Jürgen Klopp pictured during a photo shoot in Germany to celebrate his new role as Red Bull's Head of Global Football.
© Norman Konrad
Futebol

Exclusivo: Jürgen Klopp fala sobre o poder de uma mentalidade positiva

O treinador fala sobre derrotas, a força de um sorriso e por que é importante arriscar tudo de vez em quando.
Escrito por Tobias Moorstedt, com adaptação de Mariana Lajolo
10 min de leituraPublished on

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Dizem que as pessoas geralmente parecem menores na vida real do que na televisão. Isso não se aplica a Jürgen Klopp. Pessoalmente, ele parece muito maior. Um metro e oitenta, magro, uma voz poderosa e um aperto de mão firme. Embora este não seja um vestiário --e ele não esteja preparando uma equipe prum grande jogo--, Klopp ainda se torna o centro das atenções. Também não há nada de pretensioso nele. Ele não precisa de uma sala VIP ou de um vestiário exclusivo. Ele é amigável, descomplicado e cheio de energia.
Desde Franz Beckenbauer, ninguém no futebol alemão conquistou tanto respeito universal. O técnico mais bem-sucedido dos últimos anos agora atua como diretor de futebol global da Red Bull, responsável pelas diretrizes esportivas de clubes em quatro continentes: Nova York, Leipzig, Brasil e Japão.
Um desafio que ele tem encarado como todos os que enfrentou em sua carreira: com otimismo. E aqui ele conta como faz isso.

Parece haver uma sensação de desconforto em relação ao futuro em todo o mundo. Como você está se sentindo?

Jürgen Klopp: Estou muito otimista. É claro que isso não se aplica a todos os aspectos da vida ou a tudo o que está acontecendo no mundo. Muitos recursos que há muito tempo acreditávamos serem infinitos estão se tornando mais escassos e mais caros por todos os tipos de razões. E muitas coisas estão simplesmente fora do nosso controle. Esse é o ponto: sou otimista com relação às coisas que posso influenciar. Com relação ao resto, você tem que conviver e, de alguma forma, lidar com isso.

Parece fácil dizer.

Jürgen Klopp: É claro que muitas pessoas sofrem muito mais do que eu devido à minha posição privilegiada. Estou ciente disso. Estou aqui sentado, aos 58 anos, tendo vivido uma vida com a qual eu não ousaria sonhar quando jovem. Mas há 40 anos eu já era a mesma pessoa, com os mesmos valores. Você poderia chamar isso de "otimismo infundado". Mas sempre acredito que tudo vai dar certo.

Você precisa ser otimista pra ter sucesso nos esportes de elite?

Jürgen Klopp: Na infância, eu amava profundamente o esporte e era um dos melhores da região. Mas mesmo naquela época, o realista dentro de mim sabia: não sou bom o suficiente. Tive uma carreira profissional mediana, que tornou possível tudo o que aconteceu depois. Você realmente precisa de otimismo pra realizar seus sonhos. Mas o realismo também é importante. O pessimismo por si só é inútil para mim.

Jürgen Klopp, diretor de futebol global da Red Bull, posa para um retrato de estúdio em agosto de 2024

Jürgen Klopp, diretor de futebol global da Red Bull

© Lea Wohlfahrt / Red Bull Content Pool

Por quê?

Jürgen Klopp: O pessimismo geralmente decorre de experiências passadas em que as coisas não saíram como você esperava. Essa experiência geralmente leva as pessoas a deixarem de acreditar no que podem alcançar no futuro. Pra mim, as coisas que não deram certo no passado são simplesmente a informação de que não deram certo. Nunca permiti que isso me prendesse além do próprio fracasso.

Como você incendeia uma equipe, um clube, uma cidade inteira?

Jürgen Klopp: Tudo tem seu tempo: tristeza, raiva, reflexão. As piores derrotas de minha vida foram as promoções perdidas com o Mainz 05. De repente, esse pequeno clube tinha a chance de chegar à Bundesliga e falhamos na última rodada por um ponto. Naquele momento, foi o pior dia da minha vida. Depois de uma noite de muita bebida, o mundo parecia diferente novamente. "Durma sobre o assunto" é um conselho genuíno que eu daria a todos antes de tomar uma grande decisão.

E então?

Jürgen Klopp: Na manhã seguinte, eu já estava pensando: estávamos tão bem, tão perto, vamos otimizar um pouco e vamos conseguir no próximo ano. E então perdemos a promoção novamente, dessa vez por um gol. Eu me senti intimidado pelos deuses do futebol. Eu sabia que, se fracassasse pela terceira vez, minha grande carreira como técnico estaria encerrada. Mas então finalmente conseguimos. As derrotas na final da Liga dos Campeões em 2013, 2018 e 2022 também não foram boas. Mas eu sabia que elas não mudariam mais minha vida. Aquelas derrotas iniciais me moldaram, sem dúvida.

Juergen Klopp visto no Hangar-7, em Salzburgo, Áustria, em 14 de janeiro de 2025.

Jürgen Klopp na nova função como diretor de futebol global da Red Bull

© Joerg Mitter/Red Bull Content Pool

A maioria das pessoas teria cavado um buraco e se arrastado pra dentro dele.

Jürgen Klopp: Isso não é possível nessa função. Os jogadores geralmente pensam apenas na próxima sessão de treinamento ou partida, sem críticas. Mas alguém tem de mostrar o caminho e criar a sensação de que as metas são alcançáveis. Depois da segunda promoção perdida com o Mainz, subi em um palco e disse que talvez o deus do futebol estivesse fazendo um experimento conosco: se você pode cair não apenas uma, mas duas ou até três vezes e ainda sair mais forte. E eu disse que não há clube melhor nem cidade melhor do que Mainz pra esse experimento. Naquele momento, os 25 jogadores, as 20 mil pessoas em frente ao palco, todos acreditaram. Na primeira sessão de treinamento, 10 mil pessoas compareceram.

Em 2001, o então diretor esportivo do Mainz, Christian Heidel, ligou para você e perguntou se poderia assumir o cargo de treinador. Como adquiriu a confiança pra enfrentar tais desafios?

Jürgen Klopp: Você poderia resumir isso como imprudência juvenil. Eu tinha 33 anos, era formado em ciências do esporte, mas não tinha experiência. A pergunta não era: "Você consegue fazer isso pelo resto da temporada?" Mas sim: "Você pode preparar a equipe ara quarta-feira?" E então eu pensei: "Sim, eu posso fazer isso". E então vencemos seis dos primeiros sete jogos.

A lição é pensar em pequenos passos.

Jürgen Klopp: Exatamente. Definir pra você o grande objetivo e depois estar preparado pra dar cada passo necessário é a única maneira de ter sucesso.

Jürgen Klopp sorrindo no Grande Prêmio da Áustria de Fórmula 1 em Spielberg

Jürgen Klopp no Grande Prêmio da Áustria em Spielberg

© Getty Images / Red Bull Content Pool

Os cientistas investigaram por que as pessoas são diferentemente otimistas: 30% é o DNA, 20% é sorte. Outra metade é um ambiente onde você aprende isso. Por que você acha que é como é?

Jürgen Klopp: Acima de tudo, você é moldado pela família em que cresceu. Eu era o terceiro filho de meus pais, cinco anos mais novo e, finalmente, o herdeiro aparente depois de duas meninas. Eu poderia ter me tornado um completo idiota, eles me mimaram muito. Mas isso também me levou a ter confiança absoluta nas pessoas. Eu me aproximo das pessoas de forma positiva e sem absolutamente nenhum preconceito. Se eu ficar desapontado, posso lidar com isso depois.

Seus pais incutiram esses valores em você?

Jürgen Klopp: Meu pai vem da geração anterior à guerra e era muito exigente. Ele me dizia que me amava todos os dias? Não, mas eu sentia isso. Ele via em mim o cara que poderia alcançar tudo o que ele não conseguiu, e me pressionava. Não sei se isso se deve à minha educação, ao meu DNA ou se é uma decisão minha. Mas o que importa é que: Quero viver a vida com otimismo e ser valioso pras pessoas com quem interajo. Não basta apenas que eu esteja feliz.

Jürgen Klopp

Jürgen Klopp

© Jason Halayko / Red Bull Content Pool

Steven Gerrard, lenda do Liverpool, disse certa vez que "Jürgen Klopp sempre sorria quando entrava no vestiário". Isso é verdade?

Jürgen Klopp: Eu não estava ciente disso. Mas é claro que, quando você entra no vestiário, precisa preparar a equipe pro jogo da melhor maneira possível. O objetivo é garantir que o grupo de pessoas que está sentado ali, depois de eu ter conversado com elas, esteja mais forte do que antes. Exijo muito dos meus jogadores: coragem, criatividade e união. O sorriso é provavelmente a única expressão facial que torna isso possível.

Você disse uma vez: "Se você pudesse engarrafar e vender o que eu sinto antes de um jogo, seria ilegal". O que você diria no rótulo?

Jürgen Klopp: Uma sede de sucesso. Sede de competição. Uma sede pelo jogo. Uma sede pelo que você pode influenciar. Diga-me uma coisa na vida que você pode fazer melhor se for mal-humorado.

Você tem alguma dica sobre como evitar isso?

Jürgen Klopp: Minha carreira foi perfeita, mesmo que eu não tenha vencido todos os jogos. Há pessoas que dizem: "Ele perdeu a final da Liga dos Campeões três vezes". Isso é legítimo. Mas quão estúpido eu seria se visse as coisas dessa forma? Depende de mim como eu lido com as coisas que acontecem na vida. Se você perde um jogo, pode dizer: "O plano de jogo estava errado. De volta à estaca zero". Ou você pode dizer: "A ideia era boa, mas a execução não foi a ideal. O momento, a precisão". E, dessa forma, você tem a oportunidade de ser melhor da próxima vez.

Jürgen Klopp posa para uma foto durante uma sessão de fotos para promover sua nova função como diretor de futebol global da Red Bull.

Exatamente como Klopp pretendia: O RB Leipzig tem o time mais jovem da liga

© Norman Konrad

Você está passando por situações semelhantes à do campo em seu novo emprego?

Jürgen Klopp: Bem, em primeiro lugar, não sinto falta da adrenalina. Ainda estou conectado ao jogo, talvez de uma forma menos intensa. Mas continuo investindo em nossas equipes e treinadores. Estou muito empolgado com meu trabalho, com as conversas com pessoas em diferentes posições, em diferentes países, com intercâmbio constante. Aprendo algo novo todos os dias. E essa é a minha emoção. O fato de poder finalmente satisfazer minha curiosidade sobre o mundo.

O que mudou em sua nova função?

Jürgen Klopp: Não sinto falta do vestiário. Já estive lá muitas vezes. E você também não sente um cheiro muito bom lá dentro. O primeiro ano na Red Bull foi incrivelmente intenso. Iniciamos muitas coisas e quebramos velhos padrões. Assim como em meus clubes anteriores, eu não cheguei e disse às pessoas no primeiro dia o que elas precisavam fazer de diferente. Quero saber com quem estou lidando, o que estão fazendo e por quê. Então, poderemos conversar sobre mudanças e melhorias.

Jürgen Klopp fotografado durante uma sessão de fotos na Alemanha para comemorar sua nova função como diretor de futebol global da Red Bull.

Klopp trocou o vestiário por um escritório em sua nova função

© Norman Konrad

Você pode se treinar pra ser otimista?

Jürgen Klopp: Minha perspectiva de vida é baseada na reflexão sobre as coisas que aconteceram comigo. Ninguém nunca me disse que você tem de lidar com ventos contrários e contratempos de uma forma ou de outra. Essa foi uma decisão minha. Quando você olha de onde eu vim e pra onde minha carreira me levou, penso comigo mesmo: isso é realmente impossível. E eu gostaria de fingir agora que sabia o caminho certo em cada encruzilhada ou crise. Mas não era esse o caso. Eu esperava que fosse a decisão certa. E na próxima vez, eu estava pronto pra arriscar tudo novamente.

Como você vê isso na prática?

Jürgen Klopp: Não quero dar uma receita pros jovens. Só posso dizer que funcionou pra mim. Minha vida profissional tem sido cerca de 90.000% melhor do que eu imaginava. Mas também houve outros momentos, como quando minha esposa Ulla e eu nos sentamos à mesa da cozinha e avaliamos se teríamos condições de me dar ao luxo de colocar tudo no futebol. Sabíamos que, se não desse certo, teríamos de pegar o táxi. E então nós dois pisamos no acelerador. E, no final, deu certo. Foi uma grande jornada, e muitas pessoas me ajudaram ao longo do caminho. Talvez essa seja a mensagem: Seja corajoso e cerque-se das pessoas certas. Assim, as coisas podem dar certo.

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