detalhes de "A Coisa Tá Preta". Com a palavra, Rincon:

A origem da música

“O processo todo começou quando desenvolvi o instrumental, quando fiz os recortes com o berimbau e depois alguns arranjos eletrônicos em cima. Notei que cairia bem algo em volta da temática preta, mas a musicalidade me pedia pra que não trabalhasse em cima do óbvio em se tratando do texto. Daí a ideia de ressignificação da expressão veio à tona, como um estalo, mas foi o instrumental que me desafiou a criar algo provocativo.”

A autoestima na letra

"Acredito que essa música demarca um novo conceito de abordar a questão racial, trampando mais em cima da autoestima. Fatos como o genocídio da juventude preta e a manutenção de privilégios por parte da classe dominante são verdade, mas existe também um bom percentual de pretos ascendendo socialmente, ingressando nas universidades, quebrando padrões eurocêntricos de beleza, e acredito que isso deve ser ressaltado também. Uma pessoa de muito bom gosto musical chegou a me dizer que ‘’A Coisa tá Preta’’ seria como ‘’Olhos Coloridos’’ dos nossos tempos e confesso que foi um elogio suspeito (risos), mas que me deixou muito feliz."

A produção

"A produção foi feita por mim sim, demarca um momento onde comecei a usar samples e fazer arranjos em cima respeitando o campo harmônico do que foi sampleado. Certa vez levei um amigo batuqueiro pro estúdio e gravei uma série de timbres de percussão que rendem até hoje, isso quando eu mesmo não gravo, mas não é o caso dessa música."

A ideia do clipe

"Essa conversa entre passado e futuro se apresenta muito nos looks, estilos afro contemporâneos misturados a estilos mais tradicionais africanos, sem contar a maquiagem das garotas, que faz referências tribais. Eu poderia dizer que essas ideias partiram de referências minhas. Esse é meu quarto clipe feito em parceria com a produtora Porqueeu Filmes, e um dos diretores, o Luba Construktor, é também o meu parceiro de palco como DJ A.s.m.a. Então o entendimento nas ideias e a amizade ajudaram muito no nosso processo de direção do clipe"

A repercussão da faixa

"Fiquei feliz demais, é uma música que aborda a questão racial, tema que não é fácil pra estabelecer um diálogo com um público diverso. Então vejo de forma positiva a repercussão dessa música, isso mostra que além do discurso as melodias do refrão, o instrumental, tudo isso vem fazendo a diferença. Já presenciei o som tocando no baile e geral dançando e cantando, o que me mostrou que fizemos bem nossa parte. Independente do discurso, fazemos música e ver as pessoas se divertindo e absorvendo o orgulho do som é muito bom"