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Kayaking

A aventura de Aniol Serrasolses na Islândia, o país das cascatas

Aniol Serrasolses e Mikel Sarasola aventuraram-se de kayak pelas maravilhosas cascatas da Islândia para filmar o projeto Jötunn. Vê aqui o que aconteceu.
Escrito por Mikel Sarasola
6 min readPublicado a
Jötunn: o nome deste projeto que não vai deixar ninguém indiferente. Aniol Serrasolses e Mikel Sarasola, acompanhados pelos fotógrafos Aleix Salvat e David Nogales, aventuraram-se de kayak pelas paisagens geladas da Islândia. Vê o filme acima e podes saber mais abaixo como todo este projeto se concretizou, nas próprias palavras de Sarasola, assim como ver imagens incríveis de Nogales e Salvat.
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Jötunn, uma exploração do interior

Jötunn é um documentário no qual tentámos ensinar a aventura da exploração por dentro. Até porque os praticantes de kayak radical não são simplesmente malucos que se atiram de cascatas. São pessoas que preparam cada descida com cuidado e que passaram a vida a trabalhar na técnica de forma a poderem fazer algo que a maioria consideram extremamente perigoso. Têm uma conexão especial com água e rios. A coisa menos importante é uma foto espetacular, porque habitualmente tudo o que é importante acontece com a câmara desligada. O mais importante é estares ali a aproveitar a tua paixão, então no Jötunn tentámos mostrar o que normalmente não é visto.
Aniol Serrasolses dropping a waterfall in Aldeyjarfoss, Iceland on June 22, 2021
Going for it through the spectacular basalt rocks of Aldeyjarfoss waterfall

Islândia: terra de cascatas

Uma cascata é - provavelmente - a formação mais estética e hipnótica que podes encontrar num rio e se é há um país que se destaca nesta área, é a Islândia - que atravessa um crescimento de turistas, baseado maioritariamente na sua natureza impressionante: vulcões, glaciares, fontes termais e, claro, cascatas. Skogafoss, Godafoss, Dettifoss and Svartifoss são apenas algumas das paragens obrigatórias que enchem revistas e as redes sociais com fotos incríveis. Não surpreende o interesse que esta pequena ilha perdida no Ártico suscita entre os amantes de extreme kayak.

Um projeto 'DIY'

Como habitual nos projetos audiovisuais de kayak, remávamos e tratávamos das filmagens, e neste caso da direção e edição da peça final também. Então era crucial para nós ter um operador de câmara que fosse um kayaker de primeira linha - foi assim que o Aleix Salvat se juntou ao grupo. No fim, o projeto ficou cada vez maior e nos últimos instantes fomos acompanhados pelo David Nogales, fotógrafo de mountain bike, que nos ajudou com a logística, as filmagens e, claro, a tirar boas fotografias.
Aniol Serrassolses numa cascata no desfiladeiro Stuðlagil, Islândia, em 19 de junho de 2021.
Margens estreitas na ravina de Stuðlagil

Preliminares infelizes

Meados de junho é normalmente o período de grande degelo na Islândia. Segundo os moradores, o verão está adiado este ano e ainda há muita neve nas montanhas. Deixamos Reykjavik em direção ao sul para explorar os primeiros vales. Localizado no sudeste, Vatnajökull é o maior dos 4 campos de gelo do país. Na sua parte sudoeste, há uma área em que os glaciares estão relativamente distantes do mar e onde longos rios se concentram num perímetro muito pequeno.
Na estrada, visitámos vários vales, mas em todos os lugares o nível da água continuava baixo. A temperatura dos rios não ultrapassava os 5°C. O tão desejado derreter do gelo ainda não havia chegado. Estávamos frustrados e dececionados. Com rios tão secos, não adiantava continuar. O desespero estava a surgir.

Uma descoberta reveladora

Decidimos ir para o norte. Sabíamos que lá existiam algumas cascatas muito famosas como Godafoss, Aldeyjarfoss e Ullerfoss, que provavelmente tinham fluxo. A nossa rota parecia mais uma viagem turística do que uma exploração de kayak. Parámos em vários pontos marcantes, como o desfiladeiro de Studlagil, que possui gigantescas paredes de basalto. Como turistas de verdade, planeámos remar um pouco na área e tirar algumas fotos. Mas quando nos aproximámos, pouco antes do desfiladeiro, descobrimos uma afluente formada por impressionantes sequências de cascatas acessíveis de kayak. Pegámos nos drones e seguimos o rio por vários quilómetros. Havia potencial, aqui estava finalmente uma missão para nós!

Tempo de ação!

Na manhã seguinte, pusemos os kayaks às costas e lá fomos nós. Uma cascata de 30 metros de altura marcou o início da secção mais interessante. O rio era estreito e cercado por imensas paredes vulcânicas. Uma espécie de oásis de felicidade numa viagem que, naquele momento, permanecia terrivelmente seca.

Chamada de atenção

Um amigo nepalês juntou-se a nós para descer Godafoss, uma cascata de 12m de altura. Mas à segunda tentativa, caiu muito mal e partiu as costas. O nosso colega precisava de tratamento no hospital. Depois de vários meses de descanso vai ficar totalmente recuperado, mas esse alerta lembrou-nos o quão exposto ficas quando desces uma cascata. Até mesmo o menor erro pode custar caro. Tens de manter sempre a concentração, mas ao mesmo tempo isso não te deve parar.
Aniol Serrasolses a descer uma cascata em Fossa, Islândia, a 29 de Junho, 2021
A descobrir uma das muitas cascatas de Fossa

Um salto épico

Chegados ao norte da ilha, fomos para Ullerfoss e Aldeyrjarfoss. Estranhamente, os rios nessa zona estavam mais altos do que o normal. Nunca tinha visto imagens de Aldeyrjafoss deste tamanho. O fluxo da cascata engolia-te. A piscina abaixo parecia uma enorme máquina de lavar. Junta-lhe um vento forte e tens todos os ingredientes para uma descida que promete ser complicada.
Mas Aniol Serrasolses não é um kayaker comum. Ele apercebeu-se imediatamente da linha correta e ganhou coragem para descer. Eu fui à piscina para ajudar se algo corresse mal. Ele levantou a mão e lançou-se na cascata. Perdido no enorme fluxo, perdeu a posição e foi engolido pela cascata. O Aniol desapareceu por alguns segundos, mas finalmente emergiu mais abaixo. Depois de várias falhas, foi forçado a desistir do seu kayak. Por sorte, a corrente trouxe-o de volta para uma área segura. Ufa!

Rumo a este

A previsão do tempo estava a ficar favorável, então fomos para Este em busca de novos rios. Estávamos acampados perto de Kelduà, um rio descoberto em 2015 com um trecho de 10km que conecta cascatas. Acordámos ao nascer do sol. Finalmente, o verão havia chegado à Islândia. Com os barcos nas costas, partimos para uma caminhada de 8km. Descer tudo levou-nos o dia inteiro. Passámos por 15 cascatas. Só aquele dia já tinha valido todo o esforço feito desde o início da viagem. Um dos melhores momentos da minha vida na água.
Aniol Serrasolses numa sequência de três cascatas seguidas no rio Keldus, na Islândia, a 25 de Junho, 2021
Um passo de cada vez

Gilsá – 'para os que conseguirem'

A aproveitar o grande número de rios localizados a este e os fortes fluxos, restava explorar mais a área de Egillstadir. Fagradalsà e Kaldaviskl são os dois rios que mais gostei nesta área. São compostos por secções curtas e corredores estreitos, mas também cascatas espetaculares.
O último rio da viagem foi o Gilsà, perto do Lago Logurinn. Esta é provavelmente a zona mais técnica encontrada na Islândia. E, no entanto, é também a menos visualmente espetacular. Gilsà tem uma secção de classe 5 com uma série interminável de rápidos. Não há como descansar por 3kms. Era apenas para aqueles que conseguiam. Remar ali requeria concentração constante e não permitia erros.

Pensamentos finais

E assim passaram as nossas 3 semanas a explorar os rios da Islândia. Esta viagem começou com imensa frustração no sul e depois transformou-se num verdadeiro paraíso no este. Meses de preparação, altos e baixos, assim como qualquer aventura que se preze. Depois de um ano a seco, voltámos às expedições com amigos, como se fosse um novo início. É na natureza e nos rios que nos tornamos nós próprios, florescemos. Não consigo pensar num lugar mais mágico do que a Islândia para recomeçar.