Eurico Miranda presidiu o Vasco em duas oportunidades
© Paulo Fernandes / Vasco.com.br

Copa João Havelange: 20 anos, 20 personagens

Resultado de uma disputa judicial, torneio reuniu 116 times em 2000
Escrito por Ricardo Gomes
9 min de leituraPublished on
Quando um Campeonato Brasileiro deixa de ser batizado como Campeonato Brasileiro, desconfie seriamente. Foi o que aconteceu há 20 anos, quando o mais importante torneio de futebol do País teve início dia 29 de julho de 2000, mas com o nome de Copa João Havelange. E tudo começou com uma treta jurídica.
A mudança no título foi só a ponta final de uma confusão que começou no ano anterior. No Brasileiro de 1999, o São Paulo escalou irregularmente o atacante Sandro Hiroshi e isso levou Gama, Inter e Botafogo a recorrerem dos pontos disputados contra o Tricolor. Esse asterisco mexeu com as contas na zona de rebaixamento e o Gama, que seria rebaixado caso a derrota para o São Paulo fosse mantida, foi à Justiça Comum contra a CBF e ganhou o processo, obrigando a entidade a revogar o rebaixamento de 1999 e perdendo o direito de organizar o Brasileirão de 2000.
Dessa forma, quem assumiu a bronca foi o Clube dos 13, que decidiu criar um torneio com 116 clubes, três divisões (nomeadas por cores) e cinco meses de duração. No fim, deu Vasco. A seguir, a gente relembra 20 personagens que ajudaram a construir um dos Brasileiros mais sem noção desse país em todos os tempos.

Adhemar

O atacante foi um dos grandes achados da Copa João Havelange. No São Caetano desde 97, ele ganhou projeção em 2000, quando calou o Maracanã nas oitavas com um golaço de falta contra o Fluminense. Se somados os 15 gols pelo Módulo Amarelo e os sete pelo Módulo Azul, Adhemar foi artilheiro da competição.

Romário

Então com 34 anos, o Baixinho ainda era o principal atacante do Brasil. Romário foi, pra variar, decisivo nos jogos de mata-mata, marcando pelo menos um gol em cada fase. Ao fim do torneio, foram 20, o que dá a ele a artilharia do torneio, considerando apenas os gols pelo Módulo Azul.

Eurico Miranda

No segundo jogo da final entre Vasco e São Caetano, uma parte da arquibancada de São Januário cedeu e um bloco de torcedores foi empurrado contra o alambrado. A partida foi paralisada e o campo foi tomado por torcedores feridos, que recebiam os primeiros atendimentos médicos. Mas parece que o então presidente do Vasco, Eurico Miranda, não se deu conta da gravidade da situação. Ele circulava de um lado para o outro pedindo pressa na remoção dos feridos e o recomeço do jogo. Seus apelos não foram atendidos, e o duelo só foi retomado em janeiro de 2001, no Maracanã.
Eurico Miranda presidiu o Vasco em duas oportunidades

Eurico Miranda presidiu o Vasco em duas oportunidades

© Paulo Fernandes / Vasco.com.br

Dill

O Goiás surpreendeu na João Havelange. Na fase inicial, o clube fez a quarta melhor campanha. Caiu nas quartas de final, para o também surpreendente Paraná. Mas se não fossem os 20 gols do atacante Dill, dificilmente o Esmeraldino chegaria tão longe assim.

João Havelange

Apesar do intenso envolvimento com o futebol, João Havelange nunca praticou a modalidade profissionalmente. Quando atleta, competiu como nadador e no polo aquático. Mas assim que se aposentou, virou um dos mais fortes dirigentes do futebol mundial. Presidiu a Fifa por 24 anos, de 1974 a 1998. O nome de batismo do Brasileiro de 2000 se deu como uma forma de homenagem aos serviços prestados pelo dirigente, morto em 2016 depois de ter o nome envolvido em suspeitas de corrupção, o que o fez renunciar como membro do Comitê Olímpico Internacional.

Fabio Koff

Era o homem-forte por trás da Copa João Havelange. Koff foi o presidente do Clube dos 13, responsável por organizar o campeonato. Além disso, o cartola foi também presidente do Grêmio por cinco anos.
Além do Clube dos 13, Fabio Koff foi também presidente do Grêmio

Além do Clube dos 13, Fabio Koff foi também presidente do Grêmio

© Lucas Uebel / Grêmio

Sandro Hiroshi

Não foi pelos gols que Sandro Hiroshi entrou nessa lista. Ele é o pivô da criação da Copa João Havelange. Enquanto jogador do São Paulo, esteve em campo na goleada por 6 a 1 sobre o Botafogo, pelo Brasileiro de 99. Acontece que, dias depois, o Alvinegro acionou a Justiça despostiva para pedir os pontos daquela partida por conta da escalação irregular do atacante, cujo passe era tido como bloqueado para a CBF. O Fogão anulou no tapetão o resultado do jogo e abriu precedente para outros clubes que já haviam enfrentado o São Paulo.

Magno Alves

A Copa João Havelange foi o grande pulo do gato para Magno Alves, que viu sua carreira decolar após marcar 20 gols no torneio, compartilhando a artilharia do Módulo Azul com Romário e Dill. No jogo contra o Santa Cruz, Magno marcou cinco dos seis gols do Flu na vitória por 6 a 1.
Magno Alves é o quarto maior artilheiro do Fluminense

Magno Alves é o quarto maior artilheiro do Fluminense

© Nelson Perez / Fluminense FC

Jair Picerni

Técnico do São Caetano, vice-campeão brasileiro, Jair Picerni virou manchete também ao trocar socos com um jornalista durante um treino às vésperas da primeira partida da final contra o Vasco. Também levou o Azulão à final da Libertadores em 2001 e, em 2003, comandou o Palmeiras na campanha do título da Série B.

Silvio Santos

Insatisfeito com a cobertura da mídia, sobretudo da Rede Globo, sobre o acidente em São Januário, Eurico Miranda achou um jeito de se vingar. Na partida que definiu o campeão, dia 18 de janeiro de 2001, Eurico ordenou que o Vasco fosse a campo com a marca do SBT na camisa. A ação foi deliberada, sem consulta prévia à emissora. E quem se saiu bem na foto foi Silvio Santos, que ganhou propaganda de sua emissora na rival Globo, que transmitiu o jogo.

Alex

Fundamental na campanha que deu o título da Libertadores ao Palmeiras em 99, Alex entrou 2000 de camisa nova. Sua chegada ao Flamengo era a cereja do bolo em um projeto que contava ainda com Denilson e Gamarra, outras duas aquisições de peso para aquela temporada. O problema é que a promessa de bom futebol naufragou em poucos meses. Nos 12 jogos que Alex fez pelo Fla, apenas um de destaque, na vitória por 4 a 1 sobre o Corinthians, no Pacaembu, quando marcou dois gols. Ao final da temporada, o camisa 10 deixou a Gávea.

Felipão

Ao deixar o Palmeiras, Felipão escolheu o Cruzeiro para dar o passo decisivo na carreira rumo ao sonho de treinar a seleção brasileira. A Copa João Havelange foi o primeiro teste de fogo do treinador à frente do clube. Na primeira fase, campanha impecável, com a liderança no acumulado de pontos e o melhor ataque (54 gols). O problema para Felipão e seus comandados foi ter encarado o poderoso Vasco nas semifinais. Felipão ganharia ainda a Sul-Minas de 2001 antes de ser convidado para dirigir a seleção, após a queda de Emerson Leão.

César

Nem só de Adhemar vivia o São Caetano. Tecnicamente, o lateral César era quem mais saltava aos olhos naquele time. Peça-chave nas subidas ao ataque, foi importante nas classificações contra o Palmeiras (quartas) e Grêmio (semifinais), marcando quatro gols nos quatro jogos. Em 2001, foi contratado pela Lazio, onde ficou cinco anos e passou a jogar de meia-atacante. César passou ainda por Internazionale, Corinthians, Livorno e Bologna.

Ronaldinho Gaúcho

O Brasileiro de 2000 foi o último disputado de ponta a ponta pelo craque antes do seu embarque para a Europa, em 2001. Líder de um Grêmio que só foi parado nas semifinais pelo São Caetano, Ronaldinho encerrou o torneio com 14 gols, sua melhor marca em um Brasileirão.

Leonardo

A moral do Leonardo com a torcida do Sport atingiu outro patamar na vitória de 6 a 0 contra o Atlético-MG, a maior goleada da Copa João Havelange. Dos seis gols marcados pelo rubro-negro, cinco tiveram assinatura do Leonardo. Morreu precocemente, em 2016, quando tinha 41 anos, por uma doença causada pela ingestão de alimentos mal higienizados.

Rincón

Rincón havia acabado de levantar a taça de campeão mundial pelo Corinthians como capitão quando aceitou ganhar o dobro do salário no Santos. O colombiano até foi bem na campanha do vice-campeonato paulista de 2000, mas não repetiu o bom desempenho na Copa João Havelange, quando o Peixe acabou apenas na 14ª colocação.

Oswaldo de Oliveira

O ano de 2000 foi movimentado para Oswaldo. Em janeiro, comandou o Corinthians na conquista do Mundial de Clubes. No dia 6 de junho, viu o Timão ser eliminado nas quartas da Libertadores para o Palmeiras. Dias depois da derrota, foi demitido. Em julho, assumiu o Vasco e fez tudo certinho até dezembro, quando, à revelia do presidente Eurico Miranda, deu folga ao elenco logo após a vitória sobre o Cruzeiro por 3 a 1, que assegurou os cariocas na final da Copa João Havelange. O time também estava garantido na decisão da Mercosul. Mas Eurico é Eurico, demitiu Oswaldo após a desobediência e contratou Joel Santana.

Joel Santana

O único trabalho de Joel para conseguir enfileirar Brasileiro e Mercosul em um semana era manter o elenco vascaíno motivado. E vamos combinar que motivação é o forte do Papai Joel. O Vasco faturou a Mercosul de forma épica - reverteu para 4 a 3 um jogo contra o Palmeiras que estava 3 a 0 para o rival -, e a Copa João Havelange com um empate e uma vitória diante do São Caetano. Oswaldo de Oliveira encaminhou o fim de 2000 perfeito para o Vasco, mas quem ficou com os louros foi Joel Santana.

Edmundo

O Santos de 2000 mostrou ao Brasil que não estava pra brincadeira quando fechou com Edmundo por empréstimo. Antes dele, já haviam desembarcado na Vila Belmiro Carlos Germano e Rincón. Edmundo não deixou a desejar, marcou 12 gols na Copa João Havelange, mas não brilhou o suficiente para carregar o Peixe a uma vaga no mata-mata. Logo após o Brasileiro, o atacante retornou para o Vasco, com quem tinha contrato.

Anthony Garotinho

A vontade de Eurico Miranda diante do desastre em São Januário no segundo jogo da final era tirar os mais de 160 feridos de campo o mais rápido possível para reiniciar o jogo. Ele até tentou, mas foi barrado pelo então governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, que exigiu ao chefe da Defesa Civil que suspendesse a partida. Ainda no gramado, Eurico chamou o governador de 'frouxo' e seguiu sua jornada para fazer a bola rolar, mas de nada adiantou.
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