Música
Warm-up! #1: Facundo Guerra
O sócio do Cine Joia e do Riviera estreia a nossa coluna mensal com gente que faz a noite acontecer.
"Boemia, aqui me tens de regresso." O verso inicial de "A Volta do Boêmio", de Nelson Gonçalves, diz respeito a um sujeito que encontrou um amor, mas jamais desistiu da vida noturna e dos amigos que ela agrega. O trecho também pode ilustrar a trajetória do empresário Facundo Guerra, 40 anos. Ele é o que se pode chamar de uma pessoa "da noite" (atualmente é sócio de seis casas). Além disso, a palavra "regresso" tem forte importância na identidade dos negócios em que se envolve. Além de espaços moderninhos, como o bar VOLT e os clubes Lions e Yacht, ele também administra estabelecimentos que mantêm uma estreita relação com o passado.
No final de 2013, em parceria com o chef Alex Atala, ele reabriu o bar Riviera, antigo reduto da boemia intelectual paulistana entre as décadas de 50 e 80. Em 2011, em parceria com o jornalista Lúcio Ribeiro, entre outros, abriu a casa de shows Cine Joia, em que recuperou muito da estrutura de um antigo cinema na Liberdade. Além da Z Carniceria, na rua Augusta, montada onde costumava funcionar um açougue. Fora essas correlações, todos os seus endereços estão no Centro de São Paulo, no que considera um esforço para recuperar a identidade e a memória paulistanas.
Facundo estreia a primeira edição da coluna Warm-Up!, que, mês a mês, vai destacar alguns dos protagonistas da noite paulistana. Na entrevista a seguir, ele revela que não bebe, diz ter sido "coxinha" e relembra os períodos áureos do Baixo Augusta, quando administrava o Vegas, uma das primeiras casas - para diversão "devidamente vestida" - na região, que funcionou entre 2005 e 2012. Confira:
Tudo começou com o Vegas. O que te motivou, naquela época, à abrir uma casa no Baixo Augusta? Como era a vida noturna por lá? Que outras casas haviam na área (além, claro, das de shows eróticos)?
Na verdade, a motivação foi mais uma pressão econômica e questão territorial do que uma escolha estética. Eu morava a uma quadra da Augusta e ela era meu território à noite. Jantava nos restaurantes da região, enfim, era uma rua calma, com a exceção talvez da madrugada, quando o comércio de mulheres trazia uma certa intensidade para o lugar. A Augusta tinha recebido alguns galpões voltados à indústria têxtil na década de 1950 e eles eram baratos em termos de aluguel. Muito baratos, na verdade. Um galpão reúne as condições ideais para abrigar um clube: pé direito alto, sem divisões internas, robustas instalações elétricas. Como na época que o Vegas foi idealizado não tínhamos um centavo no bolso, a Augusta foi a única região onde poderíamos nos instalar. Na época existia uma casa de shows de rock chamada Outs [ainda por lá], o Sarajevo e botecos, além dos puteiros. Nada mais. Nenhum desses negócios era voltado para a elite intelectual e a classe média, e acho que, por conta do Vegas ter tido em seu núcleo inicial membros dessas classes, foi despertada a atenção da mídia, depois de outros empresários, num efeito bola de neve que culminou no que chamamos hoje de Baixo Augusta.
Quais foram as pessoas da noite no Centro que mais te marcaram na época?
Eu cheguei tarde no que se chama de noite: tinha 30 anos e não tinha vivido nada da época áurea da geração 90, os clubbers, os clubes clássicos, mesmo a música eletrônica para mim era estranha. Então tive muito o que aprender, e aprendi com os melhores: lembro de ficar horas na porta do Vegas com o Edu Corelli me contando as histórias e casos da noite nas décadas passadas. Ele foi uma espécie de Obi Wan Kenobi meu, junto com o André Juliani, que tinha sido dono do Pix, um dos clubes mais legais que São Paulo teve, e que me ajudou a cuidar da programação nos primeiros anos do Vegas e mais tarde se tornou meu sócio no Joia.
Eu era um coxinha, um burocrata de corporação que tinha sido demitido e, com o dinheiro do FGTS, resolveu apostar num galpão para música que mal tinha um soundsystem
Qual foi a situação mais absurda que você viveu?
Para ser muito sincero com você, tudo era absurdo: eu era um coxinha, um burocrata de corporação que tinha sido demitido e, com o dinheiro do FGTS, resolveu apostar num galpão para música que mal tinha um soundsystem. O Vegas abriu sem ar condicionado, som e luz - basicamente, o que deve compor um clube -, em meio aos puteiros da Augusta. Então, do dia pra noite, literalemente, eu mudei de período, de mundo, e não estava preparado para aquilo: nunca bebi álcool ou usei qualquer tipo de entorpecente (não por restrições morais, mas porque não sou compatível com eles). Foi uma época estranha, da qual me recordo muito pouco. Foi um pouco como enlouquecer, imagino. Eu perdi meu chão.
Com a sua experiência adquirida, como trabalhar em casa noturna e não beber todo dia? O que, na sua opinião, é uma dosagem balanceada?
Eu nunca bebi na vida, então imagino que ter um bar à sua disposição e gostar de beber deve ser algo muito difícil de administrar.
Com os anos você se tornou uma pessoa notívaga? Como são os seus horários hoje?
Não. Não consigo dormir muito além da meia noite e acordar depois das sete, oito da manhã. Sou uma pessoa diurna. Mesmo quando trabalhava com o Vegas, que foi o clube que mais exigiu fisicamente de mim, eu tinha de trabalhar à noite toda como barman, atrás do bar, para me manter acordado. De braços cruzados, sem fazer nada, já cheguei a dormir vergonhosamente nos sofás da casa
O que é mais legal em trabalhar à noite?
É um outro mundo, uma outra ética, o mais próximo que podemos chegar de uma liberdade condicionada. É o período onde as pessoas são livres para serem o que quiserem, sem amarras. Isso é bom e ruim, logicamente. É também triste saber que as pessoas são tão oprimidas durante o dia que só podem ser elas mesmas à noite.
Trabalhar com noite tem muito de vida e morte: muitos nasceram fruto de relacionamentos que aconteceram no Vegas (eu, pessoalmente, conheço mais de dez bebês filhos de Vegas) e alguns morreram ao dirigir embriagados ao sair de lá. Montar um clube é criar uma situação em que você vai lidar com forças criadores e destrutivas. Isso é muito, muito intenso.
O que não é tão legal em trabalhar à noite?
A noite é uma espécie de câmara de reverberação das qualidades, defeitos e vícios de cada um: ela amplifica o melhor e o pior. Pessoas que já são mal educadas e infelizes se tornam insuportáveis depois de dois drinques. Conviver com esse tipo de gente, que acha que a despeito de tudo "o cliente tem sempre a razão" é, muitas vezes, insuportável. Especialmente de cara limpa, como eu e minha equipe temos de estar, dia após dia, no exercício de nossas funções.
Como resistir às "tentações" que a noite paulistana oferece dia após dia?
Tudo fica mais acessível, todos estão ali para se aventurar, para celebrar algo, para esquecer algo. Enfim, o que une as pessoas em um clube é essa proximidade com o risco, como se fosse uma licença de poucas horas para coisas acontecerem.
Mas você sempre você resistiu?
Eu não resisto. Raras vezes saio para lugares que não são meus, e se o faço é com algum objetivo específico. Se vou para algum lugar meu, estou a trabalho e para dar o exemplo. Não posso deixar que a minha equipe me veja como um fanfarrão, e nem tenho vontade disso. Eu me divirto em casa, com minha família e amigos, e não nas minhas casas.
E nunca sucumbiu?
Quando trabalhava no Vegas, em seus primeiros anos. Mas era deslumbrado, mais jovem, e nunca tinha experimentado sair à noite, então tudo bem.
O passado é sempre conservador. Essa nostalgia é venenosa. O presente é que nos interessa, mas sem perder o respeito pela nossa história e identidade
Qual é sua lembrança mais remota na noite paulistana? Quando você começou a sair "pra balada"? Que lugares/regiões frequentava?
Eu comecei a trabalhar muito cedo, com 13 anos, e sempre estudei com bolsas de estudo, que exigem desempenho acima da média. Deixei de sair centenas de vezes com meus amigos porque tinha uma prova para estudar. Quando saía, nunca tinha dinheiro, precisava pedir emprestado ou fazer algo gratuito, como perambular pela Augusta na década de 1990. Sempre fui do Centro e por aqui me criei. Então não tenho memória de ir a clubes ou boates quando adolescente ou já adulto. Fui em algumas, logicamente, mas não era um hábito.
O nome, a estrutura e a decoração do Cine Joia foram resgatados do cinema original. Recentemente vocês reabriram o Riviera. Por que esse fascínio pelo passado?
Acredito que São Paulo, tão carente de cartões postais, é uma cidade voltada para dentro, e não pra fora, como o Rio de Janeiro. Uma cidade de paisagens humanas, não naturais. E uma cidade artificial, porque não existe uma São Paulo, existem várias, colapsadas nessa abstração que chamamos de cidade. A identidade de um paulistano é difusa: não é difícil ele confundir a bandeira do Estado de São Paulo com a de sua cidade. A cidade cresceu tão rapidamente, de maneira tão desordenada, que perdeu a sua memória. Resgatar esses lugares e redimensionar o seu uso para o agora é uma tentativa de responder essa pergunta: afinal de contas, que catzo é ser paulistano? O que nos torna paulistanos? Eu acredito que a chave para esta resposta está nos lugares frequentados pelos nossos pais e avós, e não em eleger a Avenida Paulista, essa rua de banqueiros, como nosso cartão postal.
Você frequentava o Riviera? O que te chamava a atenção por lá? Sente que conseguiu manter a alma do original?
Cheguei a ir ao Riviera depois de uma sessão ou outra no Belas Artes. Nunca fui de bares, mas o Riviera, por eu ter sido criado em meio a comunistas, sempre foi para mim o mais próximo a uma igreja que um comunista pode ter. Na minha imaginação, era lugar de culto, de conspiração. Cheguei tarde à festa: os últimos anos do Riviera foram tristes, ele mal se mantinha em pé, tendo perdido a clientela interessante por passantes atrás de rabos de galo.
O Riviera não era só arquitetura, ele era formado por pessoas. A comida era barata, o lugar vivo, as pessoas interessantes e interessadas na vida cultural da cidade. Todas as três características estão no Riviera de hoje. Então acredito que fiz jus ao Riviera, sim, apesar de não ter criado uma emulação do primeiro Riviera. Era essa a armadilha: tentar fazer uma simulação nostálgica do passado. O passado é sempre conservador. Essa nostalgia é venenosa. O presente é que nos interessa, mas sem perder o respeito pela nossa história e identidade.
