Ultrarunning
Brasileira estabelece mais um recorde, agora no pico mais alto da Oceania. E quer mais
Fernanda Maciel redefiniu (de novo) os limites da resistência humana. Quando a ultramaratonista parece já ter superado todos os limites, vai lá e prova que pode sempre se testar ainda mais.
Dessa vez, Fernanda quebrou o recorde de subida e descida mais rápidos do pico mais alto da Oceania, a Pirâmide de Carstensz. A montanha de 4.884 m, também conhecida como Puncak Jaya, fica em Papua-Nova Guiné 🇵🇬.
Percorrendo 3,41 km desde o acampamento base, a 4.300 m de altitude, Fernanda escalou 582 m verticalmente até o pico, sobre rochas superíngremes, em apenas 1h04min. Seu percurso de ida e volta, que durou em 1h48min, é o novo recorde registrado pela SkyRunning World Records.
Veja o momento em que Fernanda conseguiu o recorde
Foi tecnicamente exigente e estimulante. É um cume especial e me desafiou como eu não esperava
Achou impressionante? Esse foi só um dos muitos feitos incríveis dessa ultramaratonista de montanha. Conheça 11 curiosidades sobre Fernanda Maciel e sua carreira extraordinária.
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Faltam dois
Fernanda tem um objetivo bem claro: quebrar o recorde em cada um dos Sete Cumes — os picos mais altos de cada um dos sete continentes. Até agora, ela já tirou cinco deles da lista:
- Aconcágua (América do Sul) - 22h52min0s
- Kilimanjaro (África) - 7h8min0s
- Elbrus (Europa) - 7h40min0s
- Vinson (Antártida) - 9h41min38s
- Puncak Jaya / Pirâmide de Carstensz (Oceania) - 1h48min
Os dois picos restantes são o Denali (América do Norte) e o Everest (Ásia), que a brasileira pretende escalar em 2026.
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Advogada ambiental
Antes de se dedicar em tempo integral à ultramaratona, Fernanda trabalhava com questões jurídicas ligadas a meio ambiente no Brasil. Ele trabalhou por cinco anos como advogada, mas há 15 anos decidiu se afastar.
"Não sinto falta disso. Optei por deixar meu trabalho como advogada. Quando você trabalha pro estado e pro país, percebe que há muita política envolvida, muita coisa burocrática."
No entanto, seu antigo trabalho de certa forma e motivou a completar o desafio pessoal dos "Sete Cumes". A cada subida ela chama a atenção pros ecossistemas mais frágeis do planeta, com o objetivo de inspirar ações coletivas de preservação e sustentabilidade. "Espero que as pessoas possam ver o poder da natureza por meio de minhas viagens e se sintam motivadas a protegê-la", diz ela.
Desde os 15 anos de idade, eu sabia que minha missão no mundo era proteger o meio ambiente
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As duas inspirações
A brasileira tem duas inspirações: a pioneira Hilaree Nelson, montanhista de esqui, e Alex Honnold, que se tornou o primeiro homem a escalar o El Capitán, em Yosemite, nos EUA. Seu feito deu origem ao filme "Free Solo", vencedor do Oscar de melhor documentário em 2019.
"Alex criou sua fundação, e eu apoio isso. Acho que é muito interessante, como atleta, você poder ajudar".
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Nadia Comaneci
Na infância, Fenanda foi uma ginasta e sua inspiração era Nadia Comaneci, a romena que ficou famosa por ter conseguido a primeira sequência de notas 10 para ganhar o ouro olímpico em 1976.
"Ela era a única que tinha a perfeição", disse a brasileira. "E isso deve ter exigido muito treinamento também. Em alguns esportes, você pode treinar e ser campeão, mas, na ginástica, é uma loucura, há muito treinamento, mas também habilidades. Pra mim, ela estava realmente atingindo o máximo de seu potencial."
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Um sonho: o Everest
"Meu projeto dos sonhos é o Everest, mas é muito dinheiro. Espero que eu possa fazer isso no futuro. Eu realmente preciso adquirir mais experiência. No próximo ano, pretendo correr 8.000 m nas altas montanhas porque preciso ter essa experiência em alta montanha e também conhecer minha velocidade."
Esse sonho está cada vez mais próximo de se tornar realidade, com uma tentativa de escalar o Everest marcada para 2026.
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Avô lutador de jiu-jítsu
A família de Fernanda tem o esporte no sangue. Ela vem de uma linhagem de lutadores. Seu avô foi campeão de jiu-jitsu, enquanto seu pai se tornou um mestre da capoeira. A paixão do avô, no entanto, teve que ser contida pela família. "Meu avô tentou voltar a lutar quando tinha 75 anos, mas era muito perigoso!"
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Corrida até a escola
Quando Fernanda ainda estava na escola, ela decidiu calçar seus tênis e ir correndo pra aula. "Era mais rápido correr do que pegar o ônibus, e eu não queria pedir dinheiro pro meu pai. Então, fui até lá e voltei correndo ra minha casa. A casa foi construída nas colinas, então era pra cima e pra baixo. Foi difícil, muito íngreme."
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O medo de ficar cega
A 4.478 m de altitude, Fernanda passou apuros no Matterhorn. Em uma tentativa de subir até o cume, as condições eram tão ruins que suas pálpebras ficaram congeladas, e ela temeu ficar cega.
Mas Fernanda venceu seus próprios demônios para chegar ao topo nas mesmas 24 horas em que escalou o Gran Paradiso.
"Eu não conseguia abrir os olhos e fiquei sozinha por três dias em uma cama de hospital. Ninguém falava inglês. Mas, no segundo dia, uma enfermeira italiana e eu conseguimos falar e ela pegou meu celular pra ligar pra um amigo e explicar que eu estava lá. Naquela ocasião, achei que estava ficando cega, o momento mais assustador da minha vida naquele hospital."
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A morte do colega de quarto
Fernanda enfrentou uma tragédia quando seu colega de apartamento argentino morreu ao levar um cliente britânico para subir o famoso Matterhorn, o que tornou a escalada um "desafio emocional" ainda maior pra ela.
"Perdi Gonzalo. Jantamos um dia antes, e eu estava indo pra uma corrida na Áustria. Quando cheguei lá, um colega disse que uma grande rocha havia caído e matado Gonzalo e seu cliente inglês. Isso teve um grande impacto em mim e não consegui correr bem."
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Um enorme deslizamento
Quando estava avaliando se faria seu desafio duplo Gran Paradiso-Matterhorn, Fernanda tinha dois dias como opção: quinta-feira ou sexta-feira. Ela optou pela quinta. Um alívio.
"Na sexta-feira, um helicóptero teve de resgatar 20 alpinistas por causa de um deslizamento de terra. Tive muita sorte numa montanha perigosa. Há muitas quedas de rochas lá com as mudanças climáticas".
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Salvar o planeta correndo
Além do prazer de se desafiar em suas várias expedições, a mudança climática é o motiva Fernanda tanto nas missões esportivas quanto em sua vida em geral.
"Eu amo a natureza e me sinto em casa nas montanhas. Essa é a minha casa, e é por isso que tenho tanto prazer lá. Acho que é um trabalho melhor inspirar as pessoas nas montanhas", disse. "É sempre um desafio de corrida, mas também é um ponto social, como proteger o inverno e mostrar que há menos geleiras. Como no Matterhorn, a cada ano fica mais perigoso, com fendas e mais deslizamentos de terra. Você pode ver a mudança climática acontecendo", completou.
Meu objetivo não é apenas bater recordes, mas mostrar a beleza e a resistência desses ambientes
Durante o desafio dos "Sete Cumes", Fernanda também chama a atenção para questões urgentes em alguns dos locais mais remotos do mundo. No Kilimanjaro, por exemplo, visitou o Kilimanjaro Orphanage Centre, oferecendo apoio às crianças locais.
Na América do Sul, por sua vez, se envolveu com autoridades de Mendoza pra aumentar a conscientização sobre o gerenciamento sustentável de resíduos no Parque Aconcágua, abordando o forte impacto dos alpinistas no meio ambiente da região, entre outras ações em várias regiões do planeta.
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