Quando um Campeonato Brasileiro deixa de ser batizado como Campeonato Brasileiro, desconfie seriamente. Foi o que aconteceu há 20 anos, quando o mais importante torneio de futebol do País teve início dia 29 de julho de 2000, mas com o nome de Copa João Havelange. E tudo começou com uma treta jurídica.
A mudança no título foi só a ponta final de uma confusão que começou no ano anterior. No Brasileiro de 1999, o São Paulo escalou irregularmente o atacante Sandro Hiroshi e isso levou Gama, Inter e Botafogo a recorrerem dos pontos disputados contra o Tricolor. Esse asterisco mexeu com as contas na zona de rebaixamento e o Gama, que seria rebaixado caso a derrota para o São Paulo fosse mantida, foi à Justiça Comum contra a CBF e ganhou o processo, obrigando a entidade a revogar o rebaixamento de 1999 e perdendo o direito de organizar o Brasileirão de 2000.
Dessa forma, quem assumiu a bronca foi o Clube dos 13, que decidiu criar um torneio com 116 clubes, três divisões (nomeadas por cores) e cinco meses de duração. No fim, deu Vasco. A seguir, a gente relembra 20 personagens que ajudaram a construir um dos Brasileiros mais sem noção desse país em todos os tempos.
Adhemar
O atacante foi um dos grandes achados da Copa João Havelange. No São Caetano desde 97, ele ganhou projeção em 2000, quando calou o Maracanã nas oitavas com um golaço de falta contra o Fluminense. Se somados os 15 gols pelo Módulo Amarelo e os sete pelo Módulo Azul, Adhemar foi artilheiro da competição.
Romário
Então com 34 anos, o Baixinho ainda era o principal atacante do Brasil. Romário foi, pra variar, decisivo nos jogos de mata-mata, marcando pelo menos um gol em cada fase. Ao fim do torneio, foram 20, o que dá a ele a artilharia do torneio, considerando apenas os gols pelo Módulo Azul.
Eurico Miranda
No segundo jogo da final entre Vasco e São Caetano, uma parte da arquibancada de São Januário cedeu e um bloco de torcedores foi empurrado contra o alambrado. A partida foi paralisada e o campo foi tomado por torcedores feridos, que recebiam os primeiros atendimentos médicos. Mas parece que o então presidente do Vasco, Eurico Miranda, não se deu conta da gravidade da situação. Ele circulava de um lado para o outro pedindo pressa na remoção dos feridos e o recomeço do jogo. Seus apelos não foram atendidos, e o duelo só foi retomado em janeiro de 2001, no Maracanã.
Dill
O Goiás surpreendeu na João Havelange. Na fase inicial, o clube fez a quarta melhor campanha. Caiu nas quartas de final, para o também surpreendente Paraná. Mas se não fossem os 20 gols do atacante Dill, dificilmente o Esmeraldino chegaria tão longe assim.
João Havelange
Apesar do intenso envolvimento com o futebol, João Havelange nunca praticou a modalidade profissionalmente. Quando atleta, competiu como nadador e no polo aquático. Mas assim que se aposentou, virou um dos mais fortes dirigentes do futebol mundial. Presidiu a Fifa por 24 anos, de 1974 a 1998. O nome de batismo do Brasileiro de 2000 se deu como uma forma de homenagem aos serviços prestados pelo dirigente, morto em 2016 depois de ter o nome envolvido em suspeitas de corrupção, o que o fez renunciar como membro do Comitê Olímpico Internacional.
Fabio Koff
Era o homem-forte por trás da Copa João Havelange. Koff foi o presidente do Clube dos 13, responsável por organizar o campeonato. Além disso, o cartola foi também presidente do Grêmio por cinco anos.
Sandro Hiroshi
Não foi pelos gols que Sandro Hiroshi entrou nessa lista. Ele é o pivô da criação da Copa João Havelange. Enquanto jogador do São Paulo, esteve em campo na goleada por 6 a 1 sobre o Botafogo, pelo Brasileiro de 99. Acontece que, dias depois, o Alvinegro acionou a Justiça despostiva para pedir os pontos daquela partida por conta da escalação irregular do atacante, cujo passe era tido como bloqueado para a CBF. O Fogão anulou no tapetão o resultado do jogo e abriu precedente para outros clubes que já haviam enfrentado o São Paulo.
Magno Alves
A Copa João Havelange foi o grande pulo do gato para Magno Alves, que viu sua carreira decolar após marcar 20 gols no torneio, compartilhando a artilharia do Módulo Azul com Romário e Dill. No jogo contra o Santa Cruz, Magno marcou cinco dos seis gols do Flu na vitória por 6 a 1.
Jair Picerni
Técnico do São Caetano, vice-campeão brasileiro, Jair Picerni virou manchete também ao trocar socos com um jornalista durante um treino às vésperas da primeira partida da final contra o Vasco. Também levou o Azulão à final da Libertadores em 2001 e, em 2003, comandou o Palmeiras na campanha do título da Série B.
Silvio Santos
Insatisfeito com a cobertura da mídia, sobretudo da Rede Globo, sobre o acidente em São Januário, Eurico Miranda achou um jeito de se vingar. Na partida que definiu o campeão, dia 18 de janeiro de 2001, Eurico ordenou que o Vasco fosse a campo com a marca do SBT na camisa. A ação foi deliberada, sem consulta prévia à emissora. E quem se saiu bem na foto foi Silvio Santos, que ganhou propaganda de sua emissora na rival Globo, que transmitiu o jogo.
Alex
Fundamental na campanha que deu o título da Libertadores ao Palmeiras em 99, Alex entrou 2000 de camisa nova. Sua chegada ao Flamengo era a cereja do bolo em um projeto que contava ainda com Denilson e Gamarra, outras duas aquisições de peso para aquela temporada. O problema é que a promessa de bom futebol naufragou em poucos meses. Nos 12 jogos que Alex fez pelo Fla, apenas um de destaque, na vitória por 4 a 1 sobre o Corinthians, no Pacaembu, quando marcou dois gols. Ao final da temporada, o camisa 10 deixou a Gávea.
Felipão
Ao deixar o Palmeiras, Felipão escolheu o Cruzeiro para dar o passo decisivo na carreira rumo ao sonho de treinar a seleção brasileira. A Copa João Havelange foi o primeiro teste de fogo do treinador à frente do clube. Na primeira fase, campanha impecável, com a liderança no acumulado de pontos e o melhor ataque (54 gols). O problema para Felipão e seus comandados foi ter encarado o poderoso Vasco nas semifinais. Felipão ganharia ainda a Sul-Minas de 2001 antes de ser convidado para dirigir a seleção, após a queda de Emerson Leão.
César
Nem só de Adhemar vivia o São Caetano. Tecnicamente, o lateral César era quem mais saltava aos olhos naquele time. Peça-chave nas subidas ao ataque, foi importante nas classificações contra o Palmeiras (quartas) e Grêmio (semifinais), marcando quatro gols nos quatro jogos. Em 2001, foi contratado pela Lazio, onde ficou cinco anos e passou a jogar de meia-atacante. César passou ainda por Internazionale, Corinthians, Livorno e Bologna.
Ronaldinho Gaúcho
O Brasileiro de 2000 foi o último disputado de ponta a ponta pelo craque antes do seu embarque para a Europa, em 2001. Líder de um Grêmio que só foi parado nas semifinais pelo São Caetano, Ronaldinho encerrou o torneio com 14 gols, sua melhor marca em um Brasileirão.
Leonardo
A moral do Leonardo com a torcida do Sport atingiu outro patamar na vitória de 6 a 0 contra o Atlético-MG, a maior goleada da Copa João Havelange. Dos seis gols marcados pelo rubro-negro, cinco tiveram assinatura do Leonardo. Morreu precocemente, em 2016, quando tinha 41 anos, por uma doença causada pela ingestão de alimentos mal higienizados.
Rincón
Rincón havia acabado de levantar a taça de campeão mundial pelo Corinthians como capitão quando aceitou ganhar o dobro do salário no Santos. O colombiano até foi bem na campanha do vice-campeonato paulista de 2000, mas não repetiu o bom desempenho na Copa João Havelange, quando o Peixe acabou apenas na 14ª colocação.
Oswaldo de Oliveira
O ano de 2000 foi movimentado para Oswaldo. Em janeiro, comandou o Corinthians na conquista do Mundial de Clubes. No dia 6 de junho, viu o Timão ser eliminado nas quartas da Libertadores para o Palmeiras. Dias depois da derrota, foi demitido. Em julho, assumiu o Vasco e fez tudo certinho até dezembro, quando, à revelia do presidente Eurico Miranda, deu folga ao elenco logo após a vitória sobre o Cruzeiro por 3 a 1, que assegurou os cariocas na final da Copa João Havelange. O time também estava garantido na decisão da Mercosul. Mas Eurico é Eurico, demitiu Oswaldo após a desobediência e contratou Joel Santana.
Joel Santana
O único trabalho de Joel para conseguir enfileirar Brasileiro e Mercosul em um semana era manter o elenco vascaíno motivado. E vamos combinar que motivação é o forte do Papai Joel. O Vasco faturou a Mercosul de forma épica - reverteu para 4 a 3 um jogo contra o Palmeiras que estava 3 a 0 para o rival -, e a Copa João Havelange com um empate e uma vitória diante do São Caetano. Oswaldo de Oliveira encaminhou o fim de 2000 perfeito para o Vasco, mas quem ficou com os louros foi Joel Santana.
Edmundo
O Santos de 2000 mostrou ao Brasil que não estava pra brincadeira quando fechou com Edmundo por empréstimo. Antes dele, já haviam desembarcado na Vila Belmiro Carlos Germano e Rincón. Edmundo não deixou a desejar, marcou 12 gols na Copa João Havelange, mas não brilhou o suficiente para carregar o Peixe a uma vaga no mata-mata. Logo após o Brasileiro, o atacante retornou para o Vasco, com quem tinha contrato.
Anthony Garotinho
A vontade de Eurico Miranda diante do desastre em São Januário no segundo jogo da final era tirar os mais de 160 feridos de campo o mais rápido possível para reiniciar o jogo. Ele até tentou, mas foi barrado pelo então governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, que exigiu ao chefe da Defesa Civil que suspendesse a partida. Ainda no gramado, Eurico chamou o governador de 'frouxo' e seguiu sua jornada para fazer a bola rolar, mas de nada adiantou.
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