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Serge Gainsbourg: Os Anos de Reggae


A biógrafa de Gainsbourg, Sylvie Simmons, fala sobre o período em que Serge passou na Jamaica
Escrito por Sylvie Simmons
13 min de leituraPublicado em
Serge Gainsbourg
Serge Gainsbourg
Era algo que consumia Serge Gainsbourg por algum tempo já: de que modo ele terminaria a década de 70 com o mesmo brilho que havia terminado a de 60. Em 1969, seu dueto com Jane Birkin em “ Je T’Aime... Moi Non Plus” foi lançado entre o escândalo e as vendas imensas. Gainsbourg apreciava os dois, mas tinha que ser da maneira dele – o que não era nada fácil.
Os anos 1970 haviam sido a década dos álbuns conceituais de Gainsbourg – começando em 1971 com o melhor de todos eles, o "Histoire De Melody Nelson". À medida que os anos passavam, mais selvagens esses conceitos se tornavam: "Rock Around The Bunker", "Nazi rock’n’roll" e "L’Homme A Tête De Chou", um conto à la Melody Nelson sobre amor obsessivo, sexo, morte, loucura e autodestruição, desta vez sobre uma jovem garota negra chamada Marilou, lavadora de cabelos numa barbearia masculina.
O protagonista a segue em casa, a espia fazendo sexo com roqueiros hippies, a vê se masturbando com uma revista em quadrinhos e, quando ela brinca com as investidas do protagonista, ele acaba a matando e termina ficando louco. Musicalmente, é uma mistura de rock bem lapidado, quase progressivo, suntuoso, com uma orquestra grandiosa, batidas africanas e – durante a canção “Marilou Reggae” – reggae. A imprensa francesa do rock, ligada no punk, recebeu o álbum como uma obra-prima niilista. Não vendeu.
Gainsbourg adorou as boas críticas, mas o que ele mais queria era o sucesso de público. Logo, enquanto ele continuava a escrever músicas para a velha clientela, como Françoise Hardy e Zizi Jeanmaire e para a nova, como Alain Chamfort, ele ficou obsecado em gravar um álbum com seu próprio nome que o recolocasse no topo. Seu disco bilíngue experimental no final dos anos 70, "Sea, Sex and Sun" não foi aquele sucesso. Tampouco foi o álbum conceitual (mais tarde abandonado) sobre um homem no banco de trás de um táxi londrino que havia tido um infarto e cujos flashes de sua vida lhe passavam à medida que o taxímetro corria.
O estúdio de gravação ficava numa rua suja. Cabras e galinhas perambulavam sob o sol. O engenheiro de som não estava às vistas. 
Foi então, no final do verão de 1978, que Philippe Lerichomme – diretor musical e produtor de Gainsbourg – lhe sugeriu um álbum de reggae. “Eu fui convidado para ir a uma boate num domingo à noite, ouvir uma banda de punk que tocaria à meia-noite”, Lerichomme me conta num café em Paris. “Lá estou eu, nessa boate meio vazia, nada que eu tinha escutado havia me interessado, era meia-noite e o grupo de punk não tinha começado. Durante a pausa, o DJ estava botando só coisa boa no ar – de punk a reggae. Foi aí que me ocorreu, num flash. Eram duas da manhã, eu esperei algumas horas e logo telefonei pro Serge e lhe disse: ‘a gente tem que ir pra Jamaica e fazer um álbum de reggae’, e Serge disse: ‘boa ideia!’”.
Lerichomme foi apresentado a Chris Blackwell, fundador da Island Records, cuja infância havia passado na Jamaica e fora responsável por trazer Bob Marley e outros excelentes artistas de reggae aos olhos do mundo. Eles conversaram ao telefone e Chris Blackwell sugeriu-lhe conferir alguns álbuns de reggae; Lerichomme e Gainsbourg ouviram todos. Depois de decidirem sobre o som e os músicas que queriam, Chris Blackwell os ajudou a contratar a renomada seção rítmica de Sly (Dunbar) e Robbie (Shakespeare), o percussionista Uzziah “Sticky” Thompson e, como backing vocal, as I Three – que incluía Rita, a mulher de Bob Marley. Eles agendaram uma semana do Dynamic Sound Studios em Kingston – um lugar com reputação igual a um Caribbean Muscle Shoals – e em setembro de 1978, Gainsbourg e Lerichomme voaram para a Jamaica.
O estúdio de gravação ficava numa rua suja. Cabras e galinhas perambulavam sob o sol. O engenheiro de som não estava às vistas. Sly e Robbie se encontravam lá dentro, mas as boas-vindas não foram exatamente calorosas. Gainsbourg e Lerichomme não conseguiam entender o pesado sotaque jamaicano e os músicos tampouco podiam com o inglês-afrancesado dos europeus. De prima, Sly e Robbie pensaram que Lerichomme era o artista e que Gainsbourg fosse seu empresário, sendo ele o mais velho dos dois e trajando um terno. “Foi meio tenso, ninguém sorria”, comenta Lerichomme, “e então Serge, tentando quebrar o gelo, disse: ‘vocês conhecem alguma música francesa?’, e eles começaram a zombar da gente: ‘música francesa? Nós somos jamaicanos’. Serge e eu nos olhamos cabisbaixos. E aí Sly comenta, ‘a gente só conhece uma música francesa. Uma canção chamada Je T’Aime... Moi Non Plus’, com uma garota gemendo’. Nessa hora Serge disse, em inglês, ‘It’s me!’ – aquilo mudou os humores”.
Paris, 1979: Gainsbourg com orquestra no Palace
Paris, 1979: Gainsbourg com orquestra no Palace
Sly e Robbie assumiram que aquele cara mais velho de roupa chique queria fazer um som elegante, bonito, e um enorme tempo foi gasto nesta ideia. Quando a banda começou a tocar algo mais selvagem e Gainsbourg e Lerichomme aplaudiram, fez-se a luz. Segundo Sly Dunbar: “Serge só cantava e a gente só tocava reggae, e ele não dizia nada. Ele estava dentro da música e também estava se divertindo. Ele vivia bebendo, mas nunca parecia bêbado – e fumava bastante – eu não o vi fumar ganja, só os seus cigarros franceses do maço azul. Ele na verdade não estava cantando, estava mais para um poeta recitando poemas franceses por cima dos ritmos. A gente não sabia sobre o que ele estava cantando”.
Talvez tenha sido melhor assim. “Lola Rastaquouere” era uma ode a uma garota rastafári menor de idade; “Relax, Baby Be Cool”, uma conversa de rotina contra um bando de encapuzados do Ku Klux Klan e sangue correndo pelas ruas. “Eau Et Gaz À Tous Les Étages” falava sobre um homem com o pinto para fora e peidando escada acima, enquanto “Des Laids Des Laids” era um tributo à Nana, cadela de Gainsbourg, ou conforme ele mesmo dizia “um pouco de reggae pra minha cachorra”. “Na única vez que ele disse alguma coisa”, comenta Sly Dunbar, “foi quando nós dissemos que havíamos gravado alguns instrumentos e os colocado artificialmente na música e ele disse ‘não, não, não, não, não, eu quero a coisa real, crua – simples’”. No final do dia, eles todos se sentavam no estúdio, ouviam as gravações e os músicos (fumando enormes baseados) comentavam “Ótimo! Brilhante!”.
O trabalho agora progredia rapidamente. Em menos de uma semana, conforme o programado, o álbum foi concluído. De volta à Paris, Serge se gabava à Jane [Birkin] com histórias de uma gravação no lugar mais primitivo que havia, com galos cacarejando sobre a mesa de mixagem. Ele estava muito feliz, ela comenta, e contente com o seu álbum de reggae. Ao falar com um jornalista de rock nessa época, Gainsbourg disse que amava o punk e a sua não-submissão, mas que amava o reggae ainda mais – isso porque o reggae é sexual e subversivo. O quão subversivo, ele estava pra descobrir em março de 1979 com o lançamento do novo disco, Aux Armes Et Caetera (Às Armas E Etc.).
O título era uma referência à Marselhesa, o hino francês , que segundo Serge descreveu ao jornal Libération, era “a canção mais sangrenta de toda a História”. A Marselhesa versão reggae de Gainsbourg foi o golpe de mestre. Ouvir um bando de rastafáris tocando o hino nacional foi, para os franceses, igual a “God Save the Queen” dos Sex Pistols e “Star Spangled Banner” de Jimi Hendrix enrolados em um grande e único baseado. “Não foi o Bob Marley que iniciou o reggae na França”, gabou-se Serge num de seus momentos rockstar, “fui eu”.
Em abril de 1979, quando a música-título estreou em rede nacional, os gritos abafaram completamente o escândalo de “Je T’Aime... Moi Non Plus” de dez anos atrás. Surgiram ameaças de morte. O [jornal] Le Figaro denunciou a música como um ultraje, o editor conservador Michel Droit questionou a nacionalidade de Gainsbourg e o acusou de aproveitador barato. O tom do texto foi tão antissemita que Gainsbourg, com os olhos d’água, escreveu uma longa carta em resposta ao jornal, na qual ele descreveu como foi ter vestido, enquanto um garoto judeu, uma estrela amarela no braço durante a invasão nazista em Paris.
Serge nunca se esqueceu da humilhação e da rejeição daqueles anos de guerra; na realidade, depois do sucesso de “Je T’Aime... Moi Non Plus”, a primeira coisa que ele fez foi se condecorar com uma medalha, uma estrela de Davi platinada encomendada à Cartier, como forma de exorcizar tudo aquilo que havia vivido. Rock Around the Bunker foi outro passo. Serge o assinou com seu nome de batismo – o qual ele havia mudado em 1954, quando começou a registrar suas primeiras músicas, porque achava que o seu nome soava como o de um cabeleireiro judeu – Lucien Ginsburg.
Crítica ruim da imprensa vende álbuns. Aux Armes Et Caetera foi um sucesso colossal. Não apenas em termos financeiros, mas também musicalmente. Ao conseguir o crème de la crème de músicos de reggae fazendo uma versão igualmente sombria, potente e visceral, não muito diferente do que um homem branco medieval francês de meia idade faria no microfone, surgiu ali um reggae de alta qualidade no qual, com o estilo de cantar quase discursivo de Gainsbourg, coube ali perfeitamente. (Tente comparar o reggae “Javanaise Remake” com o original de 1963). E, apesar de ser desprezado pelos nacionalistas e pela direita, ele era amado cada vez mais pelo público jovem. Do mesmo jeito que o punk inglês havia abraçado o reggae, os punks franceses adotaram o reggae de Gainsbourg. Aos 51 anos, na alvorada de uma nova década, Serge se tornou oficialmente cool.
1985: Serge com soldados franceses em Paris
1985: Serge com soldados franceses em Paris
Se foi do próprio Gainsbourg ou da gravadora, não se sabe de quem foi a ideia de levar o Aux Armes Et Caeteca para uma turnê, mas Gainsbourg insistiu em voar com a banda jamaicana. A turnê foi um sucesso de vendas. O show de abertura no Le Palace – onde foi gravado e lançado posteriormente um ao vivo – foi o mais concorrido de Paris, incluindo celebridades na plateia, das mais às menos esperadas, como Rudolf Nureyev e Roland Barthes.
Entretanto, fora da capital, o céu não era assim tão azul. Em Estrasburgo, um grupo de paraquedistas militares aposentados realizou uma petição ao prefeito da cidade para banir o show, alertando que caso ele fosse adiante, eles seriam “obrigados a intervir fisicamente e moralmente com toda a força que dispusermos”. Gainsbourg contratou um guarda-costas. Houve ameaças de bomba. Robbie Shakespeare lembra: “eu não dormi por quatro dias porque sempre que caia no sono, alguém ligava no quarto e dizia ‘Monsieur, você tem que deixar o seu quarto’”. Jane, que viajava com Serge, se lembra de ter sido acordada no hotel logo pela manhã e convidada a sair do quarto. “Todos os turistas americanos estavam furiosos por se encontrarem na grama do jardim, às duas da manhã, com um monte de rastafáris e Serge e eu em nossos pijamas”.
O show de Estrasburgo acabou sim rolando, ainda que na plateia lotada houvesse um gritante número de homens com uniforme. Jane Birkin, atrás de um grande caixa de som, assistia com pavor enquanto Gainsbourg entrava sozinho no palco. A banda não estava lá. As opiniões diferem a respeito desse assunto: Jane afirmava que Gainsbourg os mandou para casa para que ele não fosse responsável por um eventual machucado que pudessem sofrer; Shakespeare dizia que, por conta de tudo o que eles estavam passando, os músicos pediram mais dinheiro e Serge não conseguia ou não queria pagá-los.
Era então apenas um homem, um pequeno judeu branquinho sob os refletores no meio do palco. Ouvia-se gritos e balbúrdia. E foi aí que Gainsbourg cantou, à capela, “Às Armas / A Marselhesa”, como qualquer outro francês cantaria o hino nacional. Os militares não tinham outra opção senão se levantar e saudar.
Foi o estratagema perfeito – e o teatro perfeito. Gainsbourg encerrou com um gesto francês que denota desprezo: agarrou seu cotovelo esquerdo com sua mão direita e o jogou o braço acima dos ombros. “O meu pulso ficou visível o suficiente para que eles vissem o meu relógio”, Gainsbourg comentou posteriormente, uma peça absurdamente cara da Cartier, a mesma marca da qual havia encomendado sua estrela de Davi platinada. Outro lance provocativo foi ter vestido a carapuça do estereótipo de “judeu rico” que Michel Droit e o Le Figaro tanto pintavam.
Jane, que viajava com Serge, se lembra de ter sido acordada no hotel logo pela manhã e convidada a sair do quarto. “Todos os turistas americanos estavam furiosos por se encontrarem na grama do jardim, às duas da manhã, com um monte de rastafáris e Serge e eu em nossos pijamas”.
Neste show, Jane Birkin comenta, junto à enorme atenção que o Aux Armes continuava a trazer, rolou um certo delírio em Gainsbourg. Ele chegou em casa em Paris como um herói e, toda noite a partir daquela, ele insistiria a Jane para que saíssem para uma volta, que houvesse uma parada em sua homenagem, com atenção e louvor voltados a ele. Para um homem tímido, foi preciso muito álcool para bancar o durão – e isso, Jane afirma, foi o gatilho para o Gainsbourg beberrão e o surgimento do seu alterego, o Gainsbarre.
Em setembro de 1981, quase três anos após o primeiro encontro com Sly, Robbie e as I Threes, Serge Gainsbourg começou a trabalhar num segundo álbum de reggae. Lerichomme era contra a ideia: “eu sempre tentei fazê-lo estar à frente, nunca atrás ou junto” – mas Gainsbourg tinha a gravadora do seu lado e eles queriam repetir a venda milionária do Aux Armes. Então lá foi o seu fiel produtor com o cantor. Ele estaria certo por se sentir apreensivo. O estúdio desta vez – o sofisticado Compass Point nas Bahamas – não era nada parecido com aquele outro descontraído da Jamaica, e Sly e Robbie eram agora grandes empresários musicais. (Lerichomme se lembra deles andando com cópias da revista Billboard debaixo dos braços). Soma-se a isto o alcoolismo de Gainsbourg e se tem uma atmosfera fria. Tudo o que Shakespeare pôde se recordar da gravação deste segundo álbum com Serge foi que “ele parecia um pouco diferente do primeiro – é meio difícil de explicar”. Sly Dunbar diz não se lembrar nada sobre isso. Mauvaises Nouvelles Des Étoiles (Notícias Ruins das Estrelas) tinha uma letra sobre baseados, esperma, a calcinha suja de sua filha e o Mickey Mouse; uma das canções era uma porção de barulhos dentro de uma batida de reggae (Evguenie Sokolov), outra clamava que Deus era um compadre judeu (Juif et Dieu) e outra introduziu oficialmente o difuso Gainsbarre (em Ecce Homo). Para Jane Birkin que já havia vivenciado pessoalmente o Gainsbarre, aquilo foi a gota d’água. No começo dos anos 80, ela o trocou pelo diretor de filmes Jacques Doillon, o homem que Gainsbourg cantava a respeito em Vieille Canaille (Velho Canalha) em Aux Armes.
O segundo álbum de reggae de Gainsbourg foi lançado em novembro de 1981. Não houve ameaças de bomba, editoriais difamatórios, muito pouco a respeito na verdade. Mas também, nada poderia superar a novidade e a originalidade de Aux Armes, e nada poderia superar o choque de valores e a importância sociopolítica de um judeu liderando uma banda de afro-caribenhos cantando o hino nacional francês. Naquele mesmo ano, Gainsbourg comprou o manuscrito original de A Marselhesa, de Rouget de Lisle – “aquilo quase me faliu”, ele comentou, “mas foi uma questão de honra”.
Sylvie Simmons é a autora do Serge Gainsbourg: A Fistful of Gitanes, livro cujo material recentemente se tornou disponível na íntegra no mundo digital. Contém algumas atualizações.