Rashid
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Música

Quatro décadas de rap no Brasil: o hip-hop na era da internet

Emicida, Rashid, Karol Conká e outros artistas que moldaram o rap atual no Brasil
Escrito por Luana Dornelas
5 min de leituraPublished on
Por volta de 2009, uma nova cena nascia em São Paulo e foi responsável por renovar o hip-hop brasileiro. A Batalha do Santa Cruz, um dos berços mais importantes do rap de improviso, foi o rolê que revelou alguns dos principais artistas do rap atual como Emicida, Rashid, Marcello Gugu, Projota, Bitrinho, Flow MC e Bivolt.
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Neste penúltimo episódio da série sobre a história do rap no Brasil, contamos os últimos dez anos, iniciados em 2009. Os 40 anos de história do gênero estão sendo celebrados em abril noRed Bull Music Pulso, ocupação musical que reúne artistas independentes do País inteiro no Red Bull Station, no Centro de São Paulo.
2009 - 2019
"Eu tinha acabado de chegar em São Paulo e minha primeira batalha no Santa Cruz foi contra o Emicida", lembra o rapper Rashid. "Depois conversamos, as ideias bateram e ficamos muitos amigos. A gente tinha o mesmo pensamento de como queríamos fazer o rap naquele momento. Nossa influência vinha da galera das antigas, como os Racionais, RZO e Sistema Negro, mas também queríamos traçar um paralelo com a nova geração do Kamau, Parteum e Marechal. Queríamos ser uma ponte entre essas duas gerações", afirma.
E conseguiram. O disco "Hora de Acordar", lançado por Rashid em 2010, chegou com uma pegada forte de militância social e racial, típica da geração old school, mas também trazendo novas temáticas, com letras mais poética e filosóficas.
Na mesma época, Emicida criou a gravadora/loja Laboratório Fantasma, nascida como um coletivo que começou vendendo de mão em mão camisetas produzidas artesanalmente. O início do projeto foi marcado com o lançamento do single "Triunfo", de Emicida, ainda usando o nome de "Na Humilde Crew". Feito da rua, pra rua.
Em 2010, Emicida lançou o elogiado "Emicídio". Além dele, muitos outros artistas se destacam na cena em 2011. Ogi e suas "Crônicas da Cidade Cinza", Rincon Sapiência e sua "Elegância" trazem novos ares pra cena incorporando batidas eletrônicas no som. Flora Matos surge com "Pretim" e Criolo lançou seu primeiro disco, "Nó na Orelha".
No ano seguinte, Síntese chegou com "Sem Cortesia", um disco cru com músicas que às vezes soam como poesia, às vezes como oração. Filipe Ret lança "Vivaz", Rael anunciou sua saída do grupo Pentágono e se lançou em carreira solo com o disco "Ainda Bem Que Eu Segui As Batidas do Meu Coração".
Em 2013, Karol Conká incorporou batidas dançantes ao rap e se destaca com seu primeiro álbum, "Batuk Freak" e Lurdez da Luz veio de "Ping-Pong", o rapper cearense Don L, ex-integrante do Costa a Costa, lançou a mixtape "Caro Vapor / Vida e Veneno" e Emicida retornou com o aclamado "O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui".
No ano seguinte, os Racionais MCs retornaram com "Cores e Valores", Criolo chegou com "Convoque Seu Buda" e Tássia Reis, integrante do grupo Rimas & Melodias, lançou seu primeiro EP. O movimento de empoderamento das mulheres no rap começou a crescer, e além de inspirar coletivos como o Rimas & Melodias, revela nomes nova geração como Bivolt, Lay, Mariana Mello, MC Soffia, Azzy, Yzalú, Rosa Luz e Jessica Caitano, que começaram a mudar o jogo com suas músicas.
Em 2016, o ano foi de BK - "Castelos & Ruínas", Síntese ,"Trilha para o Desencanto da Ilusão, Vol 1: 'AMEM'" e de Sabotage, que chegou com álbum póstumo que leva seu nome. O ano de 2017 revelou Djonga, rapper de Belo Horizonte que começou a chamar a atenção para as o rap sendo produzido fora do eixo Rio-São Paulo com o aclamado disco "Heresia". Em 2018, rapper baiano Baco Exu do Blues lança o disco "Bluesman", que repercute internacionalmente e chama atenção de Beyoncé e Jorja Smith.
Foram muitas mudanças durante estes dez anos, mas uma das mais perceptíveis foi a temática das músicas. O rap ficou muito mais abrangente em seus temas, mas não deixou de lado aquilo que já era forte: causa social, racial e de gênero. "Nessa época vieram as músicas de amor, claro que isso não é algo exclusivo da nossa geração, já rolava muito disso antigamente, mas aconteceu uma retomada no assunto e se tornou uma coisa popular", diz Rashid. Depois, veio a mudança na sonoridade, a estética do som. A música foi ficando cada vez mais pesada e grave, inspirada pelo Dirty South, que depois virou o trap. "Absorvemos a influência de músicas gringas e acrescentamos características da música brasileiras. Como o Criolo, que em 2011 lançou "Nó na Orelha", um disco cheio de elementos orgânicos, que era uma coisa que o próprio Sabotage tinha tentado colocar na música dele".
Mas não foi só a sonoridade e a temática das músicas que mudou. Com a chegada da internet, o modo de consumir e criar música mudou completamente. "Acho que a gente conseguiu se adaptar rápido. Isso indica muito o crescimento do gênero. A internet com certeza foi uma virada de mesa no jogo. Quem tinha um computador em casa começou a produzir. Nesta época, durante o final de 2008 começo de 2010, foram lançadas muitas músicas que tem essa cara de coisa caseira mesmo, porque eram sons produzidos dentro do quarto", conta Rashid.
Na última década o hip-hop estourou a bolha e se popularizou. Artistas de rap começaram a tomar seus lugares na TV, nas rádios, em capa de revista e na trilha sonora de novelas, se tornando um dos gêneros mais escutados nas plataformas de streaming no país. "Eu acho que nós estamos apenas há um passo de dominar tudo", finaliza.

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