Imagine um palco cheio de artistas, só que em vez de música e instrumentos, o que se vê são bordas de pedra e o que se ouve é o barulho de manobras de skate. O cenário do Vale do Anhangabaú era assim há quase três décadas, um reduto de skatistas bem no centro de São Paulo. O que mudou? Muita coisa. E, se você é dos carrinhos, pode dizer que mudou pra melhor.
O Vale como local para o skate era despercebido pela galera que transitava pelas calçadas portuguesas, ali no centro da cidade, mas foi valorizado nos anos 90 por quem faz a cena acontecer. Um pessoal que adotou o local e ali fez projetar grandes talentos.
Em 2019, teve início um projeto de revitalização do local, que poderia condenar todo o pico emblemático da história do skate brasileiro. Antes de ser derrubado, skatistas se uniram e lutaram por um espaço digno para a demanda de praticantes.
“Protestamos na frente da Prefeitura com megafone, fizemos abaixo-assinado, saímos em reportagem na TV aberta, usamos as redes sociais para unir toda a cena e mostrar a nossa insatisfação”, conta Murilo Romão, skatista e protagonista de todo o processo.
Inicialmente, a proposta da Prefeitura se resumiu à substituição do clássico monumento composto de arquibancadas por uma pista padrão, com rampas e corrimões. Cientes da possível tragédia, os amantes do spot criaram o movimento Salve o Vale!, criando soluções pra atender da melhor forma às necessidades do skate e da cidade. A partir disso, nasceu a ideia da construção de um memorial "skatável".
Klaus Bohms foi um dos que acompanharam de perto cada momento da obra. “Se tivéssemos uma skatepark, isso iria condicionar a liberdade criativa que é explorada no skate de rua. A sorte é que encontramos o arquiteto Rafael Murolo, que também é skatista. Ele foi uma peça perfeita pra chegarmos na construção ideal do lugar que chamamos de memorial”, diz Klaus.
“A grande lição que fica é a união. Um exemplo pra que outros skatistas também se mobilizem"
O trabalho a quatro mãos resultou na preservação das pedras originais do Vale, que foram reutilizadas em homenagem ao antigo templo. Outra iniciativa, criada por Murilo Romão, foi a produção independente de dois livros impressos com imagens, depoimentos e curiosidades desde a última reurbanização. Os relatos de diferentes gerações comprovam que o espaço foi inspiração pra lendas como Alexandre ZikkZira, Anjinho, Bob Burnquist, Catarina Huh, Marcelo Formiga, Gian Naccarato, Rodrigo TX e Sucrilhos, entre outros.
Baixe agora o app da Red Bull TV e tenha acesso a vídeos, filmes e séries!