Lincoln Ueda na demo do Tony Hawk Huck Jam, 2019
© Chris Dangaard
Skate

Lincoln Ueda: ele colocou o Brasil no mapa do skate

Lenda mundial, o Japonês Voador é figura central da história dos carrinhos
Escrito por Marcos Hiroshi
Publicado em
Em 1989, um ano depois de conquistar o título brasileiro amador, Lincoln Ueda realizou um feito que mudaria para sempre não apenas sua carreira, mas a história do skate no Brasil. Competindo com gente como Tony Hawk, Jeff Kendall e Tony Magnusson, o então moleque de 15 anos conquistou o quarto lugar no Campeonato Mundial mais importante da época, em Münster, Alemanha. Foi um divisor de águas.
A partir daquele momento (veja um trecho abaixo), os brasileiros começaram a ser percebidos e respeitados pela comunidade internacional. O skate brasileiro, finalmente, estava colocado no mapa da modalidade. E de lá não sairia mais.
Nascido em Guarulhos, na Grande São Paulo, Lincoln Ueda se criou na extinta Polato Skate Park (veja abaixo), pista da cidade conhecida por ser um bowl fundo, imperfeito e difícil de andar, características que deram a ele habilidades únicas. "As imperfeições dela [da pista] fizeram com que fosse fácil andar em outros lugares", conta.
Motivado com o quarto lugar na Alemanha, Lincoln seguiu em franca evolução até ser pego por uma crise que abateu o país inteiro: o Plano Collor, que reteve grande parte das economias das pessoas. Empresas fecharam e o mercado de skate brasileiro, ainda jovem, foi atingido em cheio. "Na Era Collor andar de skate era apenas de fim de semana, teve período em que na verdade parei completamente, a motivação não existia, patrocínios acabaram", lembra Lincoln.
Foi um balde de agua fria na carreira de muitos skatistas. Lincoln teve que adiar o sonho do skate, entrou de cabeça na oficina mecânica do pai para ajudar a conseguir o sustento da família.
Lincoln Ueda - Crooked Cop
Lincoln Ueda - Crooked Cop
Mas retomar a carreira sempre foi o objetivo. "Quando consegui, passava temporadas de um mês nos EUA e voltava pro Brasil, trabalhava na oficina, deixava tudo ajeitado, aí voltava para lá e passava mais um mês. E ficava nessa ida e vinda. Isso rolou muito tempo, até que chegou um dia que eu disse: 'Pai eu vou de um vez. Vou ficar por lá e vamos ver o que dá'. Isso foi em 1998 e minha vida mudou completamente", conta.
Lincoln Ueda, Egg Plant em Vista, Califórnia
Lincoln Ueda, Egg Plant em Vista, Califórnia
Mais uma vez o skate de Lincoln falou por ele. Seus aéreos estratosféricos, manobras plásticas, linhas velozes, estilo inconfundível e uma humildade fora do comum não demoraram a abrir portas. Começou a se destacar em competições importantes, produzir vídeo-partes para patrocinadores, passou a ser chamado para apresentações, colocando a carreira em um novo patamar e sendo elogiado por gente como Tony Hawk, Christian Hosoi e Lance Mountain.
O brasileiro no Wonderfront Festival no Ruocco Park em San Diego.
Lincoln Ueda na demo do Tony Hawk Huck Jam, 2019
Ninguém chegava aos 3 metros de altura desde a época do Hosoi
Lance Mountain, sobre a facilidade de Ueda voar alto
Lincoln conseguiu seus primeiros patrocínios americanos de um jeito inusitado. "Quando participei do campeonato Slam City Jam [1996] em Vancouver, no Canadá, o team manager das marcas Thunder Trucks e Spitfire me procurou. Ele tinha uma revista brasileira com uma foto minha na contracapa, e saiu perguntando para os brasileiros se alguém sabia onde me encontrar. No fim das contas ele bateu na porta do meu quarto no hotel, e me perguntou se eu tinha interesse em fazer parte das marcas", lembra.
Lincoln Ueda - Frontside Invert
Lincoln Ueda - Frontside Invert
Uma das fases incríveis na carreira do brasileiro foi fazer parte de um dos maiores espetáculos de esportes de ação já feitos no mundo, o Boom Boom Huck Jam, criado em 2002 por Tony Hawk. Ali estavam reunidos alguns dos melhores skatistas, ciclistas de BMX freestyle e moto-x maníacos em uma apresentação coreografada em conjunto com shows ao vivo de músicos famosos de punk e hip-hop, como Devo, Offspring e Pharrell Williams. "Foi o maior show/tour que já participei", conta Lincoln.
"Viajamos de uma costa a outra durante três anos, foi uma experiência inesquecível, tratamento de primeira, muito trabalho, mas que valeu a pena cada minuto. Eram 35 apresentações em 40 dias viajando durante o outono americano", conta.
Morando até hoje na Califórnia, Lincoln hoje está em San Diego com a mulher, Cris, e o filho, Rapha. Apesar de nunca ter forçado o filho a seguir no skate, foi inevitável não se deixar influenciar. "Dividir a sessão com o Raphael é um prazer enorme, não tenho nem palavras para descrever minha felicidade, ele adora skate, me faz lembrar muito a época em que eu comecei, queria andar todos os dias, vivia skate 24 horas por dia, sete dias por semana", fala.
Nesses 33 anos de skate, a única coisa que não mudou foi o meu amor pelo esporte, o amor pelo nosso estilo de vida
Lincoln Ueda
E como é hoje o dia a dia de skatista? "Não tenho uma rotina para se andar, eu trabalho com skate o dia todo na CATF [California Trainning Facility], sou diretor do programa de skate, e lá também ensino desde dos iniciantes até os profissionais. Estou em cima do skate pelo menos sete horas por dia. Skate é minha vida", fala.
Além disso, Lincoln hoje também divide o tempo cuidando da sua marca de rodas, a Alta Wheels, que patrocina gente como Tom Schaar e o lendário Christian Hosoi, que hoje também é um dos patrocinadores do Ueda. "Ser patrocinado pelo Hosoi é uma viagem total, cresci assistindo aos vídeos dele, ele sempre foi uma inspiração pra mim. Somos amigos e levamos os filhos pra andar de skate juntos. Quem imaginaria essa situação? Hoje ter o Christian na minha marca é muito louco", diz.
Eu sempre idolatrei o Lincoln pelo estilo dele andar. Sempre me impressionou por ele voar muito
Lincoln Ueda - Lien Air One Footed
Lincoln Ueda - Lien Air One Footed
E, afinal, o que mudou desde sua conquista na Alemanha em 89 até hoje? "O skate me fez viajar o mundo, me deu muitas amizades, mudei de país, aprendi uma nova língua, uma nova cultura, realizei sonhos. O skate me fez mais forte em todos os sentidos, se tornou minha profissão, me fez mais sociável, paciente, responsável, me deu chances e escolhas, me ensinou valores, me deu esperança, o skate me fez uma pessoa melhor. Quem imaginaria que esse brinquedo de madeira com quatro rodinhas contaminaria gerações?", brinca.
Lincoln Ueda e seu Lien Air estratosférico
Lincoln Ueda e seu Lien Air estratosférico
Baixe o app da Red Bull TV e tenha acesso a todos os nossos vídeos! Disponível na App Store e na Play Store.