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Quantum Break: jogo, TV ou os dois ao mesmo tempo?

Dinâmica entre jogo e série Live Action é a grande novidade do novo jogo dos criadores de Max Payne
Escrito por Bruno IzidroPublicado em
Quantum Break: jogo ou série de TV?
Quantum Break: jogo ou série de TV?
Quantum Break tem a ver com viagem no tempo, com poderes de manipulação temporal, com escolhas que mudam a história. Porém, o jogo principalmente tem a ver com ser uma experiência narrativa que une videogame e série digital Live Action (ou seja, com atores em carne, osso e Método Stanislavski). Por causa disso, parte do ato de jogar Quantum Break significa deixar o controle de lado e assistir a um episódio de 20 e poucos minutos de segmento todo filmado como um seriado pra TV.
A ideia pode não parecer lá muito empolgante, e como qualquer conceito mais diferente, a aventura criada pela Remedy pode causar uma estranheza. Porém, mesmo com alguns tropeços na execução, essa conversa com outros formatos pode ser importante pros games como mídia.
Não é de hoje que jogos usam de linguagem cinematográfica em sua narrativa. Todos lembramos dos antigos jogos com partes filmadas com atores reais, os famigerados FMVs (Full Motion Video), ou mesmo as longas e elaboradas cutscenes impactantes da série Metal Gear Solid. Também é importante citar os jogos da Quantic Dreams, como Heavy Rain e Beyond: Two Souls, e a valorização da estética de cinema e, mais recentemente, Until Dawn usou bem desse recurso pra criar o melhor filme de terror interativo até agora.
A própria Remedy também sempre teve como característica construir seus jogos utilizando um formato que conversasse com outras mídias. Quem é que não se lembra em como o primeiro Max Payne utilizava da linguagem dos quadrinhos pra contar a história do jogo? Alan Wake também possui um formato que simula um seriado de televisão.
Quem se lembra do excelente Max Payne
Quem se lembra do excelente Max Payne
Nesse sentido, Quantum Break parece uma evolução natural dos jogos da desenvolvedora ao ser um híbrido de jogo e série live action, um conceito que nunca foi muito bem compreendido desde quando o game foi anunciado, lá em 2013, e somente quando se joga é que dá pra sacar como tudo funciona.
Pra falar bem a verdade, na forma como Quantum Break é estruturado, a série live action pode muito bem ser vista como uma grande cutscene, mas que possui uma função narrativa importante pra prender o jogador enquanto não está jogando. A série parece dar uma legitimidade maior por ter atores reais e não só um bando de personagens digitais, e talvez essa fosse a intenção da Remedy ao escolher esse formato.
A presença de figuras famosas interpretando os personagens vistos no game e na série também ajuda nesse sentido. Entre o elenco estão Shawn Ashmore (o homem de gelo dos primeiros filmes dos X-Men), Aidan Gillen (o Mindinho de Game of Thrones) e Dominic Monaghan (de Lost e O Senhor dos Anéis).
Shawn Ashmore também está em Quantum Break
Shawn Ashmore também está em Quantum Break
Porém, o importante aqui é prestarmos atenção na forma como o jogo conversa e utiliza essa outra mídia pra criar uma experiência diferente. Em Quantum Break o diálogo entre a linguagem de jogos com a linguagem cinematográfica é feito pela série servir como um reflexo das escolhas tomadas pelo jogador.
Funciona assim: antes de cada episódio, há um segmento no jogo chamado Bifurcação. Nele controlamos o vilão Paul Serene (Aidan Gillen) e sempre temos duas escolhas a serem feitas, cada uma com consequências diretas do que vai ser mostrado tanto no episódio da série que será exibido logo a seguir como no contexto geral do game.
Um exemplo é o primeiro dessas bifurcações, onde devemos escolher entre mandar matar uma personagem, Amy Ferrero, ou poupá-la e usá-la pra fazer propaganda na mídia pra ajudar nos planos do vilão.
Se escolhermos a primeira opção, o episódio que assistiremos será bem trágico e com consequências diferentes se tivéssemos escolhido a outra opção. Na primeira jogada essas escolhas até que funcionam pra gerar um sentido de mudança na história contada, mas por justamente o jogo incentivar uma segunda jogatina escolhendo as opções rejeitadas na primeira vez, percebemos que Quantum Break, assim como tantos outros games, oferece só uma falsa sensação de livre-arbítrio ao jogador.
A mudança de escolha somente oferece algumas pequenas mudanças no que é visto nos episódios, mas a trama permanece praticamente a mesma da primeira vez. Se um personagem morre em uma escolha, outro aparece pra fazer a função dele na história ou se uma ação é diferente na segunda vez, não muda que a consequência será a mesma no fim.
O irônico é que na própria história do jogo, cheia de viagens no tempo, é abordado o assunto de que o futuro não pode ser mudado, mesmo que se tente de tudo pra modificar o passado, como se o próprio jogo falasse que a estrutura de escolha, na real, é sem sentido. Fora que a trama consegue ser confusa e até meio apressada na resolução de certos conflitos, o que faz da narrativa, um dos aspectos mais importantes do jogo, ficar menos interessante.
Cena da série Live Action de Quantum Break
Cena da série Live Action de Quantum Break
Mesmo com essas falhas, a proposta em Quantum Break de unir games e série de TV se torna importante em um contexto mais geral pra jogos, porque isso vai além de um formato transmidiático em videogames que até já estamos acostumados a ver por aí.
Assassin’s Creed é um exemplo disso, com seus diversos outros produtos que complementam um universo pra além do jogo. São livros, quadrinhos e animações que contam histórias paralelas da briga entre assassinos e templários. Pra ficar mais próximo da relação jogo e TV, o MMO Defiance também possuía uma série live action, mas que funcionava de forma separada, sendo possível acompanhar sem necessariamente jogar o game.
Já quando Quantum Break usa a linguagem cinematográfica diretamente com cenas e atuações reais, ele propõe um formato mais expansível pros jogos como mídia.
Um jogo deixa de ser só um jogo. Não é só sobre ter habilidade, atirar ou superar desafios e sim também uma forma de entretenimento e, porque não, arte que dialoga e principalmente realiza experimentações com outros formatos.
É difícil prever se o impacto que esse conceito de jogo junto com série live action será significativa pra outros jogos. Por causa dos custos de se fazer uma produção desse tipo, é algo que deve estar limitado a games com grandes orçamentos. Ainda assim, toda essa experimentação em Quantum Break pode acabar sendo positiva. Afinal, experimentar faz parte do processo de amadurecimento dos videogames como uma mídia interativa e produto cultural.
*Quantum Break vai estar disponível pra Xbox One e Windows 10 em 5 de abril. A cópia do jogo foi cedida pela Microsoft
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