Yung Lean se apresentando no Sónar Reykjavik
© Pedro Falcão
Música

Yung Lean quer dar rolê com os funkeiros do Brasil

Conversamos com o rapper sueco sobre cultura de internet, Dragon Ball e o futuro da música.
Escrito por Pedro Falcão e Sarah Blue
8 min de leituraPublished on
No meio do show do Yung Lean e dos Sad Boys no Festival Sónar em Reykjavik, capital da Islândia, eu virei a câmera que estava apontada pros artistas para dar uma olhada na plateia. Na grade, vi um moleque loirinho, com os olhos vidrados, ao lado de outros moleques loirinhos, amigos dele, todos de boca aberta ou berrando pedaços desconexos daquelas músicas que estavam tocando, sobre jogar videogame, usar drogas e dar rolês.
Nenhuma daquelas crianças usa drogas ou dá rolê (apesar de jogarem videogame, pode ter certeza), mas isso não os impedia de cantar e pular junto com o Yung Lean, mestre de cerimônia absoluto do show que estava acontecendo naquele palco. Quando ele percebeu que eu estava tirando foto, mudou a expressão no seu rosto: mostrou a língua e o dedo do meio, parecendo bravo que um jornalista estivesse registrando esse momento dele. Eu abaixei a câmera. Ele imediatamente baixou a mão e sorriu, um dente-de-leite faltando na frente.
Crianças islandesas na grade do Yung Lean

Crianças islandesas na grade do Yung Lean

© Pedro Falcão

Além da ala de moleques colados na grade, a maioria das pessoas que estavam ali não pareciam entender muito bem o que Yung Lean e Yung Sherman estavam fazendo atrás do microfone e computador, respectivamente. O palco estava lotado, não de fãs, mas de curiosos, pessoas querendo saber o que aqueles suecos dos vídeos na internet podiam fazer ao vivo. Lean deve ter percebido isso assim que subiu no palco, porque respondeu berrando todas as letras das músicas do show. A sua voz foi ficando rouca e, com cada música, o rapper parecia cansado. Pensei que deve ser exaustivo fazer turnê com os seus amigos, mesmo para um cara enérgico que nem o Yung Lean. Depois do primeiro ano na estrada da carreira, a viagem acaba te esgotando. E a Islândia fica longe pra caramba.
Horas antes de Yung Lean subir no palco, ele estava me procurando no backstage do festival. O seu empresário, um moleque magrinho de boné, da mesma ou ainda menor idade que Lean e seus parças, apontou para mim de longe. Lean, que depois descobri que se chama Jonatan Håstad, veio me cumprimentar. “Estou ansioso pra nossa entrevista”, ele apertou a minha mão, sem realmente parecer ansioso pra nossa entrevista. Atrás dos ombros dele, seus amigos só olhavam e concordavam com a cabeça. “É que a gente curte muito funk brasileiro.”
Yung Lean & Sad Boys

Yung Lean & Sad Boys

© Pedro Falcão

Lean tinha acabado dar uma entrevista em vídeo para um canal italiano que, julgando pela animação circense da apresentadora na frente da câmera, parecia que ainda tratava o rapper e seus Sad Boys como uma curiosidade de internet. Sentamos nuns sofás atrás dos caixotes de equipamento do Skrillex para conversar. Ele se encostou sem tirar o casaco no assento na minha frente, enquanto os outros dois caras da sua patota pulavam de sofá em sofá do nosso lado, como se fizessem isso toda vez que o seu amigo famoso desse uma entrevista.
Com pausas longas e suspiros altos, Yung Lean trocou uma ideia sobre seus videogames favoritos, como é dar rolê pelo mundo com seus brothers, o lado ruim da internet e por que ele acredita que a nova geração de MCs brasileiros representa o futuro da música em todo o mundo.

Red Bull: Que jogos você anda jogando ultimamente?

Yung Lean: Tô jogando Super Smash Bros. Também comprei um boneco do Warhammer. Eu não quero jogar Warhammer, só quero montar esse boneco. Comprei um Skaven, que é tipo um rato gigante.

Mas você não gosta de jogar Warhammer?

Nada, se eu começar a jogar fico muito viciado. Então eu vou só montar e pintar esse boneco, saca? Quero usar esse boneco como um lance de meditação.
Quais são os seus jogos favoritos? Ou pelo menos, quais os que mais te influenciaram?
O Nintendo 64 em si, e tipo, os jogos clássicos da série Super Mario... eu joguei muito esses.
E você acredita que a estética desses jogos tenha acabado influenciando as suas músicas?
É, acho que esses jogos me influenciavam há três anos, mas não mais. Hoje, não tenho a mínima ideia do que realmente me influencia.

Dessa época, tem alguma trilha sonora de videogame que te influenciou também?

Tem um cara, não lembro do nome... ele compôs a música do Lugia no filme Pokémon 2000 [John Loeffler, americano compositor da versão ocidental do filme]. Eu fico bastante com essa música na cabeça, não sei por que.

Qual é a sua combinação favorita de jogos e drogas?

Hm... ketamina e jogos de corrida (risos).
O Thaiboy Digital, dos Sad Boys, está sendo deportado da Suécia pra Tailândia. Quais são as suas críticas ao governo sueco em relação a essa situação?
Eu não sei. Não sou um rapper político, não gosto de fazer declarações políticas. Só quero que o meu amigo Thaiboy seja libertado. Ele deveria ter os mesmos direitos que todo mundo do país. Ele é mais sueco que eu. Ele, por exemplo, terminou a escola. Eu nem isso terminei.
O rap no Brasil é bastante associado com os acontecimentos políticos e sociais do país. Como você vê o rap sueco refletindo sobre a sua sociedade?
Isso acontece bastante. No momento, acabamos de trocar de governo, então não sei muito bem o que podemos dizer sobre ele. Mas há 20 anos, o governo parecia se importar mais com a sociedade, enquanto hoje em dia está mais preocupado com o indivíduo. Mas acho que isso é só uma mudança do tempo, mesmo.

Mas você acredita que o rap ainda tenha o que falar da sociedade sueca atual?

Claro, você pode falar sobre qualquer coisa. Mas acontece que não temos problemas de verdade na Suécia, eu acho. Não tem ninguém na Suécia que precise fazer rap para encarar uma vida difícil. Você não pode falar sobre problemas que não existem.

Tem alguma influência de cultura brasileira na sua música?

O filme Cidade de Deus foi uma grande inspiração para mim. Mas principalmente MC Bin Laden, MC Pikachu, MC Brinquedo... tem aquela do MC Pedrinho, “Matemática”, essa música é um clássico. Acho que seria da hora... Eu quero ir para qualquer lugar no Brasil e só dar um rolê com esses caras. Quero muito estar lá nos vídeos das músicas deles.

Por que você acha que a música desses MCs é importante?

Esses caras são o futuro da música, cara. Eles são jovens. Eles fazem músicas incríveis e tem muita energia. Acho que eles e a música deles representam a juventude em qualquer lugar do mundo. E faz sentido, eles são do Brasil. É daí que vem as ideias do futuro. Eles vão crescer e essa música é o que vai influenciar os artistas amanhã.
Sua música e a estética que você usa tem muita influência da cultura gerada na internet. Quais você acredita que são os pontos positivos e negativos da influência da internet na música hoje em dia?
O ponto negativo é que as pessoas acabam se tornando uma só. Porque a internet acaba limitando, digamos, a sua biblioteca de informações. Apesar de tudo, todo mundo está tirando as mesmas referências do mesmo lugar. Já o lado positivo é que hoje é muito mais fácil se relacionar com outras pessoas justamente por pensarem igual a você.
Eu percebi que muita dessa cultura de internet acaba informando a sua música, mas você, pessoalmente, evita ficar nas redes sociais.
Sim, sim, isso é verdade. Acho que é aquele lance, você acaba odiando o que cria. Por exemplo, eu não tenho um Tumblr, mas acabo vendo algumas imagens que saem de lá. Eu não passo muito tempo na internet. Quando estou num computador, tento só ler alguma coisa importante.
Você assistiu bastante desenho japonês na TV quando era pequeno também? Além de tokusatsus e super-sentais...
Sim! Quando eu era criança eu via muito tudo isso. Mas acho que isso foi algo que acabei buscando sozinho, não estava sempre na TV. Eu amava Dragon Ball.

Esses desenhos e seriados acabaram te influenciando de alguma maneira?

Com certeza. Acho que tudo o que você vê e sente te influencia, mesmo sem você perceber.
O que você acredita que faria se não fosse um rapper dando rolê com seus amigos pelo mundo?
Nada! Nada mesmo. Talvez andando de moto (risos).
Vocês são bastante jovens e começaram a fazer show antes dos 18. Vocês acabaram se encrencando por conta disso?
Claro, mano! A gente sempre se mete em encrenca. Antes não rolava nem de entrar nos meus shows. Em Gotemburgo isso acontecia direto. Me marcavam para um show, eu chegava na porta e não me deixavam entrar. Aí a galera ficava na porta, “Não, ele é o artista, deixa ele entrar!”, e aí me botavam para dentro. Não consigo pensar exatamente num exemplo agora, mas a gente normalmente se mete em encrenca, sim.
E como você reage quando acabam te julgando por você ser muito novo? Por que você acaba fazendo rap sobre assuntos bastante maduros.
Eu não reajo, cara. Eu não ligo, de verdade. Acho que quando me julgam por conta da minha idade, isso diz mais sobre a pessoa do que sobre mim.